domingo, dezembro 30, 2012

É um bocado difícil ser sincero. E é bem mais complicado ser consigo mesmo do que com os outros. Há dentro de minha consciência vários pequenos atalhos, métodos de enganação, coisas que já me acostumei tanto a repetir que as mentiras quase saem respiradoramente. Não creio que essa palavra exista. Mentir para os outros é mais complexo, mais ainda se eu estiver mesmo na tentativa de que a pessoa acredite naquilo que falo, algumas vezes é irrelevante o outro.

É óbvio que há momento aonde isto não acontece, quando sou sincero ao extremo. Creio que o mais evidente e costumeiro deles se faz quando escrevo, é um bocado difícil mentir com meu fluxo de pensamento, a preocupação estilística. Mas talvez não consigo mentir escrevendo porque isto age em mim como válvula de escape. Também há uns poucos momentos aonde sou verdadeiro com pessoas reais, em conversas reais. Foram muito poucos, admito, mas estes ficaram marcados na minha memoria como alguma coisa boa. É muito bom ser sincero, mas ao mesmo tempo muito difícil.

--Creio que consegui chegar aonde queria com este inicio de texto, reescrevi-o algumas vezes porque não conseguia atingir aquilo que queria dizer, mas acho que achei a saída daquilo que quero, a divagação sobre a dificuldade de ser sincero, em ambas as possibilidades de interpretação desta frase; a como é difícil agir sinceramente e como isto traz complicações, é perigoso.--

Talvez seja tudo fruto do medo, ele traz a mentira própria dentro de si. Eu tenho medo das pessoas que não entendo - quase todas - e tenho medo daquilo que há dentro de mim que não entendo - quase tudo - há momentos em que consigo atingir a compreensão com algumas delas - as pessoas - de forma que qualquer mentira não é preciso. Eu sei que elas não vão me machucar com as verdades que conto, reconheço nelas aquilo primordial que há em mim de bom e isso é ótimo. Mas quase nunca isso acontece e é por isso que tudo é tão difícil.

Sou uma pessoa quebrada. Se não de nascimento sim pela vivência errada que tive. Perdi muitas possibilidades de ser feliz e não creio que tantas mais poderão vir no futuro. Isso me força a apenas afundar num pequeno mar de mentiras e invenções que não são necessariamente agradáveis, mas que pelo menos não tem o risco de machucar-me profundamente. As verdades, quando vividas, são as piores coisas a se encarar.

 --não consegui fazer o menor sentido lógico, acho. este texto falhou em sua proposta e, se não estivesse postando tudo que escrevo, ele seria um rascunho. mas não posso mentir também com isto, de forma que horrível ou não, esta colocado junto com os outros --

sábado, dezembro 29, 2012

terceira parte

Terceiro e último post com um conto do Heitor aonde eu apareço. É o mais curto, simples e depressivo, mas deixa marcado alguma coisa do passado que eu esqueci (ou esqueci de esquecer)

Não tem título.

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Nós todos andamos olhando para baixo.

Um dia C. chegou com ombros largos e nos disse “de agora em diante andarei com a cabeça erguida”. Ficamos espantados, mas ao menos achamos que algo bom havia ocorrido.

Foi quando no dia seguinte o vimos chegar à faculdade, com a cabeça erguida, sim, erguida demais. Olhando para cima, para o céu. Ele esbarrava nas pessoas e tropeçava constantemente.

Não conseguia mais se locomover como antes. Pegava o ônibus necessário, mas os pontos corriam por debaixo de seus olhos assim nunca descia no correto. Por isso tinha que andar um longo caminho até sua casa, o que fazia com que tropeçasse mais e mais. A cada dia aparecia com novos machucados, alguns começando a se tornar sérios.Depois de uma semana ele nos disse tchau, se virou e andou direto em direção à um barranco.

No dia seguinte ele disse oi aos nossos sapatos.

terça-feira, dezembro 25, 2012

É noite de natal, estou sozinho em casa. Não que isto seja de alguma forma novidade, ou algo que me abale profundamente, estou muito bem acostumado a passar todos os momentos apenas comigo mesmo e mais nada. Mas é noite de natal e deveria ser de alguma forma confortável. Ou eu estou sensibilizando demais uma segunda-feira comum.

Olhando por outro lado, é noite de natal e somente agora estou sozinho. Nas ultimas cinco horas estive ao redor de muitas pessoas, e embora nem todas gostassem da minha companhia eu não me senti desconfortável. Até virei Papai-Noel para umas crianças, com roupa, sino, voz e tudo mais.

Nisso tenho que deixar marcado o quão impressionante foi o olhar de surpresa e alegria de um menino. Não devia ter mais que uns cinco anos e realmente acreditou que eu era o papai Noel. Como era a pessoa mais “estrangeira” da festinha que estava, era o menos conhecido, o garoto não notou minha ausência nos segundo que me vestiam, e acreditou totalmente que eu era o Noel. Sua expressão de alegria valeu a pena da noite, acho.
Depois sai com os garotos de Salé. Digo garotos porque eles são todos muito mais novos que eu, um chega a ter 16 anos. Sair com molecada não é nada inédito, o Paulo Punk bebia comigo aos 11, mas agora eu não reconheço mais nenhuma cara alem da desses, uns poucos mais de cinco que eu consigo conversar de boa, beber e tudo mais. E como eles são molecotes e eu um velho sem esperança, acabo desanimando bem antes deles. Há nos garotos a força física e a vontade moral de tentar, alem de que meninas preferem os novinhos bonitos a um velho decadente. Eles avançam e eu acompanho a passos lentos, no máximo pontuando com experiência fingida ou pequenos conhecimentos prosaicos. Nada muito diferente de sempre, devo notar..

E então acabei às duas da manhã sozinho em casa, sem família, sem amigos, só eu e minhas lembranças, eu e as vozes que ressoam toda noite, eu e a esperança de dormir rapidamente e ter um bom sonho. Acabo eu e mais ninguém, como sempre foi e sempre será.

nada como ser original.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Foi bem divertido

Ok, a exatamente um ano atrás eu estava miserável. Possivelmente o mais miserável que jamais estive. Havia acabado de fazer mais um aniversário e não possuía nenhuma esperança, para absolutamente nada. Tinha, exatamente como o titulo explicava, perdido.

O que escrevi nesse dia ainda ressoa um bocado em mim, há uma certa força verdadeira nisso e eu de vez em quando releio. Nesse momento estava desesperado, desiludido, derrotado. Não apenas não possuía forças de lutar contra todo o resto como via claramente que, mesmo se lutasse, haveria de perder. Não tinha porque tentar, não precisava apostar nenhuma das minhas - poucas - fichas em algo alem do ficar deitado, em posição fetal, e torcer pra morrer. Esse post ainda ressoa, ainda se comunica muito comigo.

Porem, se isso é verdade, também o é que eu estou relativamente melhor do que isso. Não quero dizer que todas as minhas angustias sumiram, que essa sensação de desgosto, desesperança, derrota desapareceu. Mas nada neste ano foi tão ruim como esse dia dessa postagem. Tive meus altos e baixos. Momentos realmente incríveis. Vivi, de verdade, mesmo que por apenas alguns pouquíssimos segundos. E creio que um dos maiores problemas que enfrentei nesse dia, a um ano atrás, foi a incapacidade de poder viver.

Enfim, não posso dizer que venci, não venci mesmo. Na verdade creio que perdi mais do que antes. Sobre certos aspectos posso dizer que estou mais derrotado que antes, derrotado de verdade, sem esperanças de ganhar. Mas ainda sim não me sinto tão mal quanto nesse dia. E creio possuir vários motivos pra isso, vários motivos que me fazem olhar pra algum pequeno futuro senão com esperança, pelo menos com alguma coisa boa dentro de mim, alguma pequena coisa que pode me aquecer quando todo o resto congela. Tenho algumas lembranças, algumas memórias, algumas poucas palavras ditas em certos momentos que fizeram toda a diferença. E se isso não me dá uma total esperança de encarar o possível futuro horrível e solitário que esta certamente a vir ano que vem, pelo menos sei que não foi tudo tão em vão assim.

De qualquer forma, foi bem divertido.

terça-feira, dezembro 18, 2012

A segunda parte - Histórias do Heitor.

Isso é outra das coisas que o heitor escreveu a décadas atrás. Apareço mais como personagem do que algo relevante, mas ainda é uma boa descrição, e tenho uma boa cena. O "melhor dia de SP" foi quando fomos beber em casa, Peiotte e a Carol, Heitor, Matheus e a Flora (eles caíram fora cedo) e Alba e eu. Levamos um punhado de bebida, ficamos bêbados e foi, em um momento, a melhor noite em sp.

É interessante também ver o índice de amizade dos 3, Heitor Peiotte e eu. Hoje em dia o Heitor e o Peiotte não conversam tanto, mas eu ando bem com ambos.

Enfim, ao conto, que seja. É um bom conto.


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Estávamos sentados em minha cozinha, eu e C. no banco aparafusado a parede e Marcelo do outro lado. Acho que não conseguíamos nos decidir em alguma coisa para fazer, isso andava acontecendo bastante. Se não me engano foi C. quem lançou:
- Ei, se lembram da melhor noite de São Paulo?
Eu me lembrava, dei um aceno com a cabeça. Marcelo ficou uns instantes olhando para o teto, depois soltou um “ah, lembro-me”. Nunca vou entender os momentos que ele escolhe para usar ênclises. Logo depois C. continuou:
- Por que mesmo aquela foi a melhor noite de São Paulo?
- Hum, - eu disse – acho que foi porque nós nos divertimos aquele dia, não? Eu me lembro que nos sentimos alegres falando de um futuro que nunca vai acontecer. E depois a gente se sentiu confortável dentro de carros conhecidos e de carros desconhecidos. Eu acho que foi isso.
- Mas sabe, - ele respondeu - será que isso quer dizer que nunca mais vamos ter uma noite melhor que aquela? Tudo que a gente fizer vai ser pior que aquilo com certeza?
- Pelo menos foi só de São Paulo, ainda tem um monte de cidade para a gente visitar; foi o que Marcelo disse. Acho que ele estava bêbado na hora, não me lembro muito bem.
- Além do mais, - eu disse - só porque aquela foi a melhor não quer dizer que outras não possam ser boas. Dá para as outras noites serem um tiquinho piores, mas ainda assim muito divertidas.
- É verdade! É verdade! – foi o que o C. exclamou. Ele se animou um pouco e começou a fazer uma dança com alguns de seus dedos.
Depois disso ficamos em silêncio por mais alguns momentos. C. continuava com sua dancinha e Marcelo com os olhos no teto. Não sei o que eu fazia. Devia estar prestando atenção nos dois, eu acho. Marcelo então baixou os olhos e disse:
- Nessa noite eu não tive uma briga feia com a minha ex-namorada?
- Não consigo me lembrar de muitas coisas. - disse o C., sem parar com sua dança.
- Vocês estão falando sério que não se lembram de nada? – eu disse – É, você brigou sim com sua ex-namorada. E o C. se sentiu muito mal por ter feito um papel de bobo para a dele, não se lembram de nada disso? Todos vocês passaram mal, alguns vomitaram, e terminaram a noite completamente tristes.
- Rapaz! – C. disse – É verdade, to me recordando agora. Tinha me esquecido de tudo isso.
- Espera aí. – foi o Marcelo dizendo – Quer dizer que toda essa porcaria só aconteceu com a gente? E com você, não aconteceu nada? Você não brigou com ninguém nem sentiu nada por causa da noite?
- Não briguei com ninguém, com quem eu poderia brigar? Eu não estava com ninguém, eu estava vendo desenhos animados enquanto vocês brigavam. Também não teria porque me sentir mal. Se qualquer coisa, eu me senti um pouco alegre por ver todos os casais brigando e terminando mal a noite enquanto eu estava alegre com meus desenhos.
Marcelo deu uma suspirada. A dancinha dos dedos de C. havia mudado, como se a música para a qual dançassem fosse agora mais triste. Eu dei um último gole em meu copo e com isso toda nossa bebida tinha acabado.
- Não sei se tenho mais muita vontade de lembrar da melhor noite de São Paulo, ela não me parece mais muito boa. E se realmente nunca mais tivermos nada melhor que aquilo será uma tristeza. – disse Marcelo.
- Quem sabe “Melhor” seja só um título, sabe? – disse C. – que nem o Elton John ser um Sir.
- É verdade. Ele é um Sir e a música dele continua uma porcaria. – eu disse.
Enquanto C. discutia comigo quão fabuloso Elton John era, Marcelo pegou um talher qualquer jogado na mesa e começou a bater levemente do lado de seu copo vazio. Paramos e olhamos para ele:
- Proponho então um brinde. Aqui está, para hoje! A Pior Noite de São Paulo!
- Pior noite? – eu disse – Não está tão ruim assim.
-É! – disse C. – Eu até comi hoje!
- Isso não importa! – Marcelo disse – A idéia é transformar essa na pior noite de todas. Se essa aqui for a pior quer dizer que as outras serão melhores, logo não temos muito a perder.
“É, faz senti...” foi o que C. disse. Mas na hora que estava para terminar a frase o banco onde estávamos soltou da parede e caímos no chão. Nenhum dos dois se machucou muito. Depois de nos levantarmos C. tentava reerguer o banco, achando que aquilo era de alguma forma culpa dele.
- Não se preocupe. – eu disse – Esse banco já estava velho. Há mais de 15 anos que eu sentava nele, uma hora ia quebrar. De qualquer jeito ele durou mais do que a maioria de nós. Você estava falando de um brinde?
- É! – disse C. – À pior noite de São Paulo?
- Á Pior Noite de São Paulo!

E brindamos com nossos copos vazios.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pessoas que por ventura venham a ler esta coisa hão de achar que minha vida é completamente medíocre, entristecida, baseada apenas na miserabilidade e na impossibilidade das coisas darem certo. Elas estariam certas, sobre um ponto de vista sim. Mas se é verdade que grande parte das vezes estou desgostoso com praticamente tudo ao redor, também é verdade que há alguns grandes momentos aonde há felicidade extrema, aonde eu não consigo me contar dentro de mim mesmo de tantas coisas boas que sinto, daquilo que vem a ser esperança e tudo mais.

Interessante notar que, esta próxima lembrança é totalmente recente. Há uma regra implícita nisso daqui que somente coisas velhas seriam escritas, apenas as lembranças que eu relembro vagamente e que foram de alguma forma relevantes pra mim. Isto que virá agora é novo, mas sinto na necessidade de pelo menos escrever sobre, porque alem de ser um contraponto as memorias ruins, é também um demonstrativo de que não sou o mais insignificante dos seres. Enfim...

Aconteceu a não mais que seis meses. Eu ainda estava saindo com a Ju, praticamente um numero par de dias na semana e conversava com ela todo dia, a quase todo momento. Era um final de semana, e não lembro por qual motivo ela estava em sp. Creio que tinha ido nalguma coisa de uma amiga, talvez um pre-casamento em que ela seria madrinha. O ponto é que eu havia chamado pra vir aqui, em casa, para que pudéssemos beber. Havíamos feito isso já, ela tinha colado aqui e bebido algumas cervejas comigo, ouvido musica, nada de muito impressionante mas ainda sim a coisa mais impressionante do mundo. Era extremamente agradável apenas estar ali, ouvindo algumas musicas, bebendo e comendo os menores amendoins do mundo.

De qualquer forma, eu havia a chamado pra vir aqui beber e ouvir musica de novo, mas ela já havia deixado claro que as chances disso acontecer era praticamente zero. Alem de ter que ficar com a amiga com algum tempo (possivelmente era um jantar ou coisa parecida. é bem provável.) havia vários outros pequenos problemas que não a permitiam isso. Eu me lembro de ter ficado triste, mas não exatamente triste. Digo, era óbvio que a companhia dela era algo muito bom, mas o simples fato de eu existir enquanto possibilidade já me deixava... a palavra me escapa, mas era como estar integrado a um universo maior do que eu, e aonde as coisas faziam um grande sentido. De qualquer forma, não estava triste.

Lembro de ter acabado de descobrir, naquela tarde enquanto nutria minúsculas esperanças de poder ver-la, a banda Comparative Anatomy. Essa é uma banda de musica estranha, bizarra, aonde misturam-se sons de animais com outras situações. Lembro de ter ficado umas quatro horas ouvindo a banda, sem parar.

Também havia baixado a alguns dias aquele filme do Jimi Stewart e do Capra, "It's a Wonderfull Life". Já que a Ju não viria, achei de bom tom finalizar a noite com o filme, que tinha umas três horas.

Esse filme me arrebatou completamente. Havia nele alguma coisa de verdadeira, embora seja a história mais melosa do mundo, mas a tentativa de suicídio do personagem, no momento mais importante do filme, dialogou com aquilo que eu havia sido antes daquele dia de forma muito forte.

Não mais que umas horas depois do filme acabar, enquanto eu estava completamente absorto com tudo aquilo, a Ju me manda uma mensagem perguntando se ainda era possível dela vir em casa. E fui encontra-la no metro, e bebemos cerveja e ouvimos musica.

Eu estava feliz. Perceba que não era uma felicidade pelas boas coisas que aconteceram, pela musica ou filme ou pela garota, mas sim pelo grande conjunto das coisas, pelo modo como tudo ali fazia sentido. Era uma tarde e noite aonde eu sabia muito bem que tudo isso que era bom e me deixava feliz haveria de acabar muito rápido -sempre acaba- mas essa noção de uma inescapável futura tristeza e falta de perspectiva era inexistente. Eu sabia que, pelo menos, teria a lembrança de algum momento tudo valer a pena.

Enfim, é uma ótima memória.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Não é tanto novidade...

[isto foi escrito a alguns dias atrás, em salesópolis, enquanto estava sozinho e perdido e tudo mais. nada muito diferente de todo um resto, mas ainda sim me sinto na obrigação de colocar pra não esquecer o quão baixo já fui. Obviamente pode acabar soando uma punhetação de uma mesma ideia repetida ad nauseam, mas enfim não acho que rejeitar uma madrugada deprimente só por ter tido setecentas madrugadas iguais seja algo correto. Isso e foda-se, ninguém realmente lê isso daqui]
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Estou no meu quarto escuro, novamente em salesópolis. Chove uma chuva estranha, trovoadas imensas alternando momentos de total tranquilidade e uma secura que passa da rua pra minha boca, e então no momento seguinte volta a cair o mundo aquático. Aqui dentro só tenho uma cama, sem lençol nem nada, apenas um travesseiro. O quarto está escuro, o chão esta sujo, não tenho comida e agua só da torneira. Não tem absolutamente nada.

Hoje tomei um remédio que, acho, vai me ajudar a dormir. É possivel que acabe me deixando doente, caso abuse de usa-lo – talvez algum problema no rim, imagino, tenho andado muito ruim do rim  nos ultimos seis meses– mas queria dormir hoje, eu preciso dormir profundamente hoje.

Ontem não consegui dormir. Fiquei toda a madrugada, das 11 até as 5 remoendo coisas na minha cabeça. Não quero entrar em detalhes de pequenas insanidades da madrugada já descritas tantas outras vezes mas novamente foram vozes, desesperança, anseios de suicídio e o remoer deitado, sem perspectiva de motivação para continuar passando essa vergonha.

Em Salesópolis agora sinto-me um estrangeiro. Nunca tive este tipo de sensação aqui, embora em SP seja quase sempre uma certeza. Tudo aqui que um dia eu conheci desapareceu, não conheço mais as pessoas na rua, as lojas, os motivos e vontades. Antes eu entendia as bases dessa cidade, entendia os motivos e movimentos de todo mundo. Hoje estou perdido, ou pelo menos me sinto um perdido aqui. Tanto isso que praticamente não sai de casa em nenhum desses cinco que estive aqui. Apenas trancado em casa, lendo, assistindo filmes, olhando para o teto e matando moscas de vez em quando. Sai no domingo, e não encontrei nada daquilo que achava antes. Até mesmo a velha pinga-com-mel-e-limão, que me era um porto seguro de prazer, desapareceu, o Toninho-do-Tó vendeu o bar para um homem que faz uma dose ridícula. Não comi nenhuma garota (na verdade nem achei garota que conhecesse ou alguns daqueles moleques novos, a nova mulecada que estou andando junto nesses novos tempos)

Enfim, este texto todo é pra deixar claro que os tempos estão mudando, e eu não sei para onde. Não tenho a menor ideia de nada, e não consigo ver que essa mudança traz consigo boas coisas, apenas as velhas merdas de sempre, de sempre e sempre horríveis.

na pior das hipóteses sei que a minha presença ainda estará aqui, e eu não a aguentarei. Tudo tão horrível como sempre, mas não vou reescrever coisas que já descrevi tanto em outros momentos.

O remédio começa a fazer efeito. Meus olhos estão doendo, tanto da luz desse leptop como pelo sono. Minha perna esta dormente, os dedos lerdos. Uma queimação na barriga sobe, culpa creio do remédio. Estou ficando com sono, a cabeça está pendendo pra baixo.  Melhor deitar agora, preciso acordar cedo amanhã.

Isto fica assim, estou perdido,  solitário, deslocado, cansado de tudo isso e com vontades impossíveis. Sinto-me mal (mas isso não é tanto novidade assim, não é?

sexta-feira, dezembro 07, 2012

A Melhor Falha

Isto não é meu, é do Heitor, e foi postado no velho blog morto do Antro, nos bons tempos. O personagem "C" sou eu, evidentemente, e acho que só coloco o conto aqui por ele ser provavelmente a maior homenagem a mim numa literatura, por me lembrar dos bons tempos, aonde era extremamente triste mas feliz, e porque isso consegue pinçar certeiramente um pouco daquilo que sou - ou fui -. Também posto porque ontem o Heitor veio falar comigo na internet e parece que ele conseguiu achar uma boa garota, que gosta dele e tudo mais. Conseguiu achar o seu "e agora vai", aquilo que estavamos procurando desde sempre e quase nunca achamos (não plenamente. droga! por que tudo que parece certo tem que dar sempre errado?). Enfim... fico muito feliz por isso, tanto por ele estar bem como por isso vislumbrar um raio de esperança pra mim..

Talvez faça um especial "coisas que o Heitor escreveu e que tem eu como um dos personagens e que me faz lembrar de uma época aonde eu era um idiota maior, sem a menor noção, não percebendo nada e perdendo tudo, mas tinha um pouco de esperança"

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A Melhor Falha

Estávamos olhando os cartazes presos às paredes quando C. exclamou:
- Uau! Olha só isso!
- O que C.?
- Nada! Será uma surpresa! – e rapidamente arrancou o cartaz antes que eu pudesse ver sobre o que se tratava.

Foi na festa da noite seguinte que descobri o que ele havia feito. Ele se aproximou de mim com um sorriso na cara:
- Quase na hora.
- Na hora de que C.?
- Você não viu o concurso de canto que vai começar daqui a pouco?
- Vi sim, e daí?
- Pois então! Eu vou participar, deseje-me sorte, está próximo da minha vez.

Durante meia hora jurei que era algum tipo de brincadeira que só fazia sentido para C., por isso não pude acreditar quando chamaram o nome dele para subir no palco montado. Ele estava se caminhando calmamente quando eu o parei:
- Espere aí.
- O que foi?
- Você não sabe cantar!
- Não... não sei.
- Então para que vai tentar isso? Não faz sentido nenhum!
- Eu quero é tentar mesmo, sabe? Só para falhar.

E então ele subiu no palco... e foi tudo absolutamente horrível. C. era desafinado e sem nenhum ritmo. Se Demorava demais em alguns versos e se alongava em outros. Tudo ficava fora do tempo. Ele também não havia decorado toda a letra; nos pedaços que não sabia apenas encaixava um “lá lá lá” sem espírito ou ficava em um “hummm hummm” como se só estivesse esperando aquele trecho acabar. As outras pessoas que estavam assistindo não sabiam exatamente o que pensar. Alguns acharam que era piada de alguém, de algum grupo quem sabe, e por isso não entendiam. Outros acharam que era mais uma manifestação de algum pós-moderno, mas de qualquer jeito uma manifestação que não era digna de nota. Houve também o grupo dos que acharam tudo uma idiotice, o dos que acharam que era um desrespeito aos verdadeiros cantores e o dos que acharam que era apenas a tentativa de um engraçadinho aparecer.


Nenhum deles acertou. Mas eu aplaudi. Aplaudi fervorosamente

quinta-feira, dezembro 06, 2012

São quase quatro horas da manhã. Eu devia ter dormido a pelo menos quatro horas atrás. Não estou conseguindo, há vozes demais na minha cabeça.

Normalmente eu fico conversando sozinho, é algo agradável e ajuda a passar o tempo. Grande parte das vezes essas vozes são meio o que iniciam os sonhos, quando dou por mim já há algum contexto estranho e um ambiente alem da simples conversa. Pimba, estou dormindo.

Hoje todas as respostas estão sendo mais cruéis. Eu sei que sou só eu, mas elas estão apontando cada um dos problemas que claramente tenho e torturam-me com eles. Mostram o quanto estou perdido, sozinho, desesperado, sem motivos nem esperanças. Elas estão sendo ruins, e qualquer coisa que tento conversar é respondido com agressividade. Elas tomam a forma de outras pessoas e ficam inventando coisas, motivos para certos atos - que eu sei que não é verdade, eu sei que é só vozes raivosas inventando mais motivos pra eu ficar ruim - as vozes cortam-me em pedaços cada vez mais pequenos, mais finos, fatia por fatia, sentindo prazer com cada momento em que dentro de mim alguma coisa que ainda estava viva e tinha esperança se despedaça.

Eu não sei, não consigo digitar de forma coerente. não consigo organizar as frases. Mas escrevendo eu não fico ouvindo nada, todo o foco se volta pra digitar e digitar e tentar entender o que esta acontecendo. Tem sido uma noite ruim, bem ruim. Imagens de violência auto-infligida aparecem volta e meia, e eu sei que é a mesma parte que esta me xingando. A imagem mais comum é um pedaço de madeira batendo contra minha cabeça. Acho que isso veio daquele vídeo que vi, da briga entre torcidas, São Paulo e Palmeiras, de 95. Um dos caras estava caído no chão e outro vem e lhe da uma paulada na cabeça. O cara se levanta alguns segundos depois e cambaleia desnorteado, o narrador afirmando que "este garoto já morreu". Eu acho que essa imagem vem dai. Tudo vem de mim.

Por que eu fico me torturando assim? Qual é o grande motivo em me fazer perder toda uma madrugada, sentir-se extremamente mal? eu não consigo entender, e sei que não sou o maior de todos os caras, há os erros e essas vozes tentariam me mostrar a "verdade" mas bom deus, qual a razão de ficar martelando isso uma madrugada inteira, horas a fio, e só me deixando mais e mais deprimido. Por que ficar não apenas totalmente contra, mas agir de forma com que eu entre numa espiral de de tristeza, uma coisa levando a outra e essa outra a mais uma, eticeteras. Por que?

E eu sei que algumas coisas que elas dizem é mentira. Eu sei. Sou um completo idiota, e possivelmente exatamente aquilo que elas estão falando, mas todo mundo não me odeia. nem todo mundo preferiria que eu desaparecesse. Eu sei que tem gente que se sente a vontade com a minha presença, que gosta de conversar comigo. Não adianta ficar falando o contrario, você é só uma voz que ressoa na minha cabeça de madrugada e eu já vi o mundo real, já conversei com as pessoas, já vi na cara delas algum tipo de prazer em só estar ali comigo. Não adianta ficar vomitando mais e mais coisas assim, isso me magoa agora, me machuca, mas só porque estou num quarto escuro, sozinho, sem ninguém nem nada concreto pra agarrar, e essa sua voz é alta sem ninguém. Mas ainda sim é tudo mentira.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Ando a um mês, mais ou menos, pensando em viajar. Agora já é praticamente certeza que o faça, talvez logo depois do ano novo. Faz um bom tempo que simplesmente não saio por ai, aleatoriamente, só pelo pequeno prazer de o fazer. Sinto que este seria um bom momento pra ficar acordado numa pedra, no meio da garoa, com um olho no papel que escrevo e outro na rua, tomando cuidado com a possível policia que venha a me bater.

Enfim, vou-me. Mas antes disso preciso me acertar. Há coisas que preciso conseguir para conseguir viajar sem grande problemas. Enfim, coisas que aprendi sozinho e que possivelmente não são as melhores, mas devem me manter vivo por alguns dias.

Agora, por que escrever aqui? Eu respondo que é porque eu consigo pensar melhor ou conversando ou escrevendo (que é uma forma de dialogo interno, ainda mais aqui) como não ando conversando com muitas pessoas - fiquei nesse ultimo sábado conversando com a Maiara lá, a magrinha loirinha lesbiquinha, mas não era o tipo de conversa que valha de algo, só pedaços de barulho enquanto eu estava bêbado e irritando-a. Não ando conversando muito.) Não ando conversando muito com pessoas e escrever ajudaria na hora de lembrar tudo que preciso. E depois, alguns dias antes posso vir aqui, ler este post e ver se falta algo. Sem mais delongas, às coisas que preciso conseguir:

1- Roupas

Eu tenho roupas. Me acostumei a viver com pouquíssimas, ainda mais quando comparado com qualquer outra pessoa que conheço, mas sei que quando estiver sozinho eu vou precisar estar minimamente munido de roupas boas. Antes de tudo, e uma das coisas principais de quando se vai viajar, eu preciso de um ténis que não esteja em descomposição e varias meias. Meu ténis atual não esta horrível, mas já tem vários buracos e a palmilha dele esta morta. Eu preciso arranjar um ténis novo, não um "NOVO" mas sim um que esteja usável. Se conseguir alguma coisa mais vistosa, as chances de ser roubado aumentam consideravelmente. E perder o ténis seria um desastre, já que grande parte da grana de reserva vai ficar escondida nos meus pés, dentro da meia.
Alem disso, é preciso tomar muito cuidado, porque nada é pior que um pé molhado. Com um eu perderia metade da minha capacidade de locomoção, e ninguém se sente bem com pessoas que dormem nas ruas por mais de três dias seguidos. Em suma, manter meus pés saudáveis é a coisa mais importante de toda a viagem. Estou pensando em 3 pares de meias, um ténis usado-porem-novo e talvez, talvez um chinelo.

Quando ao resto das roupas, nada muito complexo. Uma camisa, talvez duas. Uma única calça. Nas outras vezes eu usava uma daquelas cuecas normais, e depois de uns 3 dias andando e suando, acabava todo queimado, assado. Isso fodia muito, mas agora com as samba-canção que acostumei a usar, não creio que isso venha a ser um problema. Um último fator na questão "roupas" (embora não seja uma roupa) é que preciso de agulha e linha. Isso é outra coisa fundamental, pois não apenas posso costurar prováveis furos, como também utilizo-a para estourar as bolhas que vão nascer no meu pé. Com uma agulha e linha, meias e um sapato sem furos consigo manter meu ritmo de viagem relativamente alto.

2 - Comida

Quanto a comida, não tem muito mistério. Pra iniciar umas 5 latinhas de milho devem dar. Comendo uma por dia, em média, consigo ficar de boa até engatar no ritmo. Talvez um pacote de amendoim, pra dar uma forcinha. Quando fomos pra Florianópolis Peiotte e eu compramos uma carne seca, e embora pareça uma ótima ideia, a carne não estraga e dá umas proteínas boas, a salmoura quase nos destruiu. Estava um calor desgraçado, e comer carne só nos deixou com mais sede. E pra encontrar agua tínhamos que andar uns 3 quilómetros até a pracinha. Portanto pra começo de conversa apenas milho enlatado e amendoim. Um garfo pequeno, um abridor de latas e o meu canivete dão conta de qualquer problema que venha a ter com relação a comida. Ninguém nunca morreu de fome na rua, sabe como é....

3 - Equipamentos aleatórios

Eu preciso de um caderno e uma caneta nova. Pretendo passar grande parte do tempo escrevendo, procurando a minha mão. Com "mão" me refiro à epifania que sempre acontece no meio do nada, quando não vejo mais nenhuma resposta. Escrever sobre tudo que passo nos dias e sobre as coisas que me vierem na cabeça vai ajudar a ficar acordado, quando sentir-me ameaçado ou qualquer coisa parecida.
Também preciso de um livro. Ainda estou decidindo o que levar, a escolha mais óbvia seria o Big Sur, que eu malditamente ainda não li. Creio que estar no meio do nada, ouvindo só o barulho da chuva ajudaria a terminar esse livro. De qualquer forma, pretendo levar um livro.
Sobre mapas, isso ainda é um assunto a se pensar. Inicialmente eu pretendia não escolher um caminho certo, mas antes tínhamos aquele grande mapa de todo o sudeste/sul. Não tenho a menor ideia de aonde ele foi parar, e vou precisar imprimir uns mapas da internet na praia, o que me obriga a focar bem mais. É possível que eu vá para baixo mesmo, tentar chegar o mais próximo de Uruguay, atrás da velha indiazinha mítica mãe de três filhos que me espera lá, para casarmos e eu ter finalmente um sentido. Ou talvez vá pra minas, atrás dos resquícios de Marina Maciel, a obsessão-primordial. Mas ambas essas possibilidades são mais um olhar do passado do que do futuro para com a viagem, já não sinto nada pelo símbolo que Maciel foi nem acredito mesmo na indiazinha do Uruguay. Isso esta a se pensar, mas eu preciso focar pelo menos em alguma região pra poder ter mapas.
Vou levar o carregador de celular, não para manter contato toda hora, mas pretendo pelo menos avisar o Heitor que ainda estou vivo. Pelo menos me comunicar minimamente com as pessoas, caso precise de algum bom lugar pra dormir nalguma cidade que eu saiba que um dos meus amigos possui contatos.

Preciso também, e isso é MUITO IMPORTANTE, de umas duas boas toalhas. Ter toalhas é importantíssimo, elas podem ser muito úteis, e ter pelo menos uma pra forrar o fundo da mochila e outra pra poder enxugar qualquer coisa é fundamental

4 - Ando esquecendo coisas. é claro que sim. Se eu me lembrar de algo volto aqui (vou nos próximos dias manter um dialogo constante com esse post, imaginando se algo faltou. Dai venho e reescrevo-o) De qualquer forma, tenho ainda um mês pra acertar tudo isso.

sábado, novembro 24, 2012

pode parecer ridículo, mas só o comecinho da musica As Time Goes By faz meus olhos lacrimejarem. é o meu filme preferido, de longe.

quarta-feira, novembro 21, 2012

Sobre paranoia e como, as vezes, tudo isso faz sentido



Tenho tido pesadelos constantemente nas últimas três semanas. Nem sempre consigo me lembrar de todos os detalhes dos sonhos, mas naquilo que me lembro há sempre um ponto em comum, há sempre neles um grande tom de paranóia. Sempre é alguém agindo de forma totalmente não esperada, meus amigos ou familiares tomando atitudes ou palavras agressivas, que eu sempre achei que eles tinham mas que nunca se mostrou real.

Desde sempre fui paranóico. Esse pedaço nunca foi maioritário, e vários outros problemas foram maiores, como a ligeira depressão, a obsessão ou o escapismo pra imaginação. Mas ela existe, lembro-me de, com uns 10 anos, ter imagens de todo mundo que eu conhecia planejando coisas secretas pelas minhas costas, dizendo realmente o quanto não gostavam de mim e sentiam-se incomodados pela minha presença. Praticamente todo mundo que se tornou intimo de mim já passou por essa imaginação em minha cabeça, mesmo sendo apenas viagens totalmente insanas.

Mas, em alguns momentos, toda essa viagem faz sentido. Consigo ver, sem a piração da paranóia, como várias pessoas que conheço, que conheci, se afastando progressivamente de mim. Todos eles percebendo o quanto não vale a pena conviver comigo, o como não vale a pena passar momentos na minha presença. Não é uma, nem duas, nem dez vezes que isso aconteceu, e também nem sempre é tão evidente assim logo de inicio, mas as pessoas estão se afastando, preferindo não mais conversar, não mais dar risadas e tudo aquilo que faço com os amigos.

Tenho traços de paranóia, reconheço. Mas não é só porque eu sou completamente doentio que isso não é verdadeiro.

terça-feira, novembro 13, 2012

Sobre as diferentes perspectivas, sobre como reconheci isso muito jovem e sobre como escrever coisas diminutas sobre o nada

Uma curtinha, porque estava quase indo dormir mas tive um mini-sonho/lembrança e resolvi que deveria escreve-lo. Isto é sobre minha lembrança mais jovem sobre o reconhecimento da perspectiva que diferentes pessoas tem do mundo. Em termos menores, é sobre a primeira vez que percebi que as pessoas possuem referencias diferentes daquelas que eu tenho. Complicado? A história é simplória.

Eu tinha 4 anos. Talvez 5. Estava passando as férias de final de ano na praia (onde estou agora, exatamente, sentado no colchão no chão, no escuro, digitando, enquanto o Chiquinho dorme em meus pés) na época toda a família vinha passar o final de ano por aqui, toda a família mesmo. E comíamos festejando as boas épocas que eram aquelas, todos juntos, almoços e jantas fartos de peixes e tudo mais.

Creio que o almoço já havia acabado, estávamos apenas eu e Kadu, meu primo que é 5 anos mais velho que eu, sentados na mesa. Havia nela uma garrafa vazia de coca-cola.

Vazia não é bem o termo. Explico. Ela não tinha mais coca, numa primeira olhada, mas sabe aqueles gominhos redondos que existem nos fundos das garrafas? aquelas pequenas bolinhas que servem pra deixar a garrafa estável e não cair a qualquer momento? Havia pequenas gotas de coca ali.

Eu pedi pro meu primo me servir coca. Ele recusou, falando "não tem coca aqui" sendo que eu retruquei que sim, havia. Havia e não havia coca, obviamente que a garrafa estava vazia, mas não estava. Eu queria aquele misero golinho final, mas meu primo é alguém prático, direto, sem nuances de alma ou cousas parecidas, pra ele há garrafas vazias e garrafas cheias, e ficamos brigando por quase 10 minutos sobre como havia sim bebidas ali (ou não)

Eu demorei dois dias pra entender que ele não via aquele finalzinho de coca, que era irrelevante. Suas perspectivas, noções de mundo eram completamente diferentes das minhas, e para ele eu devia ser um louco ou bobo por achar, por teimar que uma garrafa claramente vazia estava cheia. Nossas perspectivas eram diferentes, completamente diferentes.

Estou com sono e vou dormir. Adeus. Espero te ver em breve.

terça-feira, novembro 06, 2012

Acontecem coisas engraçadas.

Engraçado, acho, não é bem o termo. Estranho? Não, não é. Não sei como iniciar isso daqui, como começar a falar sobre a besteira que tive a pouco mais de dois minutos atrás.

Calma que não é nada horroroso. Provavelmente você não se lembrará desse pequeno momento no futuro. Na verdade sem isso daqui escrito, esse pequeno momento, com os pequenos detalhes, iriam se perder daqui dez anos. (tanta coisa já se perdeu...) Enfim...

Estava eu aqui, sentado, olhando pra alguma tela branca ou colorida na internet. Costumo fazer muito isso, sabe, apenas olhar pras coisas. Olhar e esperar, toda a minha existência poderia ser resumida nessas duas coisas. Olhar, esperar e se decepcionar. Mas não é sobre isso que vim escrever, embora esses desvios são bons, agradáveis e confortáveis, soam a minha cabeça delirando.

Delírio! Esse é um bom termo. (na verdade não, mas o circulo se fecha e vale a pena continuar) - estava eu aqui sentado, pensando. Costumo imaginar conversas, acho que já cheguei a comentar em algum lugar. O esquema não é tão difícil, apenas pego algum pessoa que gosto de conversar, imagino um tema e dali saio. Pressuponho as respostas que a pessoa daria, minhas replicas e tudo aquilo que acontece numa boa conversa de verdade. (é lógico que não é tão legal quanto uma, mas o que se pode fazer quando se passa mais da metade do mês completamente sozinho?) enfim, estava eu aqui, sozinho, conversando comigo mesmo-com alguém. Nalgumas vezes eu nem imagino uma pessoa em especifico, apenas vou pulando de uma pra outra, do Heitor pro Wilber, do Wilber pra Ana, da Ana pra Marina, e dali salto cinco anos no futuro e mostro pro pequeno Gabriel o quanto eram legais os filmes de terror dos anos 80.

O ponto é que não estava imaginando uma conversa com alguém em especifico. Apenas estava conversando comigo mesmo/com todos os outros. E então eu/eles me fiz uma pergunta boa. Foi mais ou menos assim:

eu - Ah, a mais ou menos uns dois anos atrás a coisa mais importante pra mim era a piada. Tudo era subjugado por ela, mas depois de um tempo ficou chato, sabe?

Alguém - Ah é?

eu - É.

Alguém - Que merda não? Piadas são coisas boas, é sempre bom ter senso de humor

eu - Nem sempre, nem sempre. Meu humor é autodepreciativo, e isso as vezes faz sentir-se mal, alem de eu ficar meio paranóico.

Alguém - Ah é?

eu - É.

Alguém - E viu, qual  é a coisa mais importante pra você hoje?

Foi nesse ponto que eu me peguei saindo do delírio e voltando pro mundo real. Qual é a coisa mais importante pra mim hoje? Uma pergunta realmente boa, devo dizer. Fiquei exatos dez segundos pensando nisso, o que em tempo de imaginação equivale a quase doze anos. Procurei em quase tudo que me toca pra descobrir qual é aquela pequena coisa que mais vale a pena, aquilo que eu mais prezo hoje em dia. A coisa mais importante da minha vida atual. E a resposta foi meio decepcionante, embora quase óbvia quando você chega até aqui, nessa seiláqual linha de uma descrição de um delírio. Minha resposta foi:

eu - A imaginação.

E com imaginação não estou falando minha capacidade de inventar histórias, nem a de mentir, ou de ser completamente nonsense e sagaz quando desnecessário. Com imaginação me refiro a apenas sentar e imaginar coisas, outras situações, motivos estranhos. Coisas que não são verdade. puro escapismo.
Vou dar dois exemplos que serão claros.

A coisa que mais tenho feito é, em toda a madrugada, tentado vender minha alma para o diabo. Vender mesmo, de esperar que alguma coisa sobrenatural que eu não acredito (nem existe) apareça e compre-a. Eu sei, eu sei, toda a literatura mundial e o bom senso diz que vender a alma só vai me foder, mas é imaginação e quem manda nessa joça sou eu. E eu venderia minha alma por um desejo que, no delírio, é ao mesmo tempo uma satisfação pra mim e claramente um inferno. Eu peço pra o Diabo me colocar à uns 10.000 anos no passado, no tempo do homem de cro-magnum. Nessa situação eu seria imortal, vivendo até o ultimo ser-humano restar na terra. Não gostaria de ver a história, porque seria só um único ponto de vista, singular. Eu só queria ter uns 8.000 anos de solidão, pra ver se consigo realmente entender as coisas. Isso e poder conversar com o Platão. (mas se ligaram em como esse desejo é bom pra se vender a alma? porque seria também um inferno, ter que conviver comigo pra toda uma eternidade. Não aguento nem míseros vinte-e-tantos-anos, quanto mais 10.000, 20.000, 500.000 anos.)

A outra história é mais pontual, sombria e estranha. A um mês mais ou menos eu fiquei quase uns três dias em Salesópolis, sozinho em casa. A diferença desse dia pros outros foi que eu realmente alastrei, abusei, fiz todo o tipo de merda.

Mentira, faço isso quase todo final de semana. Mas naquele houve uma imaginação diferente. Naquele eu realmente me vi morrendo ali, em casa, sozinho. E não parava por ai, eu virava uma espécie de assombração da minha casa, vivendo trancado ali pra sempre. Manja "os fantasmas se divertem"? mais ou menos a mesma coisa. Eu tive altos delírios, enquanto tentava recuperar de uma ressaca pra cair em outra (ressaca não só de álcool, diga de passagem) e quase cheguei a apostar, em outra conversa imaginaria, se eu realmente estava morto e o sonho era parte da realidade dos mortos.

Enfim, besteirolas. Coisa banal. Estupidez de ser escrita e que deveria desaparecer. Mas isso é você, meu caro. Pelo menos você neste instante. É idiota? sim. Mas não tem muito o que fazer alem esperar o diabo chegar e te levar pro passado.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Viagem ao fim da noite

Ela era uma garota de São Vicente. Começamos a conversar aleatoriamente, pelo velho Orkut. Aquele site era realmente bom pra começar amizades estranhas, assim foi com o a Ivna e assim com essa garota, cujo nome hoje em dia me escapa completamente. Ela era divertida, ligeiramente interessante, nada espantoso mas confortável. E eu estava a quase dois meses sem sair com ninguém. Provavelmente mais tempo.

Enfim, ela era de São Vicente e começamos a conversar. Num arroubo de bizarrice, resolvi num final de semana descer para lá. Desejava beber com essa garota. Não tinha nada aqui em sp, nem em salesópolis, e já estou acostumado a fazer este tipo de idiotice, ainda mais quando envolve viagens. Fui até uma estação (sei lá qual) comprei uma passagem e desci pra Santos e depois São Vicente.

Ela não era uma intelectual, nem nada parecido. Pode parecer elitismo de minha parte mas nos últimos dez anos mais de 80% das pessoas que conheci, seja garotas que conheci e fiquei, seja qualquer outro tipo de ser humano, tinha algum tipo de intelectualidade em si. Nem que seja algum tipo de curso superior fuleiro, praticamente todo mundo estava envolto nalgum tipo de atividade de cunho intelectual. Ela não era uma intelectual, trampava num salão de beleza fazendo unhas de mulheres e outras coisas. Não tinha nenhuma pretensão de ser uma estudiosa ou amplificar seus conhecimentos. Apenas vivia.

Enquanto o ónibus se aproximava de São Vicente, pude notar que o tema geral em Santos é o de celebração ao Pele. Tudo ali possui seu rosto, sua marca. Ele é o dono da cidade. E quando cheguei em São Vicente, senti um clima ao mesmo tempo similar ao de caraguá e totalmente diferente. São Vicente é uma cidade costeira, a cidade mais antiga do Brasil (fui descobrir depois, com a garota) mas há algo lá que não ressoa com o clima de cidade turística. Ali o lugrube é mais palpável, as pessoas caminham como caminham em sp, sempre em direção a algum lugar especifico, buscando vontades especificas. Era isso o que sentia enquanto caminhava por uma rua reta, sempre em frente, passando por uma ponte e seguindo em direção a mais ruas retas. Nenhum sinal de praia, ou de pessoas que fossem à praia. O próprio clima mostrava sinal de depressão, uma leve garoa batia, sem sol nem frio. É a cidade mais velha do Brasil, e não esconde em nenhum segundo o quão anciã esta.

Tinha um endereço nas mãos. Depois de perguntar para umas três pessoas (e seguir uma indicação falsa) achei e liguei para ela de um orelhão publico. A encontrei dez minutos depois.

Eu, desde o inicio, não esperava muito. Não esperava um grande amor nem mesmo uma bela noite de sexo. Apenas me encontrar com uma garota cuja conversa era agradável e beber alguma coisa. O fato de estar uns 300 km de casa era só um pequeno tempero nisso tudo. E então em encontrei com ela, disse "oi" e fomos pra um bar beber.

Devo dizer, foi uma péssima ideia. Não que ela fosse uma pessoa horrível, longe disso, mas é que se a bebida costuma me aproximar daquelas pessoas que sinto a vontade, se ela faz os similares ficarem mais próximos, também faz com que tudo que é estranho fique mais e mais longe. Bebi com a garota, e absolutamente nada apareceu disso. Talvez ela também estivesse sonhando, um sonho aonde eu era um heróico jovem destemido, estranho, disposto a tudo - a leva-la embora daquela cidade escondida num século esquecido, a sair do ex-namorado publicitário idiota, do trabalho de pintar com coloridos extremidades de senhoras mortas por dentro - e no final só encontrou a mim, o velho eu que tanto já tentei descobrir nesse blog e no resto da minha existência exatamente o que sou. Bebemos, bebemos mais um pouco, eu bebi pinga com cynar e maria-mole e, antes que pudesse perceber, ela deu uma desculpa para ter que ir embora. Não me lembro exatamente qual foi essa desculpa, e sinceramente não me importo.

Perguntei qual era o caminho para a rodoviária mais próxima e disse "até logo!". Ela se assustou ao perceber que pretendia ir a pé até lá, a rodoviária era em Santos, uns prováveis 30 km de onde estávamos. Mas eu, bêbado já e disposto a sumir da frente daquela garota que, sinceramente, não causava nada em mim, disse-lhe que estava acostumado a andar. Dei um novo "Até logo!!" enfático e sai andando por mais uma rua reta.

Andei por quase uma hora. Passei por alguns clubes de forró, pessoas felizes na porta, vários bares, carros que avançavam em velocidade pela avenida, essas coisas que só um final de semana em Santos tem. Ou assim foi o que me pareceu. Em um determinado momento fiquei com vontade de mijar, e como não queria ser pego pela possível policia, entrei numa rua para aliviar-me. Meu plano era dar a volta no quarteirão e retornar a avenida o mais rápido possível.

Um carro me viu entrando na avenida. Me viu saindo dela. E quando menos percebi um homem de meia idade parou do meu lado e perguntou pra onde ia. Disse pra rodoviária e ele me deu uma carona.

Este cara estava afim de me comer. Foi um bocado sincero e direto, coisa respeitável, acho que é algo comum quando se é um homem de meia idade disposto a dar e comer cus nos finais de semana em Santos. Reafirmei que era hetero e ele deu de ombro, me levando tristemente até a rodoviária. No final ainda tentou beber uma cerveja comigo, mas eu fugi rapidamente, não é provável mas seria possível que ele tentasse alguma coisa mais medonha comigo. Quando se esta viajando nunca é demais algum tipo de prevenção.

No final fiquei até as cinco da manhã esperando o ónibus na rodoviária fria de Santos. Guardas passavam de vinte em vinte minutos na minha frente, um até foi simpático o bastante para trocar meia dúzia de palavras. Pra passar o tempo inventei pequenas histórias sobre essas pessoas, dei-lhe nomes e famílias, vontades e necessidades, assim como também pra moça que limpou os banheiros lá pelas 3, pro rapaz de sorriso largo na lanchonete num canto, assistindo longamente o programa da madrugada do Serginho Groisman, naquele em especifico com o Jr. da Sandy e Jr., tocando bateria. Inventei um dialogo entre o casal de hippies que dormia num outro banco, do outro lado da rodoviária.

E quando menos percebi estava a caminho de São Paulo novamente. Uma ligeira viagem até os confins da cidade mais velha do continente e através do coração inexpressivo duma pobre garota que faz as unhas para sobreviver.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Sobre a Erica e um sentimento pornografico numa tentativa de escrita

Tentei escrever umas três vezes um texto sobre a Érica, a velha vizinha. Não consegui. Então, agora, depois de ter rascunhado umas duas outras postagens, resolvi que o melhor método de escrever as memórias da Erica seria tentando descrever literáriamente uma cena pornográfica. Nada muito produzido, apenas eu tentando rememorar aquilo que tive com essa mulher por mais ou menos uns dois meses. Chamo a Érica de vizinha (e ela ainda hoje de "vizinho") porque durante os dois meses que trepamos, morávamos no mesmo bairro. Foi ela quem desejou me catar, quem fez toda a força, quem tava mesmo com vontadinha. De uma certa forma, se fosse um escroto, diria que ela é uma vadia. Ela simplesmente gosta de trepar, mesmo. Percebi isso num madrugada, alguns anos depois de ter dormido com ela naquela época de "vizinhos", enquanto voltava pra casa com ela e mais uma mina. Tentamos fazer a mina ir trepar conosco. Então, enquanto voltava bêbado, tive uma pequena iluminação dos motivos dela ser o que é. Obviamente grande parte daquilo que entendi desapareceu com o álcool, mas ficou a noção de niilismo sexual. Ela trepa não apenas porque gosta, mas porque esse é o único modo dela gritar contra o mal-estar que todo mundo tem dentro de si. Enfim, ela também tem uma filha, e já dormiu com metade dos meus amigos (a outra metade acha errado isso); à pornografia:

"bebemos um bocado ainda na festa. Lá estava sua irmã e mais um punhado de amigas. Eu me lembro apenas de, enquanto estava deitado em cima dela, vestidos ainda, duma garota com um spray e um isqueiro soltando fogo pela casa era. Era um pequeno ajuntamento de insanidade. Saímos com um mais casal, outra garota que havia comido a duas semanas atrás e um velho amigo, com um carro. Eles nos deixaram no meio da avenida, e a garota foi para um canto mijar. Eu cambaleei um pouco e, olhando para o céu, percebi que haveria uma chuva nalgum momento da madrugada, ou na manhã do dia seguinte. Sabia olhar os céus de minha cidade natal. Andamos um pouco, indo até sua casa, que era realmente próxima da minha. Ela entrou sem fazer barulho, subindo as escadas até o quarto aonde sua filha dormia. Eu esperava na entrada, não desejava lhe causar mal algum.
Cinco minutos depois ela me aparece vestindo apenas um velho casaco, um casaco que parecia ser de peles, mas provavelmente era uma imitação. Ela vestia apenas um casaco e eu comecei a chupar seus peitos ali mesmo. Minha mão escorria pro meio das pernas dela enquanto encostávamos na parede bem abaixo da janela do quarto aonde sua filha dormia. Ficamos assim, eu entrando dentro dela com a mão e ela entrando dentro de minhas calças com a mão, por quase cinco minutos. Havia bebida e tesão em nossas mentes. Decidimos ir para minha casa, lá existia um quarto vazio, uma cama imensa e mais ninguém que poderia nos atrapalhar. Ela me desejava e eu não gostaria de deixar uma garota passar vontades.
No meio do caminho eu sempre tentava escorregar minha mão para algum lugar próximo de suas pernas. O andar era lento, mas seguro, ambos segurávamos um no outro, e ambos em seus próprios alcoolismos. A quase cinquenta metros de casa existia uma pequena praça, redonda, com alguns bancos de pedra fria. Algo nos disse que mesmo estando pertos, deveríamos parar. E então ela subiu em cima de mim, no meio de uma praça na madrugada, vestindo apenas um casaco de peles. E então ela desceu tudo o que conseguia, deixando ser penetrada completamente por aquilo que eu era para ela. Trepamos até a chuva começar a cair, levemente.
Fomos para minha casa, lá a cama esperava bem mais quente que a fria rua, que a chuva que caia. Não houve muita espera, não houve vergonhas. Já tínhamos estado ali, um dentro do outro, a poucos instantes, e enquanto chupava-a era chupado também.

Ela era uma mulher mais experiente. Não muito mais velha mas definitivamente mais experiente. E coordenava com pequenos ares de professora tudo aquilo que desejava extrair de mim. Não uma professora autoritária, mas sim uma professora cientista, que conhecia certos atalhos mas estava disposta a aceitar experiências e novas possibilidades, uma professora que acompanharia os pequenos movimentos que eu fizesse com curiosidade, sentindo cada pequeno novo espasmo, cada mordida, cada tranco e puxão, cada nova gota de suor que caia no meio daquilo que já não era nem eu, nem ela. E ser este tipo de mestra, ser reconhecida como aquela que sabia o melhor para ambos, lhe trazia tanto prazer quanto estar no topo do mundo, em cima de mim, montada. E então ela gozava pedia um minuto com as mãos, nenhuma palavra, apenas olhos fechados e os lábios mordidos, os prazeres que lhe viam rápida e sofregamente. Ela gozava não por mim, mas por culpa de si mesma. Ela gozava porque era a única coisa que poderia fazer naquele momento."




É. não ficou tão ruim assim. Talvez utilize este texto num futuro. De qualquer forma a Érica foi uma boa pessoa, mesmo quando trepamos enquanto eu estava com quase 40 graus de febre e uma total incapacidade de engolir (garganta inflamadissima, inverno de 2007 em Salesópolis. Penúltima vez que trepei com ela) De qualquer forma, a Érica foi alguém importante para mim, e irei me lembrar dela sempre desse jeito, uma vizinha vestida apenas com um casaco de pele na pracinha pertinho de casa.

domingo, outubro 21, 2012

Tem horas que eu me pego com receio, tentando lembrar se disse em voz alta alguma das coisas que pensei. Costumo pensar em voz alta algumas vezes, e isso poderia ser um problema.

Ai percebo que ninguém realmente ouve o que eu digo. E que mesmo que quisessem ouvir não poderiam. Estar quase o tempo todo sozinho tem suas desvantagens, é óbvio. Mas tem suas pequenas vantagens.

De qualquer forma, escrever isso aqui é também uma forma de pensar alto numa casa vazia. Tem suas vantagens, mas tem suas desvantagens, é óbvio.

segunda-feira, outubro 15, 2012

sobre a Marta

A Marta foi minha noiva por algumas madrugadas.


A primeira lembrança que tenho dela provem de muitos anos atrás, provavelmente numa das famosas festas na casa do Marcão. Os irmãos João e Joãozinho brigavam pra ficar com ela. Era uma espécie de piada, quando contávamos depois, os dois sempre foram meio patéticos. Mas essa é a minha primeira memória da Marta, mesmo provavelmente tendo-a visto na escolinha antes.

Enfim, creio que antes da Marta começar a ficar afinzinha de mim, eu dei uns catos na irmã dela. A Marta possui uma irmã uns três anos mais velha que ela, se não me engano mais velha que eu, e numa madrugada, no velho Mamaquilla, a irmã da Marta - não tenho a menor ideia de qual é o nome dela, sempre foi a irmã da Marta - quis ficar comigo. Eu acho que ainda tinha cabelo comprido naquela época, e acabei ficando com ela no canto. Não creio que a galera tenha feito algum tipo de piada quanto a isso, mesmo eu sendo tão patético quanto os dois irmãos de antes.

De tudo que eu consegui recolher, de que ela me disse, a primeira vez que ficou afim de mim foi numa madrugada em Salé, eu provavelmente estava bêbado e deprimido, e pedi para ficar com ela. Creio que antes disso a Marta talvez olhasse pra mim como olha-se pra qualquer rapaz de pouco menos de vinte anos, com certa vontade mas nada alem disso, nada muito profundo ou sexualizado. Pelo menos nada concreto. E então eu devo ter pedido pra ficar com ela, mas não fiquei, e isso criou nela um desejo. Creio que um mês depois a Marta ficou comigo pela primeira vez.

A grande jogada da Marta foi descobrir rapidamente qual era o caminho mais fácil para me conquistar. Foi rápido e ela conseguiu sem nenhum esforço aparente. Toda vez que me encontro com ela, encontro-a com uma pinga-com-mel-e-limão na mão, ela me oferece outra depois, uma terceira, e quando eu estou completamente bêbado a "amo" totalmente. E então trepamos. Ou não.

Veja bem, eu nunca realmente gostei dela. A Marta era mais que uma fuck friend, mas menos que um amor. Também era mais que apenas luxuria, mas era um sentimento que durava no máximo doze horas. E depois das doze horas eu não conseguia ficar com ela, causava-me o mesmo repudio que sinto ao ficar tempo demais com garotas, aquela vontade de apenas ficar longe. A Marta de inicio não reconhecia isso, mas com o decorrer do tempo ela entendeu. Não gostou, mas entendeu.

Há também o ponto de, por não realmente gostar da Marta, mas sim dos minúsculos momentos de madrugada que passávamos juntos (isso não envolve apenas o sexo, mas todo o jogo de flerte que fazíamos na noite toda, desde olharmos e ela me oferecer bebida, até ficarmos abraçados em algum canto de algum lugar, até ela ir dormir em casa e ficar muito mais tempo que pretendia) por causa desse ponto não me interessava muito pelas coisas que ela me falava, e também não prestava muita atenção naquilo que eu dizia. E então falava besteiras que não relembrava antes. A Marta aparentemente se preocupava muito com sua aparência, com o estilo que pretendia mostrar, e a minha completa irrelevancia disso pra ter interesse nela ou lhe causava raiva, ou demonstrava que eu não estava nem ai com isso. E soava como mentiras.

Enfim, a última vez que a vi, ficamos juntos - obviamente - e eu em algum momento lhe disse que eu mentia. Que eu mentia para ela. Que eu era um mentiroso. Todos nós somos, é óbvio, e ela provavelmente mentia pra si mesmo quando procurava algo em mim que não existia por mais que alguns minutos. Mas eu falei e algo ali deve ter trincado. Ela afirmou que nunca mais iríamos nos ver, e assim tem sido desde então.

mas eu ainda brindo à Marta, nalguns momentos, quando estou com pinga na mão e o sentimento correto. Ainda acho-a uma boa pessoa. Ainda acho que tudo isso valeu a pena.

terça-feira, outubro 09, 2012

Motivação

Há, creio, uma motivação para continuar sobrevivendo.

Veja, há um sobrinho novo. Já tinha duas sobrinhas novas a uns anos, mas elas vieram de uma meio-irmã que eu realmente não conheço absolutamente nada. As garotas são legais, principalmente a mais nova que eu claramente vejo um modo diferentinho de ver as coisas. A mais velha está claramente se tornando uma mocinha chata.

Enfim, tenho um sobrinho novo. Agora, quando escrevo, ele não tem que uns quatro meses de vida. Ainda esta muito novo pra entender qualquer coisa, não fala nem anda nem nada. Mas é possível, é provável que ele irá crescer. E essa é a motivação para continuar vivendo.

Digo, eu tenho que fazer este moleque gostar de filmes de terror.


Eu realmente gosto dos filmes de terror. Dos gores, dos psicologicos, dos de tortura, dos de clima, dos de sobrenatural e de zumbis em geral. Mas reconheço que o poder dos filmes de terror diminui com o passar dos anos. Por mais que eu goste do estilo, o impacto não é de forma alguma similar à primeira vez que vi o comecinho do Nigth of the Living Dead do Romero, preto-e-branco, ou quando assisti pela primeira vez o Freedie Krueger no SBT rancando sua propria face. Hoje admiro mais do que tenho pavor, e isso é algo ruim.

E esse é, na minha opnião, algo que vale a pena se preparar para. Esse garoto provavelmente vai crescer sem pai - o dele esta preso e sabe-se lá quando sai, se sai - E no meio de uma familia que, posso afirmar, não é mais contextualizada em questão de referencias. São ótimas pessoas, mas estão tão imersos na mediocre cultura televisiva que temo que esse garoto se torne alguém que gosta de musica ruim, filmes ruins, nunca pegue um livro nas mãos. E essa é a minha grande motivação pra não cometer logo suicidio (por mais que o Wilber tente me convencer disso. Ou tente me deixar com "vergonhinha" ao contar pra todo mundo. Realmente não entendo qual o sentido disso, mas não vou discutir aqui) a grande motivação de fazer o garoto assistir todos os Freedies Kruegers, todos os Jason, o Halloween, o Hellraiser, Basket Case, o daquela coisa branca que vira doce e controla a mente das pessoas, os filmes da Hammer, a entender que os únicos zumbis são os lentos.

Enfim, não posso morrer enquanto não transformar meu sobrinho no cara mais legal da cidade. É um motivo idiota pra continuar vivo, mas Hey?! Qual sentido não o é?

domingo, setembro 30, 2012

Recortes

Há pequenos recortes de memorias que eu não sei exatamente o que acontecia ali, qual era seu contexto e porque elas ficaram gravadas na minha memoria, em detrimento de outras. São pequenos pedaços que somente estão ali, soltos, lembrando-me levemente daquilo que um dia já foi, e que nunca mais será.

Acho que há um bom de quando eu devia ter uns dois anos, no máximo, a memória que tenho de uma noite aonde a energia eletrica acabou. Creio pelas coisas que consigo identificar que ainda morávamos na primeira casa, um porão, o Porãozinho. Minha irmã Marina devia ter acabado de nascer, porque a memória exatamente é isso: Eu, no escuro, olhando pro meu pai fazendo a Marina dormir, no colo. Ele cantava a música do "marinheiro só" e eu enquanto olhava pra isso, na mais total escuridão, conseguia sentir os detalhes daquela coberta roxa que tínhamos, os detalhes que eram bordados com uma linha grossa. Eu claramente estava deitado ali, naquela coberta que não era minha, provavelmente estava no quarto do meus pais, e eu devia estar em cima da cama, na escuridão, assistindo meu pai a fazer isso. Não conseguia ver sua imagem, apenas um contraste de escuridão onde ele com minha irmã no colo se sobressaia da escuridão normal, e sua voz cantando a música.

(acabo de perceber, relendo isso, de que não tenho memórias de vida sem a presença da Marina. Minha mais antiga memória tem ela como protagonista)

Lembro-me de uma vez, já na época que estávamos na casa no Totozinho Cardoso, de estar andando com alguém por aquelas ruas subindo a antiga casa do Tio Gê que morávamos. A rua aonde tem a atual "casa da banda" e aonde o Júlio dos videogames teve seu terceiro lugar de "jogar-videogames". A rua da casa do gui e aonde pode-se chegar até a escola. Sei que era bem nas férias de meio do ano, porque estava muito frio e chovia, um sereno um pouco mais forte, que fazia nascer pingos nos telhados das casas. Eu estava apenas andando ali, com uma capa de chuva azul, sentindo muito frio e com os pés molhados. O azul da capa de chuva dominava quase toda a minha visão, e o que não era azul estava com tonalidades de branco, da névoa e da garoa.


Há uma memória que eu não sei exatamente com quem era. Chuto que era com aquela menina que estudou comigo na primeira serie, e já na segunda nunca mais. Não sei qual era o seu nome, mas sei que ela morava numa casa no topo do morro da delegacia, perto de casa. Eu não estava na primeira serie mais, não sei em que ano, mas nalgum momento eu desci com ela um caminho diferente no morro, creio que passando por dentro da casa dela. Não sei exatamente o horário mas devia ser o inicio da tarde, quase meio dia, porque era esse o horário que eu entrava na escola enquanto ainda estava nos primeiros anos. Não, espera. Não sei se estudei todos os anos de manhã, os dois primeiros tenho certeza que só a tarde. (isso ativou outra memoria) enfim, a memoria é nós dois descendo uma trilha no meio do mato, que cortava o morro num sentido muito mais rápido que o normal. Passava por aquele caminho por onde a casa do grande velho Jefinho estaria, no futuro, e chegávamos na avenida muito mais rapidamente. Só me lembro dela indo na frente e eu atrás, olhando uma trilha e o mato ao meu redor.

A outra memória que lembrei acima é a de estar voltando da escola, era o primeiro ano e minha mãe dava-nos aula. Saímos umas cinco da tarde e as luzes das ruas da ladeira da escola já começavam a ligar, mas ainda não era noite. Na verdade há uma grande impressão de cor em mim nessa memória, uma cor alaranjada de crepúsculo, minha mãe descendo na frente e eu atrás, provavelmente com alguns amigos - Gui, Bruno, Rafael - e só consigo me lembrar da alegria que estava, porque era uma sexta-feira e eu teria todo um final de semana. Planejava jogar o jogo da Mônica no Castelo do Dragão, na verdade é exatamente isso a memória: Eu, descendo a rua da escola, numa cor completamente laranja, vibrando de alegria porque poderia alugar de novo o jogo e passar todo o final de semana nele.

Lembro-me de estar na casa do meu falecido primo Elias, isso era nos anos 80. Sei disso porque aprendi a ler Maio de 1992, por ai, e naquela época eu não sabia o que estava escrito na cama desse meus dois primos. Na verdade acho que lembro um pouco de contexto nessa memória, na verdade um pequeno conjunto de coisas. Eu estava dormindo na casa dos meus primos, os filhos da tia Teresinha, e nessa primeira memória os dois primos, Caio e Elias estavam perguntando se eu conseguia ler os nomes deles, que estavam gravados nas camas. Isso acontecia enquanto víamos, numa televisão CCE branco-e-preto (na verdade lembro-me muito bem disso, era um televisão CCE branco-e-preto portátil, a única CCE que vi e a que sempre me refiro quando uso referencias a CCE) víamos na televisão pequena a novela Tieta. Ou melhor, eles viam, eu não estava nem mesmo me importando com a novela.
Há outra memória desse momento, que era eu andando com a Isabelle, provavelmente minha irmã junto, e nós subíamos por aquela rua do lado da casa dela, a ladeira do castelinho, aonde eu comi a Amanda umas vezes em publico, pouco me importando com a galera que passava de carro. Naquela época as ruas ainda eram de terra, e a Isabelle - que devia ter uns 12 anos na época - andava falando alguma coisa, parou, pegou uma pedra no chão e disse que tinha uma coleção de pedras. Só isso.
A ultima memória era de eu e o Elias indo na parte de baixo da casa dele, havia a casa normal (dois andares, era uma casa de ricos, até tinha nas janelas em um canto toldos, toldos ovais de listras verde-branco) na parte de baixo fora casa, um quartinho aonde você devia descer umas escadas, pra achar seu Atari, para que pudéssemos jogar Enduro. Lembro-me um pouco de jogar com ele, e isso esta marcado em minha memoria tanto quanto jogar Enduro em qualquer outro momento. Mas o ato de descer aquelas escadas, o piso marrom, o toldo verde-branco, o quartinho onde estava o Atari estar lotado, essas coisas ficaram marcadas na minha memória. Pequenos recortes de um tempo que eu fui.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Ando meio prolixo.
Na verdade não. Escrevi alguns dias seguidos, trabalhando nas coisinhas que tento criar literaturisticamente, mas nada realmente importante. Tenho até um fichamento chatíssimo pra escrever e que ando postergando. Procrastinação.

Mas, estranhamente, não me sinto tão mal hoje. Não nos últimos dez minutos. Ok, acabo de ver pornografia mas isso não vem ao caso, normalmente fico mais deprimido quando o faço (mas também, fiquei muito deprimido depois de comer a Marta e a Paulinha algumas vezes. Nada contra girls, eu sou um idiota) ... enfim, não estou tão horrível quanto a algumas horas atrás.

talvez essa mudança drástica seja ruim. Eu sei que eu não piro completamente faz uns bons anos. Pelo menos um ano, acho. Não consigo me lembrar de mais nenhum momento aonde tenha acordado sem saber exatemente aonde estou. whatever.

não estou tão deprimido. E prolixo, estou sentindo vontade de escrever. Acho que isso veio numa pequenina epifania que tive, enquanto olhava a Marcia Imperator trair o marido com um amante e uma mina - que depois deveria dar pro marido dela pra ela poder se divorciar e pegar a grana - a epifania foi "as pessoas estão perdidas"

Digo, é óbvio que as pessoas estão perdidas. Ninguém realmente sabe o que esta fazendo, pra onde esta indo. Há planos, mas eles no final são tão irrelevantes, inocentes e simplórios que, se por algum milagre divinal houvesse algum ser divino onisciente, ele cometeria suicídio de vergonha alheia - alias, ótima imagem, o deus judaico-cristão-islâmico com vergonha alheia de tudo - Há planos mas eles são fúteis. Ninguém sabe absolutamente nada daquilo que esta fazendo, o máximo que pode-se é juntar as pequenas experiências, recortes de realidade, de vivência, e tentar interpreta-los da melhor forma possível para alguns momentos. Tem horas que esses recortes funcionam, tem horas que eles acabam sendo totalmente errados. São tão bom quanto chutes no acaso.

Portanto os recortes não funcionam. At all. esta todo mundo jogado aleatoriamente no mundo, agindo de uma forma inconstante e randomica, atrelada a outras ações randomicas de outras pessoas, que vão acabar dando em uma impossibilidade de previsão de absolutamente nada. Hoje sou um bosta depressivo decadente acabado chorando nos cantos por não ter nenhum sentido na vida alem de acordar e esperar. Amanhã, por motivos que eu completamente desconheço, posso até ser alguém feliz. Ou posso morrer. Ou ficar completamente insano e começar a matar pessoas as quatro horas da manhã, levar seus corpos pra casa, destrinchar, esquartejar em pedaços, pernas braços cabeça barriga intestinos e rins, colocar em malas e espalhar por partes do estado inteiro, indo de busão até São Tome e deixando braços, depois indo pra São Sebastião e deixando as pernas. Ou talvez até consiga achar uma garota, uma esposa, que me ajude a fazer isso, assim eu tendo um álibi sobre aonde estava no momento que os pedaços de corpos foram jogados. Aposto que a policia consegue descobrir isso, se for uma policia de ficção.

Enfim, ninguém sabe de porra nenhuma. Ficar triste porque você também não sabe e não esconde que não tem o melhor plano de como vai agir no futuro não é algo ruim. Talvez seja na visão das pessoas que ainda não perceberam o caos que é o mundo, as pessoas, as coisas, mas hey! e qual é o problema? (digo, alem de você realmente acabar virando este tipo de assassino aleatório e ter no próprio blog uma confissão registrada. As pessoas iriam te entregar pra policia, se uma única pessoa ler cê ta fodido, mas dai poderia alegar insanidade e teria, de um modo completamente absurdo e sem sentido, finalizado o plano que tinha aos 15 anos, caso tudo desse errado: fazer uma merda, alegar insanidade, passar o resto da vida em instituições psiquiatricas tomando remédios e tendo que agir completamente violento e insano para que os outros loucos ficassem com medo de você - se não medo pelo menos sentissem bem a vontade, você sendo mais um da turma - imagine se sentir realmente em casa, com pessoas que te entendem e se não gostam de você, aceitam pelo que é, porque você é um também ((ou pelo menos esta fingindo que é. Você armou isso tudo como um plano, lembra-se?)) e então poderia ficar tranquilo, apanhando sim, mas pouco e batendo mais, talvez se cortar com gilete na frente de todo mundo pra não ter receios de que eles acreditem que cortes podem ser seu ponto fraco (((seu ponto fraco, seu verdadeiro ponto fraco, ninguém nunca desconfiaria que seu verdadeiro ponto fraco é tão banal que qualquer idiota atencioso descobriria. Cuidado, esses loucos costumam ter a percepção aumentada, se é que literatura do século XV me ensinou algo))) - seria engraçado que esse plano desse certo, e ele tomasse forma numa postagem aonde você afirma que nenhum plano pode dar certo, que tudo esta jogado no meio da aleatoriedade sonora da vida e da morte)

portanto, nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. esta tudo fora de controle e é assim que tudo deveria estar.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Edipo Rei, uma personagem trágica

Eu devia ter uns dez anos, acho. Estava indo da quarta serie para a quinta, seria uma nova classe, possíveis novos amigos, novas possibilidades. Eu queria mesmo arranjar uma garota.

Lembro-me de sonhar, nessas mesmas férias, de que de alguma forma alguma garota que me entendesse iria aparecer magicamente nessa quinta série. Sim, estava em Salesópolis, não mais de 15.000 habitantes, não mais de 100 pessoas na minha faixa etária, umas 50 garotas. Eu era um estranho. Sempre fui um, lembro-me de causar certo asco, repudio ou (no mínimo) estranheza com minhas ações. As coisas pareciam normais pra mim, mas muito deslocadas do correto pra todo o resto feminino. Era impossível que houvesse, dentro dessas 50 possíveis garotas do interior, todas sem nenhuma referencia interessante, alguma que pudesse ficar do meu lado. Nenhuma delas tinha sequer ouvido Nirvana, e estávamos a não mais de um ano da morte do Cobain. Elas não liam nada e eu tentava ler Frankstein, Dracula, iniciava a imaginar ler Baudelaire. Elas eram mocinhas e eu era o Matt Murdock, o advogado cego sem medo. Eu queria controlar um helicoptero e escrever mil histórias sobre corridas de motos onde os ocupantes se socavam, montava um roteiro de filme sobre isso. Quebrava a cabeça horas e horas tentando achar a passagem secreta no lago de Ayla. Eu era um estranho, um estranho no ninho.
Mas, como sempre, sonhava.

Sonhava que essa garota iria conseguir sentar do meu lado em qualquer lugar, entender o porque dos giros aleatórios na cabeça (é bem divertido ter dez anos e perder toda a noção espacial por alguns segundos) entender qual a beleza em passar todo o recreio brincando de ser proibido alguém conseguir te ver (velhas táticas de Metal Gear - cinco anos antes do jogo - e esconderijos que nem eu me lembro mais) conseguir ver todo o mundo que esconde por detrás dos olhos, pulando e correndo e batendo e caindo e voltando, o mundo das velhos contos bizarros escritos na sala, com histórias onde a gravidade muda de posição. Que iria entender a beleza por detrás de Phantasy Star. Criava histórias sobre essa hipotetica garota interagindo com a galera do bairro, meus primos e os amiguinhos, como ela se integrava perfeitamente a aquele ambiente, amiga e companheira, uma pessoa legal e divertida, que iria entender os porques inocentes de tudo aquilo e, nalgum momento no futuro, iria lembrar comigo de tudo isso. Sonhava que essa garota ia conseguir preencher algum vazio que já existia lá naquela época, e antes disso, antes de muita coisa.

Era interessante que, mesmo eu tendo na minha época de escola, mesmo antes e depois, várias garotas que adorava ficar olhando apaixonadamente (ou tão quanto um garotinho consegue entender disso) a hipotética garota perfeita não possuía rosto. Nunca teve. No máximo ela era um momentâneo amalgama de outras, cabelo da Ana Rosa, Pernas da Carina, nariz da Catherine, olhos da Francine. mas quase sempre era só uma voz, uma voz e uma presença que estava ali e preenchia as lacunas.

Aos dez anos eu sonhava com esse tipo de garota. Ou pelo menos sonhava com o dia em que ela chegaria. Não chegou naquela época. Ainda sinto-me perdido, nalgumas madrugadas, tanto quanto aos dez anos, sem conseguir dormir, esperando o maldito momento em que posso respirar fundo e acreditar em algum futuro minimamente válido.



Édipo não se transformou numa figura trágica. Ele não se torna uma epítome da tragédia ao arrancar seus olhos, com tamanho sofrimento. Édipo rei é uma figura trágica porque nasceu com a sentença de assim o ser. Desde seus primeiro momentos de vida todas as situações, pensamentos e ações se voltaram unicamente pra tragicidade de sua vida. Mesmo ele tentando agir contra as intempéries do universo, os deuses percorriam num único passo todo o caminho que ele,a vida toda, correu loucamente para fugir. Édipo não se torna uma figura trágica. Édipo É Trágico, nasceu trágico, viveu trágico e morreu trágico, sem nunca conseguir retirar de sua alma essa macula.
Os gregos sabiam do que estavam falando, acho eu.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Os humores variam. Sei que isso parece óbvio, ainda mais tendo todos os outros escritos daqui como perspectiva, mas os humores variam.

Há dias em que acordar é fácil, há dias que dormir é muito fácil. Consigo sair de casa, ir andando até a faculdade ou até o ponto de ônibus, e consigo ir sonhando com momentos melhores, com situações que podem acontecer e que, nalgum momento, tudo vai melhorar. Há dias em que essas coisas me aparecem na cabeça automaticamente, nem é necessário motivos. Há dias que motivos me fazem ficar assim. Há dias em que é possível viver e sonhar.

e claro, humores variam. Há dias em que é exatamente o oposto disso. Dias em que tudo parece estar morrendo lentamente, com vergonha de sair, que o amanhã com certeza, 100% de certeza, será horrível e incerto, o meu pior pesadelo que nunca irei imaginar. Há dias que vejo pra tudo e só percebo o quão inexoravelmente estou fodido, sem perspectiva nenhuma, esperança, capacidade, motivação, vontade. Há dias em que dormir é um sofrimento de vozes dentro de mim sussurrando as piores coisas, que só consigo realmente não pensar ao imaginar, ao sonhar acordado que é possível vender a alma pra algum demonio em troca de alguma coisa, voltar 20.000 anos no tempo e apenas poder caminhar por um planeta vazio por eras e eras, sem ninguém pra preocupar, sem palavras nem vozes, uma solidão consentida e aceitada plenamente como um destino. Então consigo dormir e não me sinto mal até de manhã, tudo sempre volta e abrir os olhos é uma tortura lenta e certa. Há esses dias em que imaginar-me morto a qualquer momento não é ruim, eu não estaria perdendo todas as histórias e possibilidades de uma vida plena e longa. Há dias que é bem difícil não vomitar.

humores variam. Variam a mais de uma década, e eu já aprendi a conviver com esta ideia. O que não significa que goste, ou que consiga olhar pra tudo e, na pior das madrugadas, ver alguma esperança. Não há nenhuma, mesmo. Todo o tempo desperdiçado, tudo é fútil e banal - não se mate Carlos, eu sei - mas não se matar não significa que tentar viver valha de algo, que possa dar nalguma coisa, que no final será bom. O final será tão horrível quanto todo o resto, eu sei. Caminhar de volta pra casa sozinho ainda é e deverá ser uma constante, exceto quando for não pior que isso.

Enfim, humores variam.