certa vez, em salesópolis, eu estava bêbado em casa. não sei exatamente qual era o contexto dessa bebedeira nem o porque que comecei, mas estando naquilo que antigamente eu chamava de cozinha (e que agora é uma ante-sala para a grande cozinha branca que minha casa) naquele espaço onde havia um som, agora roubado, eu medi três passos largos e comecei a andar de um lado para o outro. 1, 2, 3 vira, 1, 2, 3 vira, 1, 2, 3, vira, 1, 2, 3 vira.
Veja, eu estava imitando o Pappilon, aquele prisioneiro frances que tentou por 30 anos escapar. Em um determinado momento de seu livro ele descreve as prisões solitárias em que ficou dez anos, sem luz do sol, trancado numa pequena cela de tres passos, sem nada pra fazer por dias. Ele ainda pretendia fugir, e uma cela tão pequena iria sem duvida enfraquece-lo, para não dizer enlouquece-lo. Portanto, pra se manter minimamente saudável, Pappilon andava em sua cela umas dez horas por dia, um dois três passos vira, um dois três passos vira, um dois três passos vira, um dois três passos vira.
Acho que naquela época eu estava relendo o livro. Meu pai me contou sobre este livro aos 5, 6 anos. Acredito que numa vez em que vimos o filme do Pappilon na tv. Ele me disse do sentimento de nojo que teve ao ler a cena dos homens escondendo canos ocos em seus rabos, canos onde guardavam dinheiro. E ele me prometeu que arranjaria o livro pra que eu lesse. Essa promessa demorou dez anos, no mínimo, pra ser cumprida. Só pra constar, a minha memória mais antiga desta vez que vimos o filme é uma cena onde o Pappilon está na solitária, tem que comer baratas pra sobreviver e, ao final da pena (que creio, numa primeira vez, foi mais curta, talvez alguns meses) no final da pena ele não consegue olhar para a luz.
Então lá estava eu, um bocado bêbado, sozinho em casa, andando de um lado para o outro, assim como Pappilon. Talvez apenas queria ver se conseguiria aguentar essa rotina desgastante por algum tempo (consegui por uma hora) talvez queria sentir o escoamento de consciencia que o Papi tem neste tempo, onde consegue rever seu passado com nitidez (mas ele estava na completa escuridão, eu não) ou talvez era apenas algum bêbado entediado que queria fazer algo estranho pelo prazer da estranheza.
Eu sou um prisioneiro de mim mesmo. Sempre o fui. Obrigado a viver na solitária que é a minha mente, a minha consciencia, obrigado a me aguentar, a resistir, a sobreviver, obrigado a se agarrar na mísera esperança de que amanhã será um dia diferente, que amanhã conseguirei fugir deste calabouço que é mim mesmo. Um prisioneiro, um estrangeiro, um homem absurdo.
Acho que sou muito Camuniano.
segunda-feira, janeiro 23, 2012
domingo, janeiro 22, 2012
Tudo fruto duma coincidência absurda
Era uma madrugada em Salesópolis. Eu estava, naturalmente, bêbado, já era uma época pós-usp. Meu pai já havia ido morar em caragua, mas minha mãe e minhas irmãs não, e em casa existia um computador novo. Eu estava de férias, a do meio do ano.
então estou voltando pra casa bebado, não sei qual era o grande contexto da bebedeira mas, naquela madrugada eu voltei pra casa e, ainda bêbado, entrei na internet, naquele computador novo.
Necessário contar que, naquela mesma férias, eu estava jogando Pokemon Yellow num gameboyzinho color e Final Fantasy Tatics num emulador no computador, e enquanto fazia isso ouvia Radiohead, PJ harvey, Nick Cave e Belle and Sebastian. Foi nesse mesmo momento, nessas semanas (que, se não me engano, foram uma das mais frias da minha vida de salesopolitano.) que eu fui conhecer Regina Spektor por intermédio do Heitor enquanto jogava Final Fantasy V no já citado emulador.
então estou voltando pra casa bêbado, em todo este contexto, e eis que, naquela época, Orkut ainda era uma grande coisa, útil pra se conhecer pessoas. E entro no Orkut, clico em uma comunidade, clico numa comunidade relacionada dessa e clico em outra relacionada dessa. Então, completamente bêbado que estava, clico na primeira pessoa-garota (bonita) que vejo nessa comunidade aleatória, entro no perfil dela e escrevo (naquela época era possível escrever para completo estranhos. era um bom tempo.) e então, totalmente bêbado, escrevo "É, a vida é uma merda mesmo, não é?"
Me parece obvio que, por estar bêbado, eu tinha voltado numa daquelas caminhadas solitárias que tantas vezes tive em Salesópolis, andando pelas ruas totalmente triste, angustiado e tonto.
Eu escrevo isso para essa completa estranha.
naquele mesmo momento essa estranha tinha acabado de chegar no seu pequeno apartamento na Paulista, totalmente bêbada e tão triste quanto eu. Acabado de entrar, se conectar e receber essa mensagem que refletia totalmente seu estado de espírito no momento.
Era a Ivy, a Ivna.
Se há algo que posso dizer dessa Ivy, é que ela é uma versão feminina e bem arrumada de mim. Bem arrumada, com classe, estilo e mais bom senso. Não totalmente bom senso, mas mais do que eu. No velho Orkut a sua descrição de par ideal era: "Uma mistura confusa de Arturo Bandini e Sal Paradise sujo".
então fiquei conversando com essa garota bêbada até ambos estarmos um bocado sobrios, o bastante para perceber o quanto nós dois combinávamos. totalmente. E é claro que nos adicionamos nos orkut's, msn's e tudo mais que havia pra se adicionar naqueles bons tempos.
no dia seguinte, novamente bêbados, voltamos cada um pra sua casa de madrugada, e continuamos a conversar. E assim foi em todos os dias subsequentes. Marcamos de nos encontrar nalgum momento em sp, já que moravamos bem proximos, um do outro. Era um encontro com o intúito de beber e celebrar o quão a tristeza e o alcool poderia unir duas pessoas tão similares, a tristeza, o alcool e a coincidência.
Uma vez em São Paulo no encontramos na Augusta, ela como havia dito era gorda e eu, como havia dito, era uma pessoa feia, sem estilo, sujo e caipira. Ela quis beber naquele boteco chique da primeira rua da Augusta, Ibotirama acho. Eu rejeitei totalmente, e descemos atrás daqueles botecos de "fachada pra vender cocaina".
Entramos num, pedimos vinho e doses de pinga, e ficamos bebendo no fundo, trocando ideias de uma forma que eu dificilmente fiz com outra garota (talvez Ju Vinuto, talvez Lilian nos bons tempos, a Ana se formos considerar "conversa sem tensão sexual") era incrível!
Bebemos, bebemos, bebemos, e então eu fui vomitar (pois tenho o estomago mais fragil deste continente) momentos depois foi ela, e quando vimos já era tarde. Acabamos pegando um taxi pro apartamento dela, na Paulista.
Fomos, bebemos vodka, e o resto foi bem divertido. Exceto pelos momentos onde brigamos (o motivo me escapa totalmente, porque estavamos extremamente bêbados) mas isso não demorou muito. Ficamos no sofa dela.
Reencontrei a Ivna a algumas semanas atrás, pouco menos de dois meses. Saimos pra beber e foi tão divertido quanto antes. Houve no passado algumas merdas entre nós (muito mais minha culpa - totalmente minha culpa alias - eu sou um completo idiota, mas isso fica muito óbvio ao se ler qualquer outra coisa aqui, mesmo que apenas eu leia isso) Houveram algumas merdas entre nós, coisa que a fez ficar um bocado magoada comigo, mas que até onde consigo ver faz parte do passado.
e agora eu fico feliz por ter novamente a Ivna (Ivy praqueles que estão na segunda metade da primeira década do novo milenio) por a ter novamente como amiga.
então estou voltando pra casa bebado, não sei qual era o grande contexto da bebedeira mas, naquela madrugada eu voltei pra casa e, ainda bêbado, entrei na internet, naquele computador novo.
Necessário contar que, naquela mesma férias, eu estava jogando Pokemon Yellow num gameboyzinho color e Final Fantasy Tatics num emulador no computador, e enquanto fazia isso ouvia Radiohead, PJ harvey, Nick Cave e Belle and Sebastian. Foi nesse mesmo momento, nessas semanas (que, se não me engano, foram uma das mais frias da minha vida de salesopolitano.) que eu fui conhecer Regina Spektor por intermédio do Heitor enquanto jogava Final Fantasy V no já citado emulador.
então estou voltando pra casa bêbado, em todo este contexto, e eis que, naquela época, Orkut ainda era uma grande coisa, útil pra se conhecer pessoas. E entro no Orkut, clico em uma comunidade, clico numa comunidade relacionada dessa e clico em outra relacionada dessa. Então, completamente bêbado que estava, clico na primeira pessoa-garota (bonita) que vejo nessa comunidade aleatória, entro no perfil dela e escrevo (naquela época era possível escrever para completo estranhos. era um bom tempo.) e então, totalmente bêbado, escrevo "É, a vida é uma merda mesmo, não é?"
Me parece obvio que, por estar bêbado, eu tinha voltado numa daquelas caminhadas solitárias que tantas vezes tive em Salesópolis, andando pelas ruas totalmente triste, angustiado e tonto.
Eu escrevo isso para essa completa estranha.
naquele mesmo momento essa estranha tinha acabado de chegar no seu pequeno apartamento na Paulista, totalmente bêbada e tão triste quanto eu. Acabado de entrar, se conectar e receber essa mensagem que refletia totalmente seu estado de espírito no momento.
Era a Ivy, a Ivna.
Se há algo que posso dizer dessa Ivy, é que ela é uma versão feminina e bem arrumada de mim. Bem arrumada, com classe, estilo e mais bom senso. Não totalmente bom senso, mas mais do que eu. No velho Orkut a sua descrição de par ideal era: "Uma mistura confusa de Arturo Bandini e Sal Paradise sujo".
então fiquei conversando com essa garota bêbada até ambos estarmos um bocado sobrios, o bastante para perceber o quanto nós dois combinávamos. totalmente. E é claro que nos adicionamos nos orkut's, msn's e tudo mais que havia pra se adicionar naqueles bons tempos.
no dia seguinte, novamente bêbados, voltamos cada um pra sua casa de madrugada, e continuamos a conversar. E assim foi em todos os dias subsequentes. Marcamos de nos encontrar nalgum momento em sp, já que moravamos bem proximos, um do outro. Era um encontro com o intúito de beber e celebrar o quão a tristeza e o alcool poderia unir duas pessoas tão similares, a tristeza, o alcool e a coincidência.
Uma vez em São Paulo no encontramos na Augusta, ela como havia dito era gorda e eu, como havia dito, era uma pessoa feia, sem estilo, sujo e caipira. Ela quis beber naquele boteco chique da primeira rua da Augusta, Ibotirama acho. Eu rejeitei totalmente, e descemos atrás daqueles botecos de "fachada pra vender cocaina".
Entramos num, pedimos vinho e doses de pinga, e ficamos bebendo no fundo, trocando ideias de uma forma que eu dificilmente fiz com outra garota (talvez Ju Vinuto, talvez Lilian nos bons tempos, a Ana se formos considerar "conversa sem tensão sexual") era incrível!
Bebemos, bebemos, bebemos, e então eu fui vomitar (pois tenho o estomago mais fragil deste continente) momentos depois foi ela, e quando vimos já era tarde. Acabamos pegando um taxi pro apartamento dela, na Paulista.
Fomos, bebemos vodka, e o resto foi bem divertido. Exceto pelos momentos onde brigamos (o motivo me escapa totalmente, porque estavamos extremamente bêbados) mas isso não demorou muito. Ficamos no sofa dela.
Reencontrei a Ivna a algumas semanas atrás, pouco menos de dois meses. Saimos pra beber e foi tão divertido quanto antes. Houve no passado algumas merdas entre nós (muito mais minha culpa - totalmente minha culpa alias - eu sou um completo idiota, mas isso fica muito óbvio ao se ler qualquer outra coisa aqui, mesmo que apenas eu leia isso) Houveram algumas merdas entre nós, coisa que a fez ficar um bocado magoada comigo, mas que até onde consigo ver faz parte do passado.
e agora eu fico feliz por ter novamente a Ivna (Ivy praqueles que estão na segunda metade da primeira década do novo milenio) por a ter novamente como amiga.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
For sure, ando envelhecendo muito mal. Não sei escrever. Não sei trabalhar. Não sei estudar, nem qualquer outra coisa que o valha. Todo tipo de capacidade que algumas pessoas conseguem pensar que possuo não é nada mais que fruto de mentiras muito bem contadas, em situações específicas, com aquela cara de quem sabe o que esta falando e do argumentozinho de autoridade. Portanto, estou envelhecendo mal.
Não que esteja realmente velho. Quero dizer, já não tenho mais aqueles 20 anos, mas ainda me comporto como se tivesse, quando me disponho em beber, o faço e ajo como alguem mais jovem ainda, mas ainda sim não estou me sentindo como num seriado friendiano, com todas as coisas idiotas que isso acarreta.
Em suma, como já é costume por aqui, devo dizer que estou péssimo, num caminho mais péssimo ainda, com possibilidades de piorar muito mais daqui um ano, e sem proposta (ou disposição) de me melhorar. É uma especie de "pequeno suicídio consciente e longuinquo". Alias, sonhei hoje com um suicídio: Estavamos eu, minha irmã mais nova Mariana e mais alguem no metrô de São Paulo, esperando-o. Não sei exatamente o que tinhamos ido fazer por lá, mas estavamos na plataforma esperando o metrô chegar enquanto decidiamos qual era o melhor caminho. Lembro-me que um metrô chegou, mas era um errado e Mariana e eu recuamos para perto daquelas placas com as linhas, pra descobrir qual caminho pegar. E então ouço gritos e pessoas falando "sai! sai!" enquanto um metrô passava rapidamente. Quando ele passou pude ver alguem ali, nos trilhos, totalmente decepado e destruido.
isso remete diretamente à vez que vi alguem morrer no metrô, desse mesmo jeito, mas eu não cheguei a ver o cadaver. Medo, acho, ou um certo respeito para com o cara que pulou, não queria me mostrar como um daqueles urubus, devorando sua imagem. Esse cara foi a primeira pessoa que eu vi morrer na minha frente, e eu nem sei se ele era homem ou mulher.
De qualquer forma, creio que esse cara/mina que se matou no metrô é bem mais macho do que eu, que só sobrevivo de forma parca e ridicula, dia após dia, sem me atrever a ser alguma coisa melhor que já fui. Um suicídio covarde, este meu. Ou talvez um que não deseja ser relevante para a sociedade como um todo.
Não. Não adianta colocar pequenas desculpas pro ato. Estou envelhecendo mal, triste e sem esperança. Isso não é algo bonito.
Não que esteja realmente velho. Quero dizer, já não tenho mais aqueles 20 anos, mas ainda me comporto como se tivesse, quando me disponho em beber, o faço e ajo como alguem mais jovem ainda, mas ainda sim não estou me sentindo como num seriado friendiano, com todas as coisas idiotas que isso acarreta.
Em suma, como já é costume por aqui, devo dizer que estou péssimo, num caminho mais péssimo ainda, com possibilidades de piorar muito mais daqui um ano, e sem proposta (ou disposição) de me melhorar. É uma especie de "pequeno suicídio consciente e longuinquo". Alias, sonhei hoje com um suicídio: Estavamos eu, minha irmã mais nova Mariana e mais alguem no metrô de São Paulo, esperando-o. Não sei exatamente o que tinhamos ido fazer por lá, mas estavamos na plataforma esperando o metrô chegar enquanto decidiamos qual era o melhor caminho. Lembro-me que um metrô chegou, mas era um errado e Mariana e eu recuamos para perto daquelas placas com as linhas, pra descobrir qual caminho pegar. E então ouço gritos e pessoas falando "sai! sai!" enquanto um metrô passava rapidamente. Quando ele passou pude ver alguem ali, nos trilhos, totalmente decepado e destruido.
isso remete diretamente à vez que vi alguem morrer no metrô, desse mesmo jeito, mas eu não cheguei a ver o cadaver. Medo, acho, ou um certo respeito para com o cara que pulou, não queria me mostrar como um daqueles urubus, devorando sua imagem. Esse cara foi a primeira pessoa que eu vi morrer na minha frente, e eu nem sei se ele era homem ou mulher.
De qualquer forma, creio que esse cara/mina que se matou no metrô é bem mais macho do que eu, que só sobrevivo de forma parca e ridicula, dia após dia, sem me atrever a ser alguma coisa melhor que já fui. Um suicídio covarde, este meu. Ou talvez um que não deseja ser relevante para a sociedade como um todo.
Não. Não adianta colocar pequenas desculpas pro ato. Estou envelhecendo mal, triste e sem esperança. Isso não é algo bonito.
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