sábado, março 23, 2013

Sobre uma manhã fria, um rádio e as coisas que estavam em volta na época.



Era 2003, os últimos dias do ano. Eu estava em Salesópolis, começando a descobrir alguma coisa que seria, no futuro, eu. Começava a beber de verdade, sair todos os finais de semana para pequenas aventuras na cidade pequena, procurando qualquer cousa interessante pra fazer ou ver. Salesópolis é, ainda hoje, uma cidade muito centrada em si mesmo, sair dali é complicado, ônibus é caro, demorado e irritante, nunca tivemos amigos com carros, nem fazíamos questão. A base da diversão estava em nós, no pequeno grupo de amigos que se encontravam na rua, de noite, pra conversar, beber, discutir, vadiar. Era divertido.

Era 2003, mas não era de noite. Eram os últimos dias do ano, de manhãzinha. Estava, neste ano,  começando a ouvir musica, tinha passado neste ano da minha fase só Nirvana pra minha fase David Bowie no The Man Who Sold the World pra uma fase só DOORS pra outra fase Punk com os cds que o Nabuco havia me emprestado, Clash Pistols, e os discos do RAMONES que ouvia junto com o Bifo, o velho Bifo, e com o Carlão no Mamaquilla, o velho Carlão irmão da Cláudia... Lembro-me, algum tempo antes, de estar ouvindo Led e Uriah Heep com um pintor hippie que passou em casa. Estava começando a descobrir alguma coisa que seria eu no futuro.

Era 2003, de manhã nos últimos dias do ano. Eu costumava ouvir muito rádio, a KISS estava no seu auge como único lugar aonde se podia ouvir boa musica. Internet era algo estranho para mim, e era complicado conseguir discos novos, ou comprava em banquinhas de feira na quinta-feira de mês, ou copiava de amigos. Musica era complicada, e eu costumava ouvir a KISS para conseguir perceber coisas novas. Era os últimos dias do ano, e como sempre (acho que ainda é assim) a KISS fazia seu festival de 500 melhores musicas do ano. Era algo que durava uns dias, ininterruptamente, e eu aproveitava pra ouvir-la quase toda. Todos os meus amigos estavam, como eu, também descobrindo coisas novas.

A KISS sempre foi difícil de sintonizar em Salesópolis. A cidade é um buraco no meio de vários morros, e os sinais de radio não pegam exatamente bem. No meu quarto, no meu velho frio quarto que ainda hoje durmo solitariamente sempre que retorno bêbado de madrugada, o único local que a KISS pegava minimamente bem era no alto, em cima da prateleirazinha que esta no canto. No dia das 500 mais da KISS eu deixava um rádio em cima dessa prateleira, ligado a madrugada toda, tocando as 500 musicas.

Neste dia, quando eu ainda estava descobrindo quem eu era, o que eu era, o que eu seria. Lembro-me de acordar exatamente com o inicio da musica “Won’t get Fooled us again” do The Who. Era uma madrugada fria e, excetuando pelo teclado e a bateria da musica, nada mais respirava. Eu sorri naquela manhã, vendo quão bom era o futuro pra mim.

Esta é uma boa memória. Memórias boas ficam melhores a cada dia, mais brilhantes e confortáveis. Todo o resto dá errado, tudo mais decai, escurece, me faz perder a confiança no futuro que um dia tive brilhantemente.
As boas memórias, todas elas, são as coisas que me sobram, somente esses pequenos recortes de vida é a única coisa que sobra em toda a minha vida.

segunda-feira, março 04, 2013

Sobre Ondas e outras Ondas.

Escrever é, pra mim, um ato que vem como ondas. Há momentos em que vivo apenas por isso, toda a existência se faz necessária como intervalo dos momentos de escrita. Porem há momento aonde não consigo encostar em uma caneta, tocar nas teclas de qualquer computador com intenções literárias

(ou pseudo-literárias. ainda creio que não fiz nenhuma coisa relevante ou interessante) (porem, mesmo horríveis ou geniais, reconheço que minha visão nelas é sempre pessimista e não objetivamente relevante. Aprendi que mesmo sendo horrível, devo tentar criar)

As coisas ruins de não escrever já foram discutidas aqui um bocado de vezes. A angustia que as palavras me trazem, o quão baseei toda uma inútil vida nesta busca a aquilo que ressoa na minha cabeça desde os quatro anos de idade, como a voz esta sempre ali dentro e é o individuo que mais conversei em toda minha vida (o que não é muito. tive, tenho momentos de extrema solidão)

As coisas boas de se escrever, acho eu, nunca foram muito bem descritas aqui. E eu não pretendo fazer-a em um único post, seria um panaca se assim achasse que poderia depreender tudo aquilo que a criação literária, quando minimamente feita do modo com que as coisas soam aqui dentro da minha cabeça acontecem, faz pra minha alma. Porem sempre que escrevo algo que gosto, alguma coisa que sinto é aquilo que sou, que fui, que um dia talvez serei se não pular na frente de algum carro nalgum dia relativamente mais triste que os outros, quando escrevo sinto uma sensação ótima, um "formigamento na ponta dos dedos do pé" que é muito bom. Há a sensação, poucas vezes encontrada, de que algo é relevante e há motivos para tudo, não há tanta tristeza assim e talvez, um só talvez bem confortável, que tudo no final vai valer a pena, fazer sentido, tudo no final vai ser bom e bonito, não importa o quão eu veja noutros momentos que nada disso vai acontecer.


Enfim, finalizando meus amigos imaginários, escrever é um ato que vem em ondas. E eu estou queimado de sol, pois fiquei nadando com meu pequeno sobrinho de oito meses neste ultimo final de semana. Depois de algum tempo fiz finalmente as pazes com o mar.