Há pequenos recortes de memorias que eu não sei exatamente o que acontecia ali, qual era seu contexto e porque elas ficaram gravadas na minha memoria, em detrimento de outras. São pequenos pedaços que somente estão ali, soltos, lembrando-me levemente daquilo que um dia já foi, e que nunca mais será.
Acho que há um bom de quando eu devia ter uns dois anos, no máximo, a memória que tenho de uma noite aonde a energia eletrica acabou. Creio pelas coisas que consigo identificar que ainda morávamos na primeira casa, um porão, o Porãozinho. Minha irmã Marina devia ter acabado de nascer, porque a memória exatamente é isso: Eu, no escuro, olhando pro meu pai fazendo a Marina dormir, no colo. Ele cantava a música do "marinheiro só" e eu enquanto olhava pra isso, na mais total escuridão, conseguia sentir os detalhes daquela coberta roxa que tínhamos, os detalhes que eram bordados com uma linha grossa. Eu claramente estava deitado ali, naquela coberta que não era minha, provavelmente estava no quarto do meus pais, e eu devia estar em cima da cama, na escuridão, assistindo meu pai a fazer isso. Não conseguia ver sua imagem, apenas um contraste de escuridão onde ele com minha irmã no colo se sobressaia da escuridão normal, e sua voz cantando a música.
(acabo de perceber, relendo isso, de que não tenho memórias de vida sem a presença da Marina. Minha mais antiga memória tem ela como protagonista)
Lembro-me de uma vez, já na época que estávamos na casa no Totozinho Cardoso, de estar andando com alguém por aquelas ruas subindo a antiga casa do Tio Gê que morávamos. A rua aonde tem a atual "casa da banda" e aonde o Júlio dos videogames teve seu terceiro lugar de "jogar-videogames". A rua da casa do gui e aonde pode-se chegar até a escola. Sei que era bem nas férias de meio do ano, porque estava muito frio e chovia, um sereno um pouco mais forte, que fazia nascer pingos nos telhados das casas. Eu estava apenas andando ali, com uma capa de chuva azul, sentindo muito frio e com os pés molhados. O azul da capa de chuva dominava quase toda a minha visão, e o que não era azul estava com tonalidades de branco, da névoa e da garoa.
Há uma memória que eu não sei exatamente com quem era. Chuto que era com aquela menina que estudou comigo na primeira serie, e já na segunda nunca mais. Não sei qual era o seu nome, mas sei que ela morava numa casa no topo do morro da delegacia, perto de casa. Eu não estava na primeira serie mais, não sei em que ano, mas nalgum momento eu desci com ela um caminho diferente no morro, creio que passando por dentro da casa dela. Não sei exatamente o horário mas devia ser o inicio da tarde, quase meio dia, porque era esse o horário que eu entrava na escola enquanto ainda estava nos primeiros anos. Não, espera. Não sei se estudei todos os anos de manhã, os dois primeiros tenho certeza que só a tarde. (isso ativou outra memoria) enfim, a memoria é nós dois descendo uma trilha no meio do mato, que cortava o morro num sentido muito mais rápido que o normal. Passava por aquele caminho por onde a casa do grande velho Jefinho estaria, no futuro, e chegávamos na avenida muito mais rapidamente. Só me lembro dela indo na frente e eu atrás, olhando uma trilha e o mato ao meu redor.
A outra memória que lembrei acima é a de estar voltando da escola, era o primeiro ano e minha mãe dava-nos aula. Saímos umas cinco da tarde e as luzes das ruas da ladeira da escola já começavam a ligar, mas ainda não era noite. Na verdade há uma grande impressão de cor em mim nessa memória, uma cor alaranjada de crepúsculo, minha mãe descendo na frente e eu atrás, provavelmente com alguns amigos - Gui, Bruno, Rafael - e só consigo me lembrar da alegria que estava, porque era uma sexta-feira e eu teria todo um final de semana. Planejava jogar o jogo da Mônica no Castelo do Dragão, na verdade é exatamente isso a memória: Eu, descendo a rua da escola, numa cor completamente laranja, vibrando de alegria porque poderia alugar de novo o jogo e passar todo o final de semana nele.
Lembro-me de estar na casa do meu falecido primo Elias, isso era nos anos 80. Sei disso porque aprendi a ler Maio de 1992, por ai, e naquela época eu não sabia o que estava escrito na cama desse meus dois primos. Na verdade acho que lembro um pouco de contexto nessa memória, na verdade um pequeno conjunto de coisas. Eu estava dormindo na casa dos meus primos, os filhos da tia Teresinha, e nessa primeira memória os dois primos, Caio e Elias estavam perguntando se eu conseguia ler os nomes deles, que estavam gravados nas camas. Isso acontecia enquanto víamos, numa televisão CCE branco-e-preto (na verdade lembro-me muito bem disso, era um televisão CCE branco-e-preto portátil, a única CCE que vi e a que sempre me refiro quando uso referencias a CCE) víamos na televisão pequena a novela Tieta. Ou melhor, eles viam, eu não estava nem mesmo me importando com a novela.
Há outra memória desse momento, que era eu andando com a Isabelle, provavelmente minha irmã junto, e nós subíamos por aquela rua do lado da casa dela, a ladeira do castelinho, aonde eu comi a Amanda umas vezes em publico, pouco me importando com a galera que passava de carro. Naquela época as ruas ainda eram de terra, e a Isabelle - que devia ter uns 12 anos na época - andava falando alguma coisa, parou, pegou uma pedra no chão e disse que tinha uma coleção de pedras. Só isso.
A ultima memória era de eu e o Elias indo na parte de baixo da casa dele, havia a casa normal (dois andares, era uma casa de ricos, até tinha nas janelas em um canto toldos, toldos ovais de listras verde-branco) na parte de baixo fora casa, um quartinho aonde você devia descer umas escadas, pra achar seu Atari, para que pudéssemos jogar Enduro. Lembro-me um pouco de jogar com ele, e isso esta marcado em minha memoria tanto quanto jogar Enduro em qualquer outro momento. Mas o ato de descer aquelas escadas, o piso marrom, o toldo verde-branco, o quartinho onde estava o Atari estar lotado, essas coisas ficaram marcadas na minha memória. Pequenos recortes de um tempo que eu fui.
domingo, setembro 30, 2012
quinta-feira, setembro 27, 2012
Ando meio prolixo.
Na verdade não. Escrevi alguns dias seguidos, trabalhando nas coisinhas que tento criar literaturisticamente, mas nada realmente importante. Tenho até um fichamento chatíssimo pra escrever e que ando postergando. Procrastinação.
Mas, estranhamente, não me sinto tão mal hoje. Não nos últimos dez minutos. Ok, acabo de ver pornografia mas isso não vem ao caso, normalmente fico mais deprimido quando o faço (mas também, fiquei muito deprimido depois de comer a Marta e a Paulinha algumas vezes. Nada contra girls, eu sou um idiota) ... enfim, não estou tão horrível quanto a algumas horas atrás.
talvez essa mudança drástica seja ruim. Eu sei que eu não piro completamente faz uns bons anos. Pelo menos um ano, acho. Não consigo me lembrar de mais nenhum momento aonde tenha acordado sem saber exatemente aonde estou. whatever.
não estou tão deprimido. E prolixo, estou sentindo vontade de escrever. Acho que isso veio numa pequenina epifania que tive, enquanto olhava a Marcia Imperator trair o marido com um amante e uma mina - que depois deveria dar pro marido dela pra ela poder se divorciar e pegar a grana - a epifania foi "as pessoas estão perdidas"
Digo, é óbvio que as pessoas estão perdidas. Ninguém realmente sabe o que esta fazendo, pra onde esta indo. Há planos, mas eles no final são tão irrelevantes, inocentes e simplórios que, se por algum milagre divinal houvesse algum ser divino onisciente, ele cometeria suicídio de vergonha alheia - alias, ótima imagem, o deus judaico-cristão-islâmico com vergonha alheia de tudo - Há planos mas eles são fúteis. Ninguém sabe absolutamente nada daquilo que esta fazendo, o máximo que pode-se é juntar as pequenas experiências, recortes de realidade, de vivência, e tentar interpreta-los da melhor forma possível para alguns momentos. Tem horas que esses recortes funcionam, tem horas que eles acabam sendo totalmente errados. São tão bom quanto chutes no acaso.
Portanto os recortes não funcionam. At all. esta todo mundo jogado aleatoriamente no mundo, agindo de uma forma inconstante e randomica, atrelada a outras ações randomicas de outras pessoas, que vão acabar dando em uma impossibilidade de previsão de absolutamente nada. Hoje sou um bosta depressivo decadente acabado chorando nos cantos por não ter nenhum sentido na vida alem de acordar e esperar. Amanhã, por motivos que eu completamente desconheço, posso até ser alguém feliz. Ou posso morrer. Ou ficar completamente insano e começar a matar pessoas as quatro horas da manhã, levar seus corpos pra casa, destrinchar, esquartejar em pedaços, pernas braços cabeça barriga intestinos e rins, colocar em malas e espalhar por partes do estado inteiro, indo de busão até São Tome e deixando braços, depois indo pra São Sebastião e deixando as pernas. Ou talvez até consiga achar uma garota, uma esposa, que me ajude a fazer isso, assim eu tendo um álibi sobre aonde estava no momento que os pedaços de corpos foram jogados. Aposto que a policia consegue descobrir isso, se for uma policia de ficção.
Enfim, ninguém sabe de porra nenhuma. Ficar triste porque você também não sabe e não esconde que não tem o melhor plano de como vai agir no futuro não é algo ruim. Talvez seja na visão das pessoas que ainda não perceberam o caos que é o mundo, as pessoas, as coisas, mas hey! e qual é o problema? (digo, alem de você realmente acabar virando este tipo de assassino aleatório e ter no próprio blog uma confissão registrada. As pessoas iriam te entregar pra policia, se uma única pessoa ler cê ta fodido, mas dai poderia alegar insanidade e teria, de um modo completamente absurdo e sem sentido, finalizado o plano que tinha aos 15 anos, caso tudo desse errado: fazer uma merda, alegar insanidade, passar o resto da vida em instituições psiquiatricas tomando remédios e tendo que agir completamente violento e insano para que os outros loucos ficassem com medo de você - se não medo pelo menos sentissem bem a vontade, você sendo mais um da turma - imagine se sentir realmente em casa, com pessoas que te entendem e se não gostam de você, aceitam pelo que é, porque você é um também ((ou pelo menos esta fingindo que é. Você armou isso tudo como um plano, lembra-se?)) e então poderia ficar tranquilo, apanhando sim, mas pouco e batendo mais, talvez se cortar com gilete na frente de todo mundo pra não ter receios de que eles acreditem que cortes podem ser seu ponto fraco (((seu ponto fraco, seu verdadeiro ponto fraco, ninguém nunca desconfiaria que seu verdadeiro ponto fraco é tão banal que qualquer idiota atencioso descobriria. Cuidado, esses loucos costumam ter a percepção aumentada, se é que literatura do século XV me ensinou algo))) - seria engraçado que esse plano desse certo, e ele tomasse forma numa postagem aonde você afirma que nenhum plano pode dar certo, que tudo esta jogado no meio da aleatoriedade sonora da vida e da morte)
portanto, nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. esta tudo fora de controle e é assim que tudo deveria estar.
Na verdade não. Escrevi alguns dias seguidos, trabalhando nas coisinhas que tento criar literaturisticamente, mas nada realmente importante. Tenho até um fichamento chatíssimo pra escrever e que ando postergando. Procrastinação.
Mas, estranhamente, não me sinto tão mal hoje. Não nos últimos dez minutos. Ok, acabo de ver pornografia mas isso não vem ao caso, normalmente fico mais deprimido quando o faço (mas também, fiquei muito deprimido depois de comer a Marta e a Paulinha algumas vezes. Nada contra girls, eu sou um idiota) ... enfim, não estou tão horrível quanto a algumas horas atrás.
talvez essa mudança drástica seja ruim. Eu sei que eu não piro completamente faz uns bons anos. Pelo menos um ano, acho. Não consigo me lembrar de mais nenhum momento aonde tenha acordado sem saber exatemente aonde estou. whatever.
não estou tão deprimido. E prolixo, estou sentindo vontade de escrever. Acho que isso veio numa pequenina epifania que tive, enquanto olhava a Marcia Imperator trair o marido com um amante e uma mina - que depois deveria dar pro marido dela pra ela poder se divorciar e pegar a grana - a epifania foi "as pessoas estão perdidas"
Digo, é óbvio que as pessoas estão perdidas. Ninguém realmente sabe o que esta fazendo, pra onde esta indo. Há planos, mas eles no final são tão irrelevantes, inocentes e simplórios que, se por algum milagre divinal houvesse algum ser divino onisciente, ele cometeria suicídio de vergonha alheia - alias, ótima imagem, o deus judaico-cristão-islâmico com vergonha alheia de tudo - Há planos mas eles são fúteis. Ninguém sabe absolutamente nada daquilo que esta fazendo, o máximo que pode-se é juntar as pequenas experiências, recortes de realidade, de vivência, e tentar interpreta-los da melhor forma possível para alguns momentos. Tem horas que esses recortes funcionam, tem horas que eles acabam sendo totalmente errados. São tão bom quanto chutes no acaso.
Portanto os recortes não funcionam. At all. esta todo mundo jogado aleatoriamente no mundo, agindo de uma forma inconstante e randomica, atrelada a outras ações randomicas de outras pessoas, que vão acabar dando em uma impossibilidade de previsão de absolutamente nada. Hoje sou um bosta depressivo decadente acabado chorando nos cantos por não ter nenhum sentido na vida alem de acordar e esperar. Amanhã, por motivos que eu completamente desconheço, posso até ser alguém feliz. Ou posso morrer. Ou ficar completamente insano e começar a matar pessoas as quatro horas da manhã, levar seus corpos pra casa, destrinchar, esquartejar em pedaços, pernas braços cabeça barriga intestinos e rins, colocar em malas e espalhar por partes do estado inteiro, indo de busão até São Tome e deixando braços, depois indo pra São Sebastião e deixando as pernas. Ou talvez até consiga achar uma garota, uma esposa, que me ajude a fazer isso, assim eu tendo um álibi sobre aonde estava no momento que os pedaços de corpos foram jogados. Aposto que a policia consegue descobrir isso, se for uma policia de ficção.
Enfim, ninguém sabe de porra nenhuma. Ficar triste porque você também não sabe e não esconde que não tem o melhor plano de como vai agir no futuro não é algo ruim. Talvez seja na visão das pessoas que ainda não perceberam o caos que é o mundo, as pessoas, as coisas, mas hey! e qual é o problema? (digo, alem de você realmente acabar virando este tipo de assassino aleatório e ter no próprio blog uma confissão registrada. As pessoas iriam te entregar pra policia, se uma única pessoa ler cê ta fodido, mas dai poderia alegar insanidade e teria, de um modo completamente absurdo e sem sentido, finalizado o plano que tinha aos 15 anos, caso tudo desse errado: fazer uma merda, alegar insanidade, passar o resto da vida em instituições psiquiatricas tomando remédios e tendo que agir completamente violento e insano para que os outros loucos ficassem com medo de você - se não medo pelo menos sentissem bem a vontade, você sendo mais um da turma - imagine se sentir realmente em casa, com pessoas que te entendem e se não gostam de você, aceitam pelo que é, porque você é um também ((ou pelo menos esta fingindo que é. Você armou isso tudo como um plano, lembra-se?)) e então poderia ficar tranquilo, apanhando sim, mas pouco e batendo mais, talvez se cortar com gilete na frente de todo mundo pra não ter receios de que eles acreditem que cortes podem ser seu ponto fraco (((seu ponto fraco, seu verdadeiro ponto fraco, ninguém nunca desconfiaria que seu verdadeiro ponto fraco é tão banal que qualquer idiota atencioso descobriria. Cuidado, esses loucos costumam ter a percepção aumentada, se é que literatura do século XV me ensinou algo))) - seria engraçado que esse plano desse certo, e ele tomasse forma numa postagem aonde você afirma que nenhum plano pode dar certo, que tudo esta jogado no meio da aleatoriedade sonora da vida e da morte)
portanto, nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. nada de pânico. esta tudo fora de controle e é assim que tudo deveria estar.
quarta-feira, setembro 26, 2012
Edipo Rei, uma personagem trágica
Eu devia ter uns dez anos, acho. Estava indo da quarta serie para a quinta, seria uma nova classe, possíveis novos amigos, novas possibilidades. Eu queria mesmo arranjar uma garota.
Lembro-me de sonhar, nessas mesmas férias, de que de alguma forma alguma garota que me entendesse iria aparecer magicamente nessa quinta série. Sim, estava em Salesópolis, não mais de 15.000 habitantes, não mais de 100 pessoas na minha faixa etária, umas 50 garotas. Eu era um estranho. Sempre fui um, lembro-me de causar certo asco, repudio ou (no mínimo) estranheza com minhas ações. As coisas pareciam normais pra mim, mas muito deslocadas do correto pra todo o resto feminino. Era impossível que houvesse, dentro dessas 50 possíveis garotas do interior, todas sem nenhuma referencia interessante, alguma que pudesse ficar do meu lado. Nenhuma delas tinha sequer ouvido Nirvana, e estávamos a não mais de um ano da morte do Cobain. Elas não liam nada e eu tentava ler Frankstein, Dracula, iniciava a imaginar ler Baudelaire. Elas eram mocinhas e eu era o Matt Murdock, o advogado cego sem medo. Eu queria controlar um helicoptero e escrever mil histórias sobre corridas de motos onde os ocupantes se socavam, montava um roteiro de filme sobre isso. Quebrava a cabeça horas e horas tentando achar a passagem secreta no lago de Ayla. Eu era um estranho, um estranho no ninho.
Mas, como sempre, sonhava.
Sonhava que essa garota iria conseguir sentar do meu lado em qualquer lugar, entender o porque dos giros aleatórios na cabeça (é bem divertido ter dez anos e perder toda a noção espacial por alguns segundos) entender qual a beleza em passar todo o recreio brincando de ser proibido alguém conseguir te ver (velhas táticas de Metal Gear - cinco anos antes do jogo - e esconderijos que nem eu me lembro mais) conseguir ver todo o mundo que esconde por detrás dos olhos, pulando e correndo e batendo e caindo e voltando, o mundo das velhos contos bizarros escritos na sala, com histórias onde a gravidade muda de posição. Que iria entender a beleza por detrás de Phantasy Star. Criava histórias sobre essa hipotetica garota interagindo com a galera do bairro, meus primos e os amiguinhos, como ela se integrava perfeitamente a aquele ambiente, amiga e companheira, uma pessoa legal e divertida, que iria entender os porques inocentes de tudo aquilo e, nalgum momento no futuro, iria lembrar comigo de tudo isso. Sonhava que essa garota ia conseguir preencher algum vazio que já existia lá naquela época, e antes disso, antes de muita coisa.
Era interessante que, mesmo eu tendo na minha época de escola, mesmo antes e depois, várias garotas que adorava ficar olhando apaixonadamente (ou tão quanto um garotinho consegue entender disso) a hipotética garota perfeita não possuía rosto. Nunca teve. No máximo ela era um momentâneo amalgama de outras, cabelo da Ana Rosa, Pernas da Carina, nariz da Catherine, olhos da Francine. mas quase sempre era só uma voz, uma voz e uma presença que estava ali e preenchia as lacunas.
Aos dez anos eu sonhava com esse tipo de garota. Ou pelo menos sonhava com o dia em que ela chegaria. Não chegou naquela época. Ainda sinto-me perdido, nalgumas madrugadas, tanto quanto aos dez anos, sem conseguir dormir, esperando o maldito momento em que posso respirar fundo e acreditar em algum futuro minimamente válido.
Édipo não se transformou numa figura trágica. Ele não se torna uma epítome da tragédia ao arrancar seus olhos, com tamanho sofrimento. Édipo rei é uma figura trágica porque nasceu com a sentença de assim o ser. Desde seus primeiro momentos de vida todas as situações, pensamentos e ações se voltaram unicamente pra tragicidade de sua vida. Mesmo ele tentando agir contra as intempéries do universo, os deuses percorriam num único passo todo o caminho que ele,a vida toda, correu loucamente para fugir. Édipo não se torna uma figura trágica. Édipo É Trágico, nasceu trágico, viveu trágico e morreu trágico, sem nunca conseguir retirar de sua alma essa macula.
Os gregos sabiam do que estavam falando, acho eu.
Lembro-me de sonhar, nessas mesmas férias, de que de alguma forma alguma garota que me entendesse iria aparecer magicamente nessa quinta série. Sim, estava em Salesópolis, não mais de 15.000 habitantes, não mais de 100 pessoas na minha faixa etária, umas 50 garotas. Eu era um estranho. Sempre fui um, lembro-me de causar certo asco, repudio ou (no mínimo) estranheza com minhas ações. As coisas pareciam normais pra mim, mas muito deslocadas do correto pra todo o resto feminino. Era impossível que houvesse, dentro dessas 50 possíveis garotas do interior, todas sem nenhuma referencia interessante, alguma que pudesse ficar do meu lado. Nenhuma delas tinha sequer ouvido Nirvana, e estávamos a não mais de um ano da morte do Cobain. Elas não liam nada e eu tentava ler Frankstein, Dracula, iniciava a imaginar ler Baudelaire. Elas eram mocinhas e eu era o Matt Murdock, o advogado cego sem medo. Eu queria controlar um helicoptero e escrever mil histórias sobre corridas de motos onde os ocupantes se socavam, montava um roteiro de filme sobre isso. Quebrava a cabeça horas e horas tentando achar a passagem secreta no lago de Ayla. Eu era um estranho, um estranho no ninho.
Mas, como sempre, sonhava.
Sonhava que essa garota iria conseguir sentar do meu lado em qualquer lugar, entender o porque dos giros aleatórios na cabeça (é bem divertido ter dez anos e perder toda a noção espacial por alguns segundos) entender qual a beleza em passar todo o recreio brincando de ser proibido alguém conseguir te ver (velhas táticas de Metal Gear - cinco anos antes do jogo - e esconderijos que nem eu me lembro mais) conseguir ver todo o mundo que esconde por detrás dos olhos, pulando e correndo e batendo e caindo e voltando, o mundo das velhos contos bizarros escritos na sala, com histórias onde a gravidade muda de posição. Que iria entender a beleza por detrás de Phantasy Star. Criava histórias sobre essa hipotetica garota interagindo com a galera do bairro, meus primos e os amiguinhos, como ela se integrava perfeitamente a aquele ambiente, amiga e companheira, uma pessoa legal e divertida, que iria entender os porques inocentes de tudo aquilo e, nalgum momento no futuro, iria lembrar comigo de tudo isso. Sonhava que essa garota ia conseguir preencher algum vazio que já existia lá naquela época, e antes disso, antes de muita coisa.
Era interessante que, mesmo eu tendo na minha época de escola, mesmo antes e depois, várias garotas que adorava ficar olhando apaixonadamente (ou tão quanto um garotinho consegue entender disso) a hipotética garota perfeita não possuía rosto. Nunca teve. No máximo ela era um momentâneo amalgama de outras, cabelo da Ana Rosa, Pernas da Carina, nariz da Catherine, olhos da Francine. mas quase sempre era só uma voz, uma voz e uma presença que estava ali e preenchia as lacunas.
Aos dez anos eu sonhava com esse tipo de garota. Ou pelo menos sonhava com o dia em que ela chegaria. Não chegou naquela época. Ainda sinto-me perdido, nalgumas madrugadas, tanto quanto aos dez anos, sem conseguir dormir, esperando o maldito momento em que posso respirar fundo e acreditar em algum futuro minimamente válido.
Édipo não se transformou numa figura trágica. Ele não se torna uma epítome da tragédia ao arrancar seus olhos, com tamanho sofrimento. Édipo rei é uma figura trágica porque nasceu com a sentença de assim o ser. Desde seus primeiro momentos de vida todas as situações, pensamentos e ações se voltaram unicamente pra tragicidade de sua vida. Mesmo ele tentando agir contra as intempéries do universo, os deuses percorriam num único passo todo o caminho que ele,a vida toda, correu loucamente para fugir. Édipo não se torna uma figura trágica. Édipo É Trágico, nasceu trágico, viveu trágico e morreu trágico, sem nunca conseguir retirar de sua alma essa macula.
Os gregos sabiam do que estavam falando, acho eu.
segunda-feira, setembro 10, 2012
Os humores variam. Sei que isso parece óbvio, ainda mais tendo todos os outros escritos daqui como perspectiva, mas os humores variam.
Há dias em que acordar é fácil, há dias que dormir é muito fácil. Consigo sair de casa, ir andando até a faculdade ou até o ponto de ônibus, e consigo ir sonhando com momentos melhores, com situações que podem acontecer e que, nalgum momento, tudo vai melhorar. Há dias em que essas coisas me aparecem na cabeça automaticamente, nem é necessário motivos. Há dias que motivos me fazem ficar assim. Há dias em que é possível viver e sonhar.
e claro, humores variam. Há dias em que é exatamente o oposto disso. Dias em que tudo parece estar morrendo lentamente, com vergonha de sair, que o amanhã com certeza, 100% de certeza, será horrível e incerto, o meu pior pesadelo que nunca irei imaginar. Há dias que vejo pra tudo e só percebo o quão inexoravelmente estou fodido, sem perspectiva nenhuma, esperança, capacidade, motivação, vontade. Há dias em que dormir é um sofrimento de vozes dentro de mim sussurrando as piores coisas, que só consigo realmente não pensar ao imaginar, ao sonhar acordado que é possível vender a alma pra algum demonio em troca de alguma coisa, voltar 20.000 anos no tempo e apenas poder caminhar por um planeta vazio por eras e eras, sem ninguém pra preocupar, sem palavras nem vozes, uma solidão consentida e aceitada plenamente como um destino. Então consigo dormir e não me sinto mal até de manhã, tudo sempre volta e abrir os olhos é uma tortura lenta e certa. Há esses dias em que imaginar-me morto a qualquer momento não é ruim, eu não estaria perdendo todas as histórias e possibilidades de uma vida plena e longa. Há dias que é bem difícil não vomitar.
humores variam. Variam a mais de uma década, e eu já aprendi a conviver com esta ideia. O que não significa que goste, ou que consiga olhar pra tudo e, na pior das madrugadas, ver alguma esperança. Não há nenhuma, mesmo. Todo o tempo desperdiçado, tudo é fútil e banal - não se mate Carlos, eu sei - mas não se matar não significa que tentar viver valha de algo, que possa dar nalguma coisa, que no final será bom. O final será tão horrível quanto todo o resto, eu sei. Caminhar de volta pra casa sozinho ainda é e deverá ser uma constante, exceto quando for não pior que isso.
Enfim, humores variam.
Há dias em que acordar é fácil, há dias que dormir é muito fácil. Consigo sair de casa, ir andando até a faculdade ou até o ponto de ônibus, e consigo ir sonhando com momentos melhores, com situações que podem acontecer e que, nalgum momento, tudo vai melhorar. Há dias em que essas coisas me aparecem na cabeça automaticamente, nem é necessário motivos. Há dias que motivos me fazem ficar assim. Há dias em que é possível viver e sonhar.
e claro, humores variam. Há dias em que é exatamente o oposto disso. Dias em que tudo parece estar morrendo lentamente, com vergonha de sair, que o amanhã com certeza, 100% de certeza, será horrível e incerto, o meu pior pesadelo que nunca irei imaginar. Há dias que vejo pra tudo e só percebo o quão inexoravelmente estou fodido, sem perspectiva nenhuma, esperança, capacidade, motivação, vontade. Há dias em que dormir é um sofrimento de vozes dentro de mim sussurrando as piores coisas, que só consigo realmente não pensar ao imaginar, ao sonhar acordado que é possível vender a alma pra algum demonio em troca de alguma coisa, voltar 20.000 anos no tempo e apenas poder caminhar por um planeta vazio por eras e eras, sem ninguém pra preocupar, sem palavras nem vozes, uma solidão consentida e aceitada plenamente como um destino. Então consigo dormir e não me sinto mal até de manhã, tudo sempre volta e abrir os olhos é uma tortura lenta e certa. Há esses dias em que imaginar-me morto a qualquer momento não é ruim, eu não estaria perdendo todas as histórias e possibilidades de uma vida plena e longa. Há dias que é bem difícil não vomitar.
humores variam. Variam a mais de uma década, e eu já aprendi a conviver com esta ideia. O que não significa que goste, ou que consiga olhar pra tudo e, na pior das madrugadas, ver alguma esperança. Não há nenhuma, mesmo. Todo o tempo desperdiçado, tudo é fútil e banal - não se mate Carlos, eu sei - mas não se matar não significa que tentar viver valha de algo, que possa dar nalguma coisa, que no final será bom. O final será tão horrível quanto todo o resto, eu sei. Caminhar de volta pra casa sozinho ainda é e deverá ser uma constante, exceto quando for não pior que isso.
Enfim, humores variam.
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