terça-feira, janeiro 29, 2013

As palavras não valem absolutamente nada

Tenho caminhado ao redor de mim mesmo por algum tempo. Em círculos, procurando mais uma vez aquelas pequenas respostas que não consigo achar nem de dia nem de noite, no mundo fora e dentro de mim. E então, como num sobressalto, li coisas velhas. Uma pequena folha de caderno dobrada. Percebi que a única coisa que resta em mim, de tudo aquilo que vivi, são apenas palavras.

As palavras marcam definitivamente tudo em mim. Não há materialidade, apenas letras e sons dispersos num continum de tempo. As palavras não são realidade, elas não me tocam, não consigo passar as madrugadas sentindo o leve respirar delas junto a mim, não posso olhar as palavras, penetrar no fundo dos olhos e descobrir alguma epifania. Elas apenas foram algo em algum momento, e já não são nada, nem memorias nem realidades, apenas palavras jogadas nalgum lugar do passado.

Tudo aquilo que foi hoje é isso, apenas palavras. Algumas soaram mais sinceras que outras. Outras sempre foram mentirosas, não importa o lado que eu olhe, a voz que elas aparentam ter. Não importa se minha cabeça as repete todo o tempo, não importa se converso com elas, são apenas palavras, e não valem absolutamente nada.

Elas não valem nada pra quem esta caminhando ao redor de si mesmo por horas e horas, sem saber aonde chegar. Pra quem está desde sempre andarilhando num caminho e só consegue ouvir seus passos, pé após pé, procurando uma linha reta que não existe.

A alguns dias atrás eu acabei bebendo com uma garota. Ela é uma velha amiga de minha irmã, tem seus 30-e-mais-de-5-anos, um ex marido e filhos. Bebi, bebi porque já estava bêbado e porque ela me ofereceu mais goles do que eu poderia engolir. Estranhamente, até aquele momento eu tinha algum tipo de esperança para com ela, talvez sexo? talvez carinho? conseguir sentir sua respiração leve e sonolenta rabiscando meu corpo de madrugada? Ou qualquer coisa material? Esporrar maniacamente em sua boca? Eu não sei.  Mas em um determinado momento fiquei bêbado demais, e não soube de absolutamente nada do que essa mulher falava. Ela devia estar contando sobre como seu ex marido levou seus filhos pra algum lugar do centro-oeste, mas isso é só suposição. Ela falava falava falava e eu, completamente entorpecido, apenas fingia estar ouvindo. Já fingi tantas coisas que até bêbado não faço um papel ruim - ou talvez ela quisesse apenas falar, não importava se eu entendia - eu fingia ouvir as palavras que ela jogava. Na hora não entendi, mas caminhei em torno de mim mesmo, e percebo, pelo menos agora, nesse pequeno deslize de madrugada, que aquelas palavras surdas mudas quiseram dizer tanto quanto todas as outras palavras da minha vida, recortes de realidade não vivenciada, que desaparecem do mundo verdadeiro tão rápido quanto aparecem. Uma vez ditas, palavras nunca mais são reais. E a moça dizia as coisas que nunca mais irei me importar.


Tão irrelevante quanto a folha de papel dobrada, tão irrelevante quanto conversas registradas em mil noites. Palavras ditas só pelo dizer algo. Escritas, descritas, faladas, ouvidas, palavras detalhadas e rabiscadas, retalhadas desesperadamente nos botões imensos daquilo que foi. Nada disso é valido agora, nada disso importa, tudo é um passado desaparecido, um passado engasgado com a saliva alheia. As palavras são a coisa mais importante da minha vida, mas não são reais. Elas são a única coisa que sobrou de toda a minha vida, mas não valem absolutamente nada.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Sobre uma vez em que treinei futebol na praia, entre outros...

Ainda estou na praia. Devo ir embora amanhã, pra retornar sei lá quando. Não nessas ferias, acho. Isso me deixa triste por causa do meu sobrinho, mas me deixa feliz porque não aguento mais minha família.

eles não são ruins, apenas não são o tipo de pessoas que seja agradável conviver por muito tempo.

Estou sendo muito maldoso com eles. Vou tentar reescrever isso sendo mais detalhista e menos cínico.

Minha mãe e meu pai são ótimas pessoas, mas não sei por qual motivo, não conseguem manter um única conversa sem gritar ou brigar um com o outro. Sei lá se é por tesão ou pura convivência destruída, mas foi meio horrível de vivenciar nesses últimos tempos. Eu espero que, caso acabe vivendo com alguém, não fique desse jeito depois de alguns anos. A casa também, não sei por qual motivo, esta infestada de pernilongos e mosquitos. Só hoje eu matei 30, enquanto havia luz solar.

Não é um lugar que eu queira viver pra sempre, mas tem meu sobrinho e é bom passar um tempo aqui. Creio que o problema não seja eles, mas sim eu que não me adequo em lugar nenhum, com pessoas nenhumas.

Agora estou mais partindo pra depressividades, e se não for algo inédito prefiro não escrever (a menos que seja relevante)

De qualquer forma estou aqui, mais uma madrugada tentando dormir. Há calor, pernilongos voando ao meu redor no escuro e eu me sinto meio fraco. Estive hoje, de tarde pra frente, com um inicio de gripe, e temo que seja alguma coisa relacionada com dengue. Digo, não quero ser insano com doenças, mas não seria impossível haver mosquitos da dengue aqui. Meu pai já pegou aqui, e minha irmã também (eu acho, minha memória não é 100%)

Estou sem sono, com uma sensação de fraqueza e pensando no escuro. E resolvi escrever sobre uma vez que passei as ferias aqui, creio que foi na época da segunda série da escolinha, e minha grande piração naquela época era, entre outras coisas, o futebol.

- para maiores informações, há um post duplo em algum lugar daqui tratando do assunto -

Eu sempre fui muito muito ruim no futebol. Mas houve esta vez, nas ferias de fim de ano da segunda serie, em que eu passei grande parte do tempo brincando de andar, de um lado para o outro do corredor daqui de casa, dominando uma bola. Não lembro qual era o contexto, talvez eu estivesse imaginando jogos fictícios, aonde o outro time começava com 20 a zero e eu sozinho revirava este placar, se corresse até o final do corredor sem bater a bola na parede era gol.

(fiquei tonto agora. uma sensação estranha. talvez esteja mesmo doente. algo bizarro)

Lembro-me que uma das regras era essa, não podia bater com a bola, uma daquelas bolinhas de plástico toscas de controlar, na parede do corredor. E o corredor é bem pequeno, não mais de meio metro. Também era não valido ir devagar, por deus isso é um jogo oficial!! E estamos perdendo de 20 a zero!! Velocidade é necessário!!

Então eu passei por quase dois meses brincando de treinar no domínio da bola. E quando retornei à escolinha, no segundo ano, PIMBA! Me tornei um bom jogador de futebol. ... Por dois dias.

Não sei por que eu retornei a ficar ruim, o que me fez perder essa habilidade. Só me lembro que, enquanto eu estava jogando mó bem, alguém reclamou de que eu usava minha mãos demais, empurrando a pessoa. Não sei se isso era real, eu não percebia isso, mas só sei que logo depois eu voltei a ser o inapto que fui eternamente.

E essa é a minha história de futebol na praia. Nada muito emocionante, mas o que alguém que esta tonto, quase vomitando as linguiças que acabou de jantar e tendo pequeno calafrios pode fazer?

domingo, janeiro 13, 2013

Escrevendo sobre a época no Eti, e sobre as pessoas que me eram interessantes lá.

Preciso escrever para conseguir dormir. As noites variam entre aquelas que capoto bêbado, aquelas em que tenho sorte e durmo rápido e aquelas em que fico até seis horas da manhã revirando em torno de mim mesmo, pensando e ouvindo coisas, lembrando e me matando na imaginação. Uma das respostas pra isso é tentar escrever.

Eu tinha acabado de entrar no Eti, uma escola técnica em Mogi das cruzes. Fazia ali Mecatronica, que é mecânica e eletronica num só espaço. Estava perdido e escolhi esse curso em dois segundo. Escolhi fazer escola técnica porque me disseram que seria bom. Estava perdido.

O curso era em mogi das cruzes, eu quase nunca havia saído de Salesópolis, não em rotina diária, sozinho. E devo dizer que, mesmo a escola sendo tosca, as pessoas eram relativamente divertidas e um bocado mais abertas que em Salé. Era uma sala só de homens mas alguns deles não eram tão estúpidos, e alguns eram bem legais. Eu também saia da escolinha uma hora antes, fugia da ultima aula, e isto quando era química com demônio Massuko era um prazer (alem, é claro, de olhar os rostos desanimados dos que ficavam). Mas creio que os melhores momentos dessa época eram no ônibus. Eu ia e vinha de Mogi todo dia com três garotas e um cara, a velha amiga de RPG Ananda, a Daniela e a Elaine. Nosso ritmo de amizade foi estabelecido rápido, em pouco mais de duas semanas éramos velhos amigos, divertindo-nos pra caralho. Ah! também tinha o cara, o Claudinho, mas ele sempre me soou irrelevante, insosso e... por assim dizer, chato. Era um cara sem espírito de aventura nem senso de humor.

Mas as garotas eram outra história. Embora cada uma delas fosse diferente, eram legais e interessantes cada uma por si. A Ananda era mais nerd, mais parecida comigo. Estudei com ela desde a primeira serie, ela tinha oculos de grau imensos e amava (de uma forma quase doentia) animais. Era um bocado alta e inteligente, sagaz mas recatada, um bocado alheia a conceitos de sexualidade; ou pelo menos era assim que eu a via naquela época. Quando comecei a viajar com ela ainda namorava sua melhor amiga (eu acho) Amanda, e no decorrer do tempo acabei fodendo com essa Amanda e terminando com ela de uma forma completamente escrota, mas a Ananda nunca deixou evidente que achava que eu era um nojento por causa disso. Acho que no final ela sabia que eu levaria a minha nalgum momento, e ficou com dó por causa disso.

A Daniela tinha alguns toques de Ananda mas nem tanto. Ela era bem mais religiosa, quase carola, mas nunca sem perder o bom senso que quase sempre acomete a este tipo de garota. Era um ano mais velha que eu e namorava com um cara. E embora namorassem, eles nunca haviam trepado nem nada, e o namorado dela ficava puto com isso.
Como eu sei dessas coisas? Porque em um determinado momento começamos a matar aula e apenas rodar por mogi das cruzes. Eu já estava de saco cheio do curso, sabia que não terminaria, e ela estava afim de relaxar, aliviar os problemas e ter algum ouvido pra derramar tudo. Eu sempre tive um bom ouvido e assim descíamos do Onibus e já íamos pro Shooping, ver alguns quadros em umas exposições que rolavam não sei aonde, tomar sorvete, uma vez chegamos a dar voltas pelo cemitério, em plena 3 da tarde, apenas para consumir o prazer de ter a companhia um do outro. No inicio ela não falava muito, mas logo na segunda vez que saímos ela começou a declamar todos os seus problemas, o que não eram poucos, pra quem não tinha mais de vinte anos e nenhuma boa perspectiva de vida. Lembro-me de que o namorado dela era um escroto, tinha extrema vontade de come-la mas sabia que não ia rolar, portanto pedia permissão pra Daniela pra comer outra mina. Ela perguntou o que eu achava e eu disse, sem rodeios, que ele era um escroto (talvez não com essas palavras, meu vocabulário muda com o tempo) e que ambos deveriam terminar. Talvez eu estivesse com alguma esperança de que ela ficasse comigo, era uma garota um bocado gostosinha, mesmo sendo religiosa, e creio que estivesse afim de mim na época. Só pra deixar escrito, foi com ela que vi o filme do Homem Aranha 1 no cinema, e mesmo tendo que explicar cada pequeno contexto da história (queria ser o Homem Aranha aos 10 anos de idade, sei muito sobre ele) mesmo com isso, foi uma ótima companhia.

A Elaine era a pessoa que eu menos entendia e mais admirava nesse grupo. Ela era uma antiga namorada do Pedrão, um cara de Sale que namorou a Lilian e é um conhecido filho-da-puta com relacionamentos e minas, um filho-da-puta nivel 20. Ela era sarcástica, engraçada, um bocado porra louca mas sem envolvimento de álcool ou drogas. Tinha seu nível de conhecimento razoável e um mínimo de beleza, maior que Ananda menor que Daniela. Com ela eu tinha as maiores piadas, acho que era com quem eu me dava melhor naquele grupo no ônibus, com ela também matava algumas aulas para sair, conversar, mas sempre com um contexto sexual implícito no jogo. Não sei porque nunca tentei algo maior com ela, mas era meio evidente pra todo mundo isso. Isso até ela começar a dar pro Claudinho, sabe-se lá porque (talvez por eu ser um idiota que nunca percebe as coisas) ela terminou com ele uns dois meses depois, no máximo, e o menino ficou cada vez mais deprimido e isolado. E eu mais próximo dela, a ponto de tentar mudar meu curso para o dela, Nutrição. Eu estava pouco me fodendo pra o que iria me formar, apenas desejava estar próximo do maior numero de mulheres possível, e mesmo não conseguindo, foi uma boa aventura. Lembro-me de ter até feito planos com ela pra, num futuro, morarmos em SP, numa republica ou coisa parecida. Isso nunca aconteceu e foi esquecido dois anos depois, mas foi algo interessante na época.
A última vez que vi Elaine foi numa festa em Salesópolis, festa do Eucalipto, acho. Ela estava servindo coisas (aparentemente seguiu carreira nutricionistica) e eu estava totalmente chapado de acido, com um inteiro e pirando totalmente na cor das mesas de metal da festa. Ela se aproximou pra conversar comigo e, creio eu, dar em cima de mim. Se não me engano tinha acabado de terminar um relacionamento, mas eu chapado de acido sou praticamente inxavecável, quando a garota não está com um lsd no organismo também. De forma que nada aconteceu e eu voltei a olhar pra folhas caídas no chão da avenida em pouco mais de meia hora depois. Não tenho a menor ideia da impressão que ela ficou de mim, mas creio ter sido a pior possível.

Teve também uma outra mina, Kelly, que apareceu algum tempo depois, creio que um ano depois. Mas ela era velha, uns 40 anos, feia, chata, irritante, e uns seis meses depois eu comi a filha dela em sua casa, de forma que a mulher nunca gostou muito de mim. Irrelevante.

A Elaine deve ter virado nutricionista, pelo que sei. Daniela eu soube, por intermédio de sua irmã Diana que eu tive uma espécie de rolo por alguns segundos, que hoje é somente uma dona de casa e mãe daquele mesmo namorado que queria tanto chifra-la. Ananda hoje é doutoranda em Veterinária, completamente fodona e com um namorado/quase marido. Não mantenho contato com ela, exceto pelo que vejo no facebook.

E isto foi a minha época no ônibus do Eti. Uma ótima época, devo dizer...

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Não consigo dormir. É calor demais, insetos demais, um barulho demais atrás dos meus olhos. Estão zumbindo, eles - os insetos - e meus olhos ardem e ressoam. Eu fico cansado mas não com sono, e se coloco minha cabeça no chão para dormir começo a ouvir conversas ruins na minha cabeça. Tenho essas conversas por um bocado de tempo agora.

Na verdade não, só pelo últimos dez anos. Lembro-me de ter isso exatamente na mesma época que sai da escolinha, na época em que estava desesperado para achar algum sentido que valesse a pena. Pensava seriamente em virar-me pra violência externalizada, hipótese essa que ressurge toda vez que o desespero é um pouco mais resistente que o bom senso. Eu não estou ficando louco, só um pouco deprimido.

Naquela época, por mais desesperado que estava, ainda possuía algumas coisas para me segurar, sendo que juventude era a maior delas. Não estou velho, não tanto quanto sinto que estou, quanto sinto agora.

Não ter nada para me agarrar. Acho que este é o motivo maior de todos os meus problemas, de todas as minhas angústias. Todo mundo tem angústias, ninguém consegue ser feliz de verdade, e cada um por um motivo diferente. No meu caso sinto que é exatamente porque não consigo acreditar nas coisas, elas me parecem fúteis, e então acabo sem nenhum motivo para lutar, sem aquele sentimento que consigo ver nalgumas pessoas, de que as coisas valem a pena. Pra mim não há. Tudo desvanece no ar, é irrisório e só aparece por alguns instantes pra deixar todo o resto das madrugadas escuras, sozinhas e barulhentas mais insuportável.

Estou com dor de cabeça. Há calor demais e insetos voam por cima de mim, pousando por alguns instantes, picando-me. Estou com dor de cabeça e meus olhos ardem, estou suando e consigo ouvir um barulho lá no fundo, como se fosse uma torneira aberta o tempo todo, vazando agua sem parar. Não posso contar isso pra ninguém, não posso. Quando coloco minha cabeça no chão, tentando dormir, ouço vozes que me xingam e torturam com memorias que eu não deveria me lembrar, que machucam. As coisas acabam, as coisas acabam, elas acabam, e só resta o velho eu, sozinho no escuro, tentando fingir que alguma coisa ainda é divertida.

A imaginação me mantém vivo. Esta é uma péssima madrugada.