quarta-feira, setembro 26, 2012

Edipo Rei, uma personagem trágica

Eu devia ter uns dez anos, acho. Estava indo da quarta serie para a quinta, seria uma nova classe, possíveis novos amigos, novas possibilidades. Eu queria mesmo arranjar uma garota.

Lembro-me de sonhar, nessas mesmas férias, de que de alguma forma alguma garota que me entendesse iria aparecer magicamente nessa quinta série. Sim, estava em Salesópolis, não mais de 15.000 habitantes, não mais de 100 pessoas na minha faixa etária, umas 50 garotas. Eu era um estranho. Sempre fui um, lembro-me de causar certo asco, repudio ou (no mínimo) estranheza com minhas ações. As coisas pareciam normais pra mim, mas muito deslocadas do correto pra todo o resto feminino. Era impossível que houvesse, dentro dessas 50 possíveis garotas do interior, todas sem nenhuma referencia interessante, alguma que pudesse ficar do meu lado. Nenhuma delas tinha sequer ouvido Nirvana, e estávamos a não mais de um ano da morte do Cobain. Elas não liam nada e eu tentava ler Frankstein, Dracula, iniciava a imaginar ler Baudelaire. Elas eram mocinhas e eu era o Matt Murdock, o advogado cego sem medo. Eu queria controlar um helicoptero e escrever mil histórias sobre corridas de motos onde os ocupantes se socavam, montava um roteiro de filme sobre isso. Quebrava a cabeça horas e horas tentando achar a passagem secreta no lago de Ayla. Eu era um estranho, um estranho no ninho.
Mas, como sempre, sonhava.

Sonhava que essa garota iria conseguir sentar do meu lado em qualquer lugar, entender o porque dos giros aleatórios na cabeça (é bem divertido ter dez anos e perder toda a noção espacial por alguns segundos) entender qual a beleza em passar todo o recreio brincando de ser proibido alguém conseguir te ver (velhas táticas de Metal Gear - cinco anos antes do jogo - e esconderijos que nem eu me lembro mais) conseguir ver todo o mundo que esconde por detrás dos olhos, pulando e correndo e batendo e caindo e voltando, o mundo das velhos contos bizarros escritos na sala, com histórias onde a gravidade muda de posição. Que iria entender a beleza por detrás de Phantasy Star. Criava histórias sobre essa hipotetica garota interagindo com a galera do bairro, meus primos e os amiguinhos, como ela se integrava perfeitamente a aquele ambiente, amiga e companheira, uma pessoa legal e divertida, que iria entender os porques inocentes de tudo aquilo e, nalgum momento no futuro, iria lembrar comigo de tudo isso. Sonhava que essa garota ia conseguir preencher algum vazio que já existia lá naquela época, e antes disso, antes de muita coisa.

Era interessante que, mesmo eu tendo na minha época de escola, mesmo antes e depois, várias garotas que adorava ficar olhando apaixonadamente (ou tão quanto um garotinho consegue entender disso) a hipotética garota perfeita não possuía rosto. Nunca teve. No máximo ela era um momentâneo amalgama de outras, cabelo da Ana Rosa, Pernas da Carina, nariz da Catherine, olhos da Francine. mas quase sempre era só uma voz, uma voz e uma presença que estava ali e preenchia as lacunas.

Aos dez anos eu sonhava com esse tipo de garota. Ou pelo menos sonhava com o dia em que ela chegaria. Não chegou naquela época. Ainda sinto-me perdido, nalgumas madrugadas, tanto quanto aos dez anos, sem conseguir dormir, esperando o maldito momento em que posso respirar fundo e acreditar em algum futuro minimamente válido.



Édipo não se transformou numa figura trágica. Ele não se torna uma epítome da tragédia ao arrancar seus olhos, com tamanho sofrimento. Édipo rei é uma figura trágica porque nasceu com a sentença de assim o ser. Desde seus primeiro momentos de vida todas as situações, pensamentos e ações se voltaram unicamente pra tragicidade de sua vida. Mesmo ele tentando agir contra as intempéries do universo, os deuses percorriam num único passo todo o caminho que ele,a vida toda, correu loucamente para fugir. Édipo não se torna uma figura trágica. Édipo É Trágico, nasceu trágico, viveu trágico e morreu trágico, sem nunca conseguir retirar de sua alma essa macula.
Os gregos sabiam do que estavam falando, acho eu.

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