domingo, dezembro 30, 2012

É um bocado difícil ser sincero. E é bem mais complicado ser consigo mesmo do que com os outros. Há dentro de minha consciência vários pequenos atalhos, métodos de enganação, coisas que já me acostumei tanto a repetir que as mentiras quase saem respiradoramente. Não creio que essa palavra exista. Mentir para os outros é mais complexo, mais ainda se eu estiver mesmo na tentativa de que a pessoa acredite naquilo que falo, algumas vezes é irrelevante o outro.

É óbvio que há momento aonde isto não acontece, quando sou sincero ao extremo. Creio que o mais evidente e costumeiro deles se faz quando escrevo, é um bocado difícil mentir com meu fluxo de pensamento, a preocupação estilística. Mas talvez não consigo mentir escrevendo porque isto age em mim como válvula de escape. Também há uns poucos momentos aonde sou verdadeiro com pessoas reais, em conversas reais. Foram muito poucos, admito, mas estes ficaram marcados na minha memoria como alguma coisa boa. É muito bom ser sincero, mas ao mesmo tempo muito difícil.

--Creio que consegui chegar aonde queria com este inicio de texto, reescrevi-o algumas vezes porque não conseguia atingir aquilo que queria dizer, mas acho que achei a saída daquilo que quero, a divagação sobre a dificuldade de ser sincero, em ambas as possibilidades de interpretação desta frase; a como é difícil agir sinceramente e como isto traz complicações, é perigoso.--

Talvez seja tudo fruto do medo, ele traz a mentira própria dentro de si. Eu tenho medo das pessoas que não entendo - quase todas - e tenho medo daquilo que há dentro de mim que não entendo - quase tudo - há momentos em que consigo atingir a compreensão com algumas delas - as pessoas - de forma que qualquer mentira não é preciso. Eu sei que elas não vão me machucar com as verdades que conto, reconheço nelas aquilo primordial que há em mim de bom e isso é ótimo. Mas quase nunca isso acontece e é por isso que tudo é tão difícil.

Sou uma pessoa quebrada. Se não de nascimento sim pela vivência errada que tive. Perdi muitas possibilidades de ser feliz e não creio que tantas mais poderão vir no futuro. Isso me força a apenas afundar num pequeno mar de mentiras e invenções que não são necessariamente agradáveis, mas que pelo menos não tem o risco de machucar-me profundamente. As verdades, quando vividas, são as piores coisas a se encarar.

 --não consegui fazer o menor sentido lógico, acho. este texto falhou em sua proposta e, se não estivesse postando tudo que escrevo, ele seria um rascunho. mas não posso mentir também com isto, de forma que horrível ou não, esta colocado junto com os outros --

sábado, dezembro 29, 2012

terceira parte

Terceiro e último post com um conto do Heitor aonde eu apareço. É o mais curto, simples e depressivo, mas deixa marcado alguma coisa do passado que eu esqueci (ou esqueci de esquecer)

Não tem título.

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Nós todos andamos olhando para baixo.

Um dia C. chegou com ombros largos e nos disse “de agora em diante andarei com a cabeça erguida”. Ficamos espantados, mas ao menos achamos que algo bom havia ocorrido.

Foi quando no dia seguinte o vimos chegar à faculdade, com a cabeça erguida, sim, erguida demais. Olhando para cima, para o céu. Ele esbarrava nas pessoas e tropeçava constantemente.

Não conseguia mais se locomover como antes. Pegava o ônibus necessário, mas os pontos corriam por debaixo de seus olhos assim nunca descia no correto. Por isso tinha que andar um longo caminho até sua casa, o que fazia com que tropeçasse mais e mais. A cada dia aparecia com novos machucados, alguns começando a se tornar sérios.Depois de uma semana ele nos disse tchau, se virou e andou direto em direção à um barranco.

No dia seguinte ele disse oi aos nossos sapatos.

terça-feira, dezembro 25, 2012

É noite de natal, estou sozinho em casa. Não que isto seja de alguma forma novidade, ou algo que me abale profundamente, estou muito bem acostumado a passar todos os momentos apenas comigo mesmo e mais nada. Mas é noite de natal e deveria ser de alguma forma confortável. Ou eu estou sensibilizando demais uma segunda-feira comum.

Olhando por outro lado, é noite de natal e somente agora estou sozinho. Nas ultimas cinco horas estive ao redor de muitas pessoas, e embora nem todas gostassem da minha companhia eu não me senti desconfortável. Até virei Papai-Noel para umas crianças, com roupa, sino, voz e tudo mais.

Nisso tenho que deixar marcado o quão impressionante foi o olhar de surpresa e alegria de um menino. Não devia ter mais que uns cinco anos e realmente acreditou que eu era o papai Noel. Como era a pessoa mais “estrangeira” da festinha que estava, era o menos conhecido, o garoto não notou minha ausência nos segundo que me vestiam, e acreditou totalmente que eu era o Noel. Sua expressão de alegria valeu a pena da noite, acho.
Depois sai com os garotos de Salé. Digo garotos porque eles são todos muito mais novos que eu, um chega a ter 16 anos. Sair com molecada não é nada inédito, o Paulo Punk bebia comigo aos 11, mas agora eu não reconheço mais nenhuma cara alem da desses, uns poucos mais de cinco que eu consigo conversar de boa, beber e tudo mais. E como eles são molecotes e eu um velho sem esperança, acabo desanimando bem antes deles. Há nos garotos a força física e a vontade moral de tentar, alem de que meninas preferem os novinhos bonitos a um velho decadente. Eles avançam e eu acompanho a passos lentos, no máximo pontuando com experiência fingida ou pequenos conhecimentos prosaicos. Nada muito diferente de sempre, devo notar..

E então acabei às duas da manhã sozinho em casa, sem família, sem amigos, só eu e minhas lembranças, eu e as vozes que ressoam toda noite, eu e a esperança de dormir rapidamente e ter um bom sonho. Acabo eu e mais ninguém, como sempre foi e sempre será.

nada como ser original.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Foi bem divertido

Ok, a exatamente um ano atrás eu estava miserável. Possivelmente o mais miserável que jamais estive. Havia acabado de fazer mais um aniversário e não possuía nenhuma esperança, para absolutamente nada. Tinha, exatamente como o titulo explicava, perdido.

O que escrevi nesse dia ainda ressoa um bocado em mim, há uma certa força verdadeira nisso e eu de vez em quando releio. Nesse momento estava desesperado, desiludido, derrotado. Não apenas não possuía forças de lutar contra todo o resto como via claramente que, mesmo se lutasse, haveria de perder. Não tinha porque tentar, não precisava apostar nenhuma das minhas - poucas - fichas em algo alem do ficar deitado, em posição fetal, e torcer pra morrer. Esse post ainda ressoa, ainda se comunica muito comigo.

Porem, se isso é verdade, também o é que eu estou relativamente melhor do que isso. Não quero dizer que todas as minhas angustias sumiram, que essa sensação de desgosto, desesperança, derrota desapareceu. Mas nada neste ano foi tão ruim como esse dia dessa postagem. Tive meus altos e baixos. Momentos realmente incríveis. Vivi, de verdade, mesmo que por apenas alguns pouquíssimos segundos. E creio que um dos maiores problemas que enfrentei nesse dia, a um ano atrás, foi a incapacidade de poder viver.

Enfim, não posso dizer que venci, não venci mesmo. Na verdade creio que perdi mais do que antes. Sobre certos aspectos posso dizer que estou mais derrotado que antes, derrotado de verdade, sem esperanças de ganhar. Mas ainda sim não me sinto tão mal quanto nesse dia. E creio possuir vários motivos pra isso, vários motivos que me fazem olhar pra algum pequeno futuro senão com esperança, pelo menos com alguma coisa boa dentro de mim, alguma pequena coisa que pode me aquecer quando todo o resto congela. Tenho algumas lembranças, algumas memórias, algumas poucas palavras ditas em certos momentos que fizeram toda a diferença. E se isso não me dá uma total esperança de encarar o possível futuro horrível e solitário que esta certamente a vir ano que vem, pelo menos sei que não foi tudo tão em vão assim.

De qualquer forma, foi bem divertido.

terça-feira, dezembro 18, 2012

A segunda parte - Histórias do Heitor.

Isso é outra das coisas que o heitor escreveu a décadas atrás. Apareço mais como personagem do que algo relevante, mas ainda é uma boa descrição, e tenho uma boa cena. O "melhor dia de SP" foi quando fomos beber em casa, Peiotte e a Carol, Heitor, Matheus e a Flora (eles caíram fora cedo) e Alba e eu. Levamos um punhado de bebida, ficamos bêbados e foi, em um momento, a melhor noite em sp.

É interessante também ver o índice de amizade dos 3, Heitor Peiotte e eu. Hoje em dia o Heitor e o Peiotte não conversam tanto, mas eu ando bem com ambos.

Enfim, ao conto, que seja. É um bom conto.


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Estávamos sentados em minha cozinha, eu e C. no banco aparafusado a parede e Marcelo do outro lado. Acho que não conseguíamos nos decidir em alguma coisa para fazer, isso andava acontecendo bastante. Se não me engano foi C. quem lançou:
- Ei, se lembram da melhor noite de São Paulo?
Eu me lembrava, dei um aceno com a cabeça. Marcelo ficou uns instantes olhando para o teto, depois soltou um “ah, lembro-me”. Nunca vou entender os momentos que ele escolhe para usar ênclises. Logo depois C. continuou:
- Por que mesmo aquela foi a melhor noite de São Paulo?
- Hum, - eu disse – acho que foi porque nós nos divertimos aquele dia, não? Eu me lembro que nos sentimos alegres falando de um futuro que nunca vai acontecer. E depois a gente se sentiu confortável dentro de carros conhecidos e de carros desconhecidos. Eu acho que foi isso.
- Mas sabe, - ele respondeu - será que isso quer dizer que nunca mais vamos ter uma noite melhor que aquela? Tudo que a gente fizer vai ser pior que aquilo com certeza?
- Pelo menos foi só de São Paulo, ainda tem um monte de cidade para a gente visitar; foi o que Marcelo disse. Acho que ele estava bêbado na hora, não me lembro muito bem.
- Além do mais, - eu disse - só porque aquela foi a melhor não quer dizer que outras não possam ser boas. Dá para as outras noites serem um tiquinho piores, mas ainda assim muito divertidas.
- É verdade! É verdade! – foi o que o C. exclamou. Ele se animou um pouco e começou a fazer uma dança com alguns de seus dedos.
Depois disso ficamos em silêncio por mais alguns momentos. C. continuava com sua dancinha e Marcelo com os olhos no teto. Não sei o que eu fazia. Devia estar prestando atenção nos dois, eu acho. Marcelo então baixou os olhos e disse:
- Nessa noite eu não tive uma briga feia com a minha ex-namorada?
- Não consigo me lembrar de muitas coisas. - disse o C., sem parar com sua dança.
- Vocês estão falando sério que não se lembram de nada? – eu disse – É, você brigou sim com sua ex-namorada. E o C. se sentiu muito mal por ter feito um papel de bobo para a dele, não se lembram de nada disso? Todos vocês passaram mal, alguns vomitaram, e terminaram a noite completamente tristes.
- Rapaz! – C. disse – É verdade, to me recordando agora. Tinha me esquecido de tudo isso.
- Espera aí. – foi o Marcelo dizendo – Quer dizer que toda essa porcaria só aconteceu com a gente? E com você, não aconteceu nada? Você não brigou com ninguém nem sentiu nada por causa da noite?
- Não briguei com ninguém, com quem eu poderia brigar? Eu não estava com ninguém, eu estava vendo desenhos animados enquanto vocês brigavam. Também não teria porque me sentir mal. Se qualquer coisa, eu me senti um pouco alegre por ver todos os casais brigando e terminando mal a noite enquanto eu estava alegre com meus desenhos.
Marcelo deu uma suspirada. A dancinha dos dedos de C. havia mudado, como se a música para a qual dançassem fosse agora mais triste. Eu dei um último gole em meu copo e com isso toda nossa bebida tinha acabado.
- Não sei se tenho mais muita vontade de lembrar da melhor noite de São Paulo, ela não me parece mais muito boa. E se realmente nunca mais tivermos nada melhor que aquilo será uma tristeza. – disse Marcelo.
- Quem sabe “Melhor” seja só um título, sabe? – disse C. – que nem o Elton John ser um Sir.
- É verdade. Ele é um Sir e a música dele continua uma porcaria. – eu disse.
Enquanto C. discutia comigo quão fabuloso Elton John era, Marcelo pegou um talher qualquer jogado na mesa e começou a bater levemente do lado de seu copo vazio. Paramos e olhamos para ele:
- Proponho então um brinde. Aqui está, para hoje! A Pior Noite de São Paulo!
- Pior noite? – eu disse – Não está tão ruim assim.
-É! – disse C. – Eu até comi hoje!
- Isso não importa! – Marcelo disse – A idéia é transformar essa na pior noite de todas. Se essa aqui for a pior quer dizer que as outras serão melhores, logo não temos muito a perder.
“É, faz senti...” foi o que C. disse. Mas na hora que estava para terminar a frase o banco onde estávamos soltou da parede e caímos no chão. Nenhum dos dois se machucou muito. Depois de nos levantarmos C. tentava reerguer o banco, achando que aquilo era de alguma forma culpa dele.
- Não se preocupe. – eu disse – Esse banco já estava velho. Há mais de 15 anos que eu sentava nele, uma hora ia quebrar. De qualquer jeito ele durou mais do que a maioria de nós. Você estava falando de um brinde?
- É! – disse C. – À pior noite de São Paulo?
- Á Pior Noite de São Paulo!

E brindamos com nossos copos vazios.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pessoas que por ventura venham a ler esta coisa hão de achar que minha vida é completamente medíocre, entristecida, baseada apenas na miserabilidade e na impossibilidade das coisas darem certo. Elas estariam certas, sobre um ponto de vista sim. Mas se é verdade que grande parte das vezes estou desgostoso com praticamente tudo ao redor, também é verdade que há alguns grandes momentos aonde há felicidade extrema, aonde eu não consigo me contar dentro de mim mesmo de tantas coisas boas que sinto, daquilo que vem a ser esperança e tudo mais.

Interessante notar que, esta próxima lembrança é totalmente recente. Há uma regra implícita nisso daqui que somente coisas velhas seriam escritas, apenas as lembranças que eu relembro vagamente e que foram de alguma forma relevantes pra mim. Isto que virá agora é novo, mas sinto na necessidade de pelo menos escrever sobre, porque alem de ser um contraponto as memorias ruins, é também um demonstrativo de que não sou o mais insignificante dos seres. Enfim...

Aconteceu a não mais que seis meses. Eu ainda estava saindo com a Ju, praticamente um numero par de dias na semana e conversava com ela todo dia, a quase todo momento. Era um final de semana, e não lembro por qual motivo ela estava em sp. Creio que tinha ido nalguma coisa de uma amiga, talvez um pre-casamento em que ela seria madrinha. O ponto é que eu havia chamado pra vir aqui, em casa, para que pudéssemos beber. Havíamos feito isso já, ela tinha colado aqui e bebido algumas cervejas comigo, ouvido musica, nada de muito impressionante mas ainda sim a coisa mais impressionante do mundo. Era extremamente agradável apenas estar ali, ouvindo algumas musicas, bebendo e comendo os menores amendoins do mundo.

De qualquer forma, eu havia a chamado pra vir aqui beber e ouvir musica de novo, mas ela já havia deixado claro que as chances disso acontecer era praticamente zero. Alem de ter que ficar com a amiga com algum tempo (possivelmente era um jantar ou coisa parecida. é bem provável.) havia vários outros pequenos problemas que não a permitiam isso. Eu me lembro de ter ficado triste, mas não exatamente triste. Digo, era óbvio que a companhia dela era algo muito bom, mas o simples fato de eu existir enquanto possibilidade já me deixava... a palavra me escapa, mas era como estar integrado a um universo maior do que eu, e aonde as coisas faziam um grande sentido. De qualquer forma, não estava triste.

Lembro de ter acabado de descobrir, naquela tarde enquanto nutria minúsculas esperanças de poder ver-la, a banda Comparative Anatomy. Essa é uma banda de musica estranha, bizarra, aonde misturam-se sons de animais com outras situações. Lembro de ter ficado umas quatro horas ouvindo a banda, sem parar.

Também havia baixado a alguns dias aquele filme do Jimi Stewart e do Capra, "It's a Wonderfull Life". Já que a Ju não viria, achei de bom tom finalizar a noite com o filme, que tinha umas três horas.

Esse filme me arrebatou completamente. Havia nele alguma coisa de verdadeira, embora seja a história mais melosa do mundo, mas a tentativa de suicídio do personagem, no momento mais importante do filme, dialogou com aquilo que eu havia sido antes daquele dia de forma muito forte.

Não mais que umas horas depois do filme acabar, enquanto eu estava completamente absorto com tudo aquilo, a Ju me manda uma mensagem perguntando se ainda era possível dela vir em casa. E fui encontra-la no metro, e bebemos cerveja e ouvimos musica.

Eu estava feliz. Perceba que não era uma felicidade pelas boas coisas que aconteceram, pela musica ou filme ou pela garota, mas sim pelo grande conjunto das coisas, pelo modo como tudo ali fazia sentido. Era uma tarde e noite aonde eu sabia muito bem que tudo isso que era bom e me deixava feliz haveria de acabar muito rápido -sempre acaba- mas essa noção de uma inescapável futura tristeza e falta de perspectiva era inexistente. Eu sabia que, pelo menos, teria a lembrança de algum momento tudo valer a pena.

Enfim, é uma ótima memória.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Não é tanto novidade...

[isto foi escrito a alguns dias atrás, em salesópolis, enquanto estava sozinho e perdido e tudo mais. nada muito diferente de todo um resto, mas ainda sim me sinto na obrigação de colocar pra não esquecer o quão baixo já fui. Obviamente pode acabar soando uma punhetação de uma mesma ideia repetida ad nauseam, mas enfim não acho que rejeitar uma madrugada deprimente só por ter tido setecentas madrugadas iguais seja algo correto. Isso e foda-se, ninguém realmente lê isso daqui]
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Estou no meu quarto escuro, novamente em salesópolis. Chove uma chuva estranha, trovoadas imensas alternando momentos de total tranquilidade e uma secura que passa da rua pra minha boca, e então no momento seguinte volta a cair o mundo aquático. Aqui dentro só tenho uma cama, sem lençol nem nada, apenas um travesseiro. O quarto está escuro, o chão esta sujo, não tenho comida e agua só da torneira. Não tem absolutamente nada.

Hoje tomei um remédio que, acho, vai me ajudar a dormir. É possivel que acabe me deixando doente, caso abuse de usa-lo – talvez algum problema no rim, imagino, tenho andado muito ruim do rim  nos ultimos seis meses– mas queria dormir hoje, eu preciso dormir profundamente hoje.

Ontem não consegui dormir. Fiquei toda a madrugada, das 11 até as 5 remoendo coisas na minha cabeça. Não quero entrar em detalhes de pequenas insanidades da madrugada já descritas tantas outras vezes mas novamente foram vozes, desesperança, anseios de suicídio e o remoer deitado, sem perspectiva de motivação para continuar passando essa vergonha.

Em Salesópolis agora sinto-me um estrangeiro. Nunca tive este tipo de sensação aqui, embora em SP seja quase sempre uma certeza. Tudo aqui que um dia eu conheci desapareceu, não conheço mais as pessoas na rua, as lojas, os motivos e vontades. Antes eu entendia as bases dessa cidade, entendia os motivos e movimentos de todo mundo. Hoje estou perdido, ou pelo menos me sinto um perdido aqui. Tanto isso que praticamente não sai de casa em nenhum desses cinco que estive aqui. Apenas trancado em casa, lendo, assistindo filmes, olhando para o teto e matando moscas de vez em quando. Sai no domingo, e não encontrei nada daquilo que achava antes. Até mesmo a velha pinga-com-mel-e-limão, que me era um porto seguro de prazer, desapareceu, o Toninho-do-Tó vendeu o bar para um homem que faz uma dose ridícula. Não comi nenhuma garota (na verdade nem achei garota que conhecesse ou alguns daqueles moleques novos, a nova mulecada que estou andando junto nesses novos tempos)

Enfim, este texto todo é pra deixar claro que os tempos estão mudando, e eu não sei para onde. Não tenho a menor ideia de nada, e não consigo ver que essa mudança traz consigo boas coisas, apenas as velhas merdas de sempre, de sempre e sempre horríveis.

na pior das hipóteses sei que a minha presença ainda estará aqui, e eu não a aguentarei. Tudo tão horrível como sempre, mas não vou reescrever coisas que já descrevi tanto em outros momentos.

O remédio começa a fazer efeito. Meus olhos estão doendo, tanto da luz desse leptop como pelo sono. Minha perna esta dormente, os dedos lerdos. Uma queimação na barriga sobe, culpa creio do remédio. Estou ficando com sono, a cabeça está pendendo pra baixo.  Melhor deitar agora, preciso acordar cedo amanhã.

Isto fica assim, estou perdido,  solitário, deslocado, cansado de tudo isso e com vontades impossíveis. Sinto-me mal (mas isso não é tanto novidade assim, não é?

sexta-feira, dezembro 07, 2012

A Melhor Falha

Isto não é meu, é do Heitor, e foi postado no velho blog morto do Antro, nos bons tempos. O personagem "C" sou eu, evidentemente, e acho que só coloco o conto aqui por ele ser provavelmente a maior homenagem a mim numa literatura, por me lembrar dos bons tempos, aonde era extremamente triste mas feliz, e porque isso consegue pinçar certeiramente um pouco daquilo que sou - ou fui -. Também posto porque ontem o Heitor veio falar comigo na internet e parece que ele conseguiu achar uma boa garota, que gosta dele e tudo mais. Conseguiu achar o seu "e agora vai", aquilo que estavamos procurando desde sempre e quase nunca achamos (não plenamente. droga! por que tudo que parece certo tem que dar sempre errado?). Enfim... fico muito feliz por isso, tanto por ele estar bem como por isso vislumbrar um raio de esperança pra mim..

Talvez faça um especial "coisas que o Heitor escreveu e que tem eu como um dos personagens e que me faz lembrar de uma época aonde eu era um idiota maior, sem a menor noção, não percebendo nada e perdendo tudo, mas tinha um pouco de esperança"

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A Melhor Falha

Estávamos olhando os cartazes presos às paredes quando C. exclamou:
- Uau! Olha só isso!
- O que C.?
- Nada! Será uma surpresa! – e rapidamente arrancou o cartaz antes que eu pudesse ver sobre o que se tratava.

Foi na festa da noite seguinte que descobri o que ele havia feito. Ele se aproximou de mim com um sorriso na cara:
- Quase na hora.
- Na hora de que C.?
- Você não viu o concurso de canto que vai começar daqui a pouco?
- Vi sim, e daí?
- Pois então! Eu vou participar, deseje-me sorte, está próximo da minha vez.

Durante meia hora jurei que era algum tipo de brincadeira que só fazia sentido para C., por isso não pude acreditar quando chamaram o nome dele para subir no palco montado. Ele estava se caminhando calmamente quando eu o parei:
- Espere aí.
- O que foi?
- Você não sabe cantar!
- Não... não sei.
- Então para que vai tentar isso? Não faz sentido nenhum!
- Eu quero é tentar mesmo, sabe? Só para falhar.

E então ele subiu no palco... e foi tudo absolutamente horrível. C. era desafinado e sem nenhum ritmo. Se Demorava demais em alguns versos e se alongava em outros. Tudo ficava fora do tempo. Ele também não havia decorado toda a letra; nos pedaços que não sabia apenas encaixava um “lá lá lá” sem espírito ou ficava em um “hummm hummm” como se só estivesse esperando aquele trecho acabar. As outras pessoas que estavam assistindo não sabiam exatamente o que pensar. Alguns acharam que era piada de alguém, de algum grupo quem sabe, e por isso não entendiam. Outros acharam que era mais uma manifestação de algum pós-moderno, mas de qualquer jeito uma manifestação que não era digna de nota. Houve também o grupo dos que acharam tudo uma idiotice, o dos que acharam que era um desrespeito aos verdadeiros cantores e o dos que acharam que era apenas a tentativa de um engraçadinho aparecer.


Nenhum deles acertou. Mas eu aplaudi. Aplaudi fervorosamente

quinta-feira, dezembro 06, 2012

São quase quatro horas da manhã. Eu devia ter dormido a pelo menos quatro horas atrás. Não estou conseguindo, há vozes demais na minha cabeça.

Normalmente eu fico conversando sozinho, é algo agradável e ajuda a passar o tempo. Grande parte das vezes essas vozes são meio o que iniciam os sonhos, quando dou por mim já há algum contexto estranho e um ambiente alem da simples conversa. Pimba, estou dormindo.

Hoje todas as respostas estão sendo mais cruéis. Eu sei que sou só eu, mas elas estão apontando cada um dos problemas que claramente tenho e torturam-me com eles. Mostram o quanto estou perdido, sozinho, desesperado, sem motivos nem esperanças. Elas estão sendo ruins, e qualquer coisa que tento conversar é respondido com agressividade. Elas tomam a forma de outras pessoas e ficam inventando coisas, motivos para certos atos - que eu sei que não é verdade, eu sei que é só vozes raivosas inventando mais motivos pra eu ficar ruim - as vozes cortam-me em pedaços cada vez mais pequenos, mais finos, fatia por fatia, sentindo prazer com cada momento em que dentro de mim alguma coisa que ainda estava viva e tinha esperança se despedaça.

Eu não sei, não consigo digitar de forma coerente. não consigo organizar as frases. Mas escrevendo eu não fico ouvindo nada, todo o foco se volta pra digitar e digitar e tentar entender o que esta acontecendo. Tem sido uma noite ruim, bem ruim. Imagens de violência auto-infligida aparecem volta e meia, e eu sei que é a mesma parte que esta me xingando. A imagem mais comum é um pedaço de madeira batendo contra minha cabeça. Acho que isso veio daquele vídeo que vi, da briga entre torcidas, São Paulo e Palmeiras, de 95. Um dos caras estava caído no chão e outro vem e lhe da uma paulada na cabeça. O cara se levanta alguns segundos depois e cambaleia desnorteado, o narrador afirmando que "este garoto já morreu". Eu acho que essa imagem vem dai. Tudo vem de mim.

Por que eu fico me torturando assim? Qual é o grande motivo em me fazer perder toda uma madrugada, sentir-se extremamente mal? eu não consigo entender, e sei que não sou o maior de todos os caras, há os erros e essas vozes tentariam me mostrar a "verdade" mas bom deus, qual a razão de ficar martelando isso uma madrugada inteira, horas a fio, e só me deixando mais e mais deprimido. Por que ficar não apenas totalmente contra, mas agir de forma com que eu entre numa espiral de de tristeza, uma coisa levando a outra e essa outra a mais uma, eticeteras. Por que?

E eu sei que algumas coisas que elas dizem é mentira. Eu sei. Sou um completo idiota, e possivelmente exatamente aquilo que elas estão falando, mas todo mundo não me odeia. nem todo mundo preferiria que eu desaparecesse. Eu sei que tem gente que se sente a vontade com a minha presença, que gosta de conversar comigo. Não adianta ficar falando o contrario, você é só uma voz que ressoa na minha cabeça de madrugada e eu já vi o mundo real, já conversei com as pessoas, já vi na cara delas algum tipo de prazer em só estar ali comigo. Não adianta ficar vomitando mais e mais coisas assim, isso me magoa agora, me machuca, mas só porque estou num quarto escuro, sozinho, sem ninguém nem nada concreto pra agarrar, e essa sua voz é alta sem ninguém. Mas ainda sim é tudo mentira.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Ando a um mês, mais ou menos, pensando em viajar. Agora já é praticamente certeza que o faça, talvez logo depois do ano novo. Faz um bom tempo que simplesmente não saio por ai, aleatoriamente, só pelo pequeno prazer de o fazer. Sinto que este seria um bom momento pra ficar acordado numa pedra, no meio da garoa, com um olho no papel que escrevo e outro na rua, tomando cuidado com a possível policia que venha a me bater.

Enfim, vou-me. Mas antes disso preciso me acertar. Há coisas que preciso conseguir para conseguir viajar sem grande problemas. Enfim, coisas que aprendi sozinho e que possivelmente não são as melhores, mas devem me manter vivo por alguns dias.

Agora, por que escrever aqui? Eu respondo que é porque eu consigo pensar melhor ou conversando ou escrevendo (que é uma forma de dialogo interno, ainda mais aqui) como não ando conversando com muitas pessoas - fiquei nesse ultimo sábado conversando com a Maiara lá, a magrinha loirinha lesbiquinha, mas não era o tipo de conversa que valha de algo, só pedaços de barulho enquanto eu estava bêbado e irritando-a. Não ando conversando muito.) Não ando conversando muito com pessoas e escrever ajudaria na hora de lembrar tudo que preciso. E depois, alguns dias antes posso vir aqui, ler este post e ver se falta algo. Sem mais delongas, às coisas que preciso conseguir:

1- Roupas

Eu tenho roupas. Me acostumei a viver com pouquíssimas, ainda mais quando comparado com qualquer outra pessoa que conheço, mas sei que quando estiver sozinho eu vou precisar estar minimamente munido de roupas boas. Antes de tudo, e uma das coisas principais de quando se vai viajar, eu preciso de um ténis que não esteja em descomposição e varias meias. Meu ténis atual não esta horrível, mas já tem vários buracos e a palmilha dele esta morta. Eu preciso arranjar um ténis novo, não um "NOVO" mas sim um que esteja usável. Se conseguir alguma coisa mais vistosa, as chances de ser roubado aumentam consideravelmente. E perder o ténis seria um desastre, já que grande parte da grana de reserva vai ficar escondida nos meus pés, dentro da meia.
Alem disso, é preciso tomar muito cuidado, porque nada é pior que um pé molhado. Com um eu perderia metade da minha capacidade de locomoção, e ninguém se sente bem com pessoas que dormem nas ruas por mais de três dias seguidos. Em suma, manter meus pés saudáveis é a coisa mais importante de toda a viagem. Estou pensando em 3 pares de meias, um ténis usado-porem-novo e talvez, talvez um chinelo.

Quando ao resto das roupas, nada muito complexo. Uma camisa, talvez duas. Uma única calça. Nas outras vezes eu usava uma daquelas cuecas normais, e depois de uns 3 dias andando e suando, acabava todo queimado, assado. Isso fodia muito, mas agora com as samba-canção que acostumei a usar, não creio que isso venha a ser um problema. Um último fator na questão "roupas" (embora não seja uma roupa) é que preciso de agulha e linha. Isso é outra coisa fundamental, pois não apenas posso costurar prováveis furos, como também utilizo-a para estourar as bolhas que vão nascer no meu pé. Com uma agulha e linha, meias e um sapato sem furos consigo manter meu ritmo de viagem relativamente alto.

2 - Comida

Quanto a comida, não tem muito mistério. Pra iniciar umas 5 latinhas de milho devem dar. Comendo uma por dia, em média, consigo ficar de boa até engatar no ritmo. Talvez um pacote de amendoim, pra dar uma forcinha. Quando fomos pra Florianópolis Peiotte e eu compramos uma carne seca, e embora pareça uma ótima ideia, a carne não estraga e dá umas proteínas boas, a salmoura quase nos destruiu. Estava um calor desgraçado, e comer carne só nos deixou com mais sede. E pra encontrar agua tínhamos que andar uns 3 quilómetros até a pracinha. Portanto pra começo de conversa apenas milho enlatado e amendoim. Um garfo pequeno, um abridor de latas e o meu canivete dão conta de qualquer problema que venha a ter com relação a comida. Ninguém nunca morreu de fome na rua, sabe como é....

3 - Equipamentos aleatórios

Eu preciso de um caderno e uma caneta nova. Pretendo passar grande parte do tempo escrevendo, procurando a minha mão. Com "mão" me refiro à epifania que sempre acontece no meio do nada, quando não vejo mais nenhuma resposta. Escrever sobre tudo que passo nos dias e sobre as coisas que me vierem na cabeça vai ajudar a ficar acordado, quando sentir-me ameaçado ou qualquer coisa parecida.
Também preciso de um livro. Ainda estou decidindo o que levar, a escolha mais óbvia seria o Big Sur, que eu malditamente ainda não li. Creio que estar no meio do nada, ouvindo só o barulho da chuva ajudaria a terminar esse livro. De qualquer forma, pretendo levar um livro.
Sobre mapas, isso ainda é um assunto a se pensar. Inicialmente eu pretendia não escolher um caminho certo, mas antes tínhamos aquele grande mapa de todo o sudeste/sul. Não tenho a menor ideia de aonde ele foi parar, e vou precisar imprimir uns mapas da internet na praia, o que me obriga a focar bem mais. É possível que eu vá para baixo mesmo, tentar chegar o mais próximo de Uruguay, atrás da velha indiazinha mítica mãe de três filhos que me espera lá, para casarmos e eu ter finalmente um sentido. Ou talvez vá pra minas, atrás dos resquícios de Marina Maciel, a obsessão-primordial. Mas ambas essas possibilidades são mais um olhar do passado do que do futuro para com a viagem, já não sinto nada pelo símbolo que Maciel foi nem acredito mesmo na indiazinha do Uruguay. Isso esta a se pensar, mas eu preciso focar pelo menos em alguma região pra poder ter mapas.
Vou levar o carregador de celular, não para manter contato toda hora, mas pretendo pelo menos avisar o Heitor que ainda estou vivo. Pelo menos me comunicar minimamente com as pessoas, caso precise de algum bom lugar pra dormir nalguma cidade que eu saiba que um dos meus amigos possui contatos.

Preciso também, e isso é MUITO IMPORTANTE, de umas duas boas toalhas. Ter toalhas é importantíssimo, elas podem ser muito úteis, e ter pelo menos uma pra forrar o fundo da mochila e outra pra poder enxugar qualquer coisa é fundamental

4 - Ando esquecendo coisas. é claro que sim. Se eu me lembrar de algo volto aqui (vou nos próximos dias manter um dialogo constante com esse post, imaginando se algo faltou. Dai venho e reescrevo-o) De qualquer forma, tenho ainda um mês pra acertar tudo isso.