Ela era uma garota de São Vicente. Começamos a conversar aleatoriamente, pelo velho Orkut. Aquele site era realmente bom pra começar amizades estranhas, assim foi com o a Ivna e assim com essa garota, cujo nome hoje em dia me escapa completamente. Ela era divertida, ligeiramente interessante, nada espantoso mas confortável. E eu estava a quase dois meses sem sair com ninguém. Provavelmente mais tempo.
Enfim, ela era de São Vicente e começamos a conversar. Num arroubo de bizarrice, resolvi num final de semana descer para lá. Desejava beber com essa garota. Não tinha nada aqui em sp, nem em salesópolis, e já estou acostumado a fazer este tipo de idiotice, ainda mais quando envolve viagens. Fui até uma estação (sei lá qual) comprei uma passagem e desci pra Santos e depois São Vicente.
Ela não era uma intelectual, nem nada parecido. Pode parecer elitismo de minha parte mas nos últimos dez anos mais de 80% das pessoas que conheci, seja garotas que conheci e fiquei, seja qualquer outro tipo de ser humano, tinha algum tipo de intelectualidade em si. Nem que seja algum tipo de curso superior fuleiro, praticamente todo mundo estava envolto nalgum tipo de atividade de cunho intelectual. Ela não era uma intelectual, trampava num salão de beleza fazendo unhas de mulheres e outras coisas. Não tinha nenhuma pretensão de ser uma estudiosa ou amplificar seus conhecimentos. Apenas vivia.
Enquanto o ónibus se aproximava de São Vicente, pude notar que o tema geral em Santos é o de celebração ao Pele. Tudo ali possui seu rosto, sua marca. Ele é o dono da cidade. E quando cheguei em São Vicente, senti um clima ao mesmo tempo similar ao de caraguá e totalmente diferente. São Vicente é uma cidade costeira, a cidade mais antiga do Brasil (fui descobrir depois, com a garota) mas há algo lá que não ressoa com o clima de cidade turística. Ali o lugrube é mais palpável, as pessoas caminham como caminham em sp, sempre em direção a algum lugar especifico, buscando vontades especificas. Era isso o que sentia enquanto caminhava por uma rua reta, sempre em frente, passando por uma ponte e seguindo em direção a mais ruas retas. Nenhum sinal de praia, ou de pessoas que fossem à praia. O próprio clima mostrava sinal de depressão, uma leve garoa batia, sem sol nem frio. É a cidade mais velha do Brasil, e não esconde em nenhum segundo o quão anciã esta.
Tinha um endereço nas mãos. Depois de perguntar para umas três pessoas (e seguir uma indicação falsa) achei e liguei para ela de um orelhão publico. A encontrei dez minutos depois.
Eu, desde o inicio, não esperava muito. Não esperava um grande amor nem mesmo uma bela noite de sexo. Apenas me encontrar com uma garota cuja conversa era agradável e beber alguma coisa. O fato de estar uns 300 km de casa era só um pequeno tempero nisso tudo. E então em encontrei com ela, disse "oi" e fomos pra um bar beber.
Devo dizer, foi uma péssima ideia. Não que ela fosse uma pessoa horrível, longe disso, mas é que se a bebida costuma me aproximar daquelas pessoas que sinto a vontade, se ela faz os similares ficarem mais próximos, também faz com que tudo que é estranho fique mais e mais longe. Bebi com a garota, e absolutamente nada apareceu disso. Talvez ela também estivesse sonhando, um sonho aonde eu era um heróico jovem destemido, estranho, disposto a tudo - a leva-la embora daquela cidade escondida num século esquecido, a sair do ex-namorado publicitário idiota, do trabalho de pintar com coloridos extremidades de senhoras mortas por dentro - e no final só encontrou a mim, o velho eu que tanto já tentei descobrir nesse blog e no resto da minha existência exatamente o que sou. Bebemos, bebemos mais um pouco, eu bebi pinga com cynar e maria-mole e, antes que pudesse perceber, ela deu uma desculpa para ter que ir embora. Não me lembro exatamente qual foi essa desculpa, e sinceramente não me importo.
Perguntei qual era o caminho para a rodoviária mais próxima e disse "até logo!". Ela se assustou ao perceber que pretendia ir a pé até lá, a rodoviária era em Santos, uns prováveis 30 km de onde estávamos. Mas eu, bêbado já e disposto a sumir da frente daquela garota que, sinceramente, não causava nada em mim, disse-lhe que estava acostumado a andar. Dei um novo "Até logo!!" enfático e sai andando por mais uma rua reta.
Andei por quase uma hora. Passei por alguns clubes de forró, pessoas felizes na porta, vários bares, carros que avançavam em velocidade pela avenida, essas coisas que só um final de semana em Santos tem. Ou assim foi o que me pareceu. Em um determinado momento fiquei com vontade de mijar, e como não queria ser pego pela possível policia, entrei numa rua para aliviar-me. Meu plano era dar a volta no quarteirão e retornar a avenida o mais rápido possível.
Um carro me viu entrando na avenida. Me viu saindo dela. E quando menos percebi um homem de meia idade parou do meu lado e perguntou pra onde ia. Disse pra rodoviária e ele me deu uma carona.
Este cara estava afim de me comer. Foi um bocado sincero e direto, coisa respeitável, acho que é algo comum quando se é um homem de meia idade disposto a dar e comer cus nos finais de semana em Santos. Reafirmei que era hetero e ele deu de ombro, me levando tristemente até a rodoviária. No final ainda tentou beber uma cerveja comigo, mas eu fugi rapidamente, não é provável mas seria possível que ele tentasse alguma coisa mais medonha comigo. Quando se esta viajando nunca é demais algum tipo de prevenção.
No final fiquei até as cinco da manhã esperando o ónibus na rodoviária fria de Santos. Guardas passavam de vinte em vinte minutos na minha frente, um até foi simpático o bastante para trocar meia dúzia de palavras. Pra passar o tempo inventei pequenas histórias sobre essas pessoas, dei-lhe nomes e famílias, vontades e necessidades, assim como também pra moça que limpou os banheiros lá pelas 3, pro rapaz de sorriso largo na lanchonete num canto, assistindo longamente o programa da madrugada do Serginho Groisman, naquele em especifico com o Jr. da Sandy e Jr., tocando bateria. Inventei um dialogo entre o casal de hippies que dormia num outro banco, do outro lado da rodoviária.
E quando menos percebi estava a caminho de São Paulo novamente. Uma ligeira viagem até os confins da cidade mais velha do continente e através do coração inexpressivo duma pobre garota que faz as unhas para sobreviver.
quarta-feira, outubro 24, 2012
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