domingo, setembro 30, 2012

Recortes

Há pequenos recortes de memorias que eu não sei exatamente o que acontecia ali, qual era seu contexto e porque elas ficaram gravadas na minha memoria, em detrimento de outras. São pequenos pedaços que somente estão ali, soltos, lembrando-me levemente daquilo que um dia já foi, e que nunca mais será.

Acho que há um bom de quando eu devia ter uns dois anos, no máximo, a memória que tenho de uma noite aonde a energia eletrica acabou. Creio pelas coisas que consigo identificar que ainda morávamos na primeira casa, um porão, o Porãozinho. Minha irmã Marina devia ter acabado de nascer, porque a memória exatamente é isso: Eu, no escuro, olhando pro meu pai fazendo a Marina dormir, no colo. Ele cantava a música do "marinheiro só" e eu enquanto olhava pra isso, na mais total escuridão, conseguia sentir os detalhes daquela coberta roxa que tínhamos, os detalhes que eram bordados com uma linha grossa. Eu claramente estava deitado ali, naquela coberta que não era minha, provavelmente estava no quarto do meus pais, e eu devia estar em cima da cama, na escuridão, assistindo meu pai a fazer isso. Não conseguia ver sua imagem, apenas um contraste de escuridão onde ele com minha irmã no colo se sobressaia da escuridão normal, e sua voz cantando a música.

(acabo de perceber, relendo isso, de que não tenho memórias de vida sem a presença da Marina. Minha mais antiga memória tem ela como protagonista)

Lembro-me de uma vez, já na época que estávamos na casa no Totozinho Cardoso, de estar andando com alguém por aquelas ruas subindo a antiga casa do Tio Gê que morávamos. A rua aonde tem a atual "casa da banda" e aonde o Júlio dos videogames teve seu terceiro lugar de "jogar-videogames". A rua da casa do gui e aonde pode-se chegar até a escola. Sei que era bem nas férias de meio do ano, porque estava muito frio e chovia, um sereno um pouco mais forte, que fazia nascer pingos nos telhados das casas. Eu estava apenas andando ali, com uma capa de chuva azul, sentindo muito frio e com os pés molhados. O azul da capa de chuva dominava quase toda a minha visão, e o que não era azul estava com tonalidades de branco, da névoa e da garoa.


Há uma memória que eu não sei exatamente com quem era. Chuto que era com aquela menina que estudou comigo na primeira serie, e já na segunda nunca mais. Não sei qual era o seu nome, mas sei que ela morava numa casa no topo do morro da delegacia, perto de casa. Eu não estava na primeira serie mais, não sei em que ano, mas nalgum momento eu desci com ela um caminho diferente no morro, creio que passando por dentro da casa dela. Não sei exatamente o horário mas devia ser o inicio da tarde, quase meio dia, porque era esse o horário que eu entrava na escola enquanto ainda estava nos primeiros anos. Não, espera. Não sei se estudei todos os anos de manhã, os dois primeiros tenho certeza que só a tarde. (isso ativou outra memoria) enfim, a memoria é nós dois descendo uma trilha no meio do mato, que cortava o morro num sentido muito mais rápido que o normal. Passava por aquele caminho por onde a casa do grande velho Jefinho estaria, no futuro, e chegávamos na avenida muito mais rapidamente. Só me lembro dela indo na frente e eu atrás, olhando uma trilha e o mato ao meu redor.

A outra memória que lembrei acima é a de estar voltando da escola, era o primeiro ano e minha mãe dava-nos aula. Saímos umas cinco da tarde e as luzes das ruas da ladeira da escola já começavam a ligar, mas ainda não era noite. Na verdade há uma grande impressão de cor em mim nessa memória, uma cor alaranjada de crepúsculo, minha mãe descendo na frente e eu atrás, provavelmente com alguns amigos - Gui, Bruno, Rafael - e só consigo me lembrar da alegria que estava, porque era uma sexta-feira e eu teria todo um final de semana. Planejava jogar o jogo da Mônica no Castelo do Dragão, na verdade é exatamente isso a memória: Eu, descendo a rua da escola, numa cor completamente laranja, vibrando de alegria porque poderia alugar de novo o jogo e passar todo o final de semana nele.

Lembro-me de estar na casa do meu falecido primo Elias, isso era nos anos 80. Sei disso porque aprendi a ler Maio de 1992, por ai, e naquela época eu não sabia o que estava escrito na cama desse meus dois primos. Na verdade acho que lembro um pouco de contexto nessa memória, na verdade um pequeno conjunto de coisas. Eu estava dormindo na casa dos meus primos, os filhos da tia Teresinha, e nessa primeira memória os dois primos, Caio e Elias estavam perguntando se eu conseguia ler os nomes deles, que estavam gravados nas camas. Isso acontecia enquanto víamos, numa televisão CCE branco-e-preto (na verdade lembro-me muito bem disso, era um televisão CCE branco-e-preto portátil, a única CCE que vi e a que sempre me refiro quando uso referencias a CCE) víamos na televisão pequena a novela Tieta. Ou melhor, eles viam, eu não estava nem mesmo me importando com a novela.
Há outra memória desse momento, que era eu andando com a Isabelle, provavelmente minha irmã junto, e nós subíamos por aquela rua do lado da casa dela, a ladeira do castelinho, aonde eu comi a Amanda umas vezes em publico, pouco me importando com a galera que passava de carro. Naquela época as ruas ainda eram de terra, e a Isabelle - que devia ter uns 12 anos na época - andava falando alguma coisa, parou, pegou uma pedra no chão e disse que tinha uma coleção de pedras. Só isso.
A ultima memória era de eu e o Elias indo na parte de baixo da casa dele, havia a casa normal (dois andares, era uma casa de ricos, até tinha nas janelas em um canto toldos, toldos ovais de listras verde-branco) na parte de baixo fora casa, um quartinho aonde você devia descer umas escadas, pra achar seu Atari, para que pudéssemos jogar Enduro. Lembro-me um pouco de jogar com ele, e isso esta marcado em minha memoria tanto quanto jogar Enduro em qualquer outro momento. Mas o ato de descer aquelas escadas, o piso marrom, o toldo verde-branco, o quartinho onde estava o Atari estar lotado, essas coisas ficaram marcadas na minha memória. Pequenos recortes de um tempo que eu fui.

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