Isso é outra das coisas que o heitor escreveu a décadas atrás. Apareço mais como personagem do que algo relevante, mas ainda é uma boa descrição, e tenho uma boa cena. O "melhor dia de SP" foi quando fomos beber em casa, Peiotte e a Carol, Heitor, Matheus e a Flora (eles caíram fora cedo) e Alba e eu. Levamos um punhado de bebida, ficamos bêbados e foi, em um momento, a melhor noite em sp.
É interessante também ver o índice de amizade dos 3, Heitor Peiotte e eu. Hoje em dia o Heitor e o Peiotte não conversam tanto, mas eu ando bem com ambos.
Enfim, ao conto, que seja. É um bom conto.
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Estávamos sentados em minha cozinha, eu e C. no banco aparafusado a
parede e Marcelo do outro lado. Acho que não conseguíamos nos decidir em
alguma coisa para fazer, isso andava acontecendo bastante. Se não me
engano foi C. quem lançou:
- Ei, se lembram da melhor noite de São Paulo?
Eu me lembrava, dei um aceno com a cabeça. Marcelo ficou uns
instantes olhando para o teto, depois soltou um “ah, lembro-me”. Nunca
vou entender os momentos que ele escolhe para usar ênclises. Logo depois
C. continuou:
- Por que mesmo aquela foi a melhor noite de São Paulo?
- Hum, - eu disse – acho que foi porque nós nos divertimos
aquele dia, não? Eu me lembro que nos sentimos alegres falando de um
futuro que nunca vai acontecer. E depois a gente se sentiu confortável
dentro de carros conhecidos e de carros desconhecidos. Eu acho que foi
isso.
- Mas sabe, - ele respondeu - será que isso quer
dizer que nunca mais vamos ter uma noite melhor que aquela? Tudo que a
gente fizer vai ser pior que aquilo com certeza?
- Pelo
menos foi só de São Paulo, ainda tem um monte de cidade para a gente
visitar; foi o que Marcelo disse. Acho que ele estava bêbado na hora,
não me lembro muito bem.
- Além do mais, - eu disse - só
porque aquela foi a melhor não quer dizer que outras não possam ser
boas. Dá para as outras noites serem um tiquinho piores, mas ainda assim
muito divertidas.
- É verdade! É verdade! – foi o que o
C. exclamou. Ele se animou um pouco e começou a fazer uma dança com
alguns de seus dedos.
Depois disso ficamos em silêncio
por mais alguns momentos. C. continuava com sua dancinha e Marcelo com
os olhos no teto. Não sei o que eu fazia. Devia estar prestando atenção
nos dois, eu acho. Marcelo então baixou os olhos e disse:
- Nessa noite eu não tive uma briga feia com a minha ex-namorada?
- Não consigo me lembrar de muitas coisas. - disse o C., sem parar com sua dança.
- Vocês estão falando sério que não se lembram de nada? – eu
disse – É, você brigou sim com sua ex-namorada. E o C. se sentiu muito
mal por ter feito um papel de bobo para a dele, não se lembram de nada
disso? Todos vocês passaram mal, alguns vomitaram, e terminaram a noite
completamente tristes.
- Rapaz! – C. disse – É verdade, to me recordando agora. Tinha me esquecido de tudo isso.
- Espera aí. – foi o Marcelo dizendo – Quer dizer que toda
essa porcaria só aconteceu com a gente? E com você, não aconteceu nada?
Você não brigou com ninguém nem sentiu nada por causa da noite?
- Não briguei com ninguém, com quem eu poderia brigar? Eu não
estava com ninguém, eu estava vendo desenhos animados enquanto vocês
brigavam. Também não teria porque me sentir mal. Se qualquer coisa, eu
me senti um pouco alegre por ver todos os casais brigando e terminando
mal a noite enquanto eu estava alegre com meus desenhos.
Marcelo deu uma suspirada. A dancinha dos dedos de C. havia mudado, como
se a música para a qual dançassem fosse agora mais triste. Eu dei um
último gole em meu copo e com isso toda nossa bebida tinha acabado.
- Não sei se tenho mais muita vontade de lembrar da melhor
noite de São Paulo, ela não me parece mais muito boa. E se realmente
nunca mais tivermos nada melhor que aquilo será uma tristeza. – disse
Marcelo.
- Quem sabe “Melhor” seja só um título, sabe? – disse C. – que nem o Elton John ser um Sir.
- É verdade. Ele é um Sir e a música dele continua uma porcaria. – eu disse.
Enquanto C. discutia comigo quão fabuloso Elton John era,
Marcelo pegou um talher qualquer jogado na mesa e começou a bater
levemente do lado de seu copo vazio. Paramos e olhamos para ele:
- Proponho então um brinde. Aqui está, para hoje! A Pior Noite de São Paulo!
- Pior noite? – eu disse – Não está tão ruim assim.
-É! – disse C. – Eu até comi hoje!
- Isso não importa! – Marcelo disse – A idéia é transformar
essa na pior noite de todas. Se essa aqui for a pior quer dizer que as
outras serão melhores, logo não temos muito a perder.
“É,
faz senti...” foi o que C. disse. Mas na hora que estava para terminar a
frase o banco onde estávamos soltou da parede e caímos no chão. Nenhum
dos dois se machucou muito. Depois de nos levantarmos C. tentava
reerguer o banco, achando que aquilo era de alguma forma culpa dele.
- Não se preocupe. – eu disse – Esse banco já estava velho.
Há mais de 15 anos que eu sentava nele, uma hora ia quebrar. De qualquer
jeito ele durou mais do que a maioria de nós. Você estava falando de um
brinde?
- É! – disse C. – À pior noite de São Paulo?
- Á Pior Noite de São Paulo!
E brindamos com nossos copos vazios.
terça-feira, dezembro 18, 2012
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