domingo, abril 28, 2013

Casablanca



A primeira vez que fiquei sabendo da existência do filme “Casablanca” foi lá pelo final do ano de 2001 para 2002. Estava na praia, namorava a Amanda e estava, naquele final de ano, saindo com a pobre Renata. A Renatinha era irmã duma mina que o Kadu estava namorando, e falar “saindo” é só forma de expressão. Éramos meio inocentes, e apenas estávamos passando tempo juntos. Para mim não havia nada de errado, por mais que estivesse namorando outra mina. Na verdade, não trepamos nem nada de muito forte, mas passávamos o tempo juntos, conversando e se esfregando da forma mais correta possível. Foi dessa mina que nasceu a sensação de que uma das coisas mais sexys do mundo é uma garota que divide comida com você. Dividíamos a comida muitas vezes.


Mas, Casablanca. Estávamos no sala, junto com quase todo mundo, de noite. Renatinha dormia no quarto do fundo, eu no chão da sala, mas ficávamos ali por varias horas conversando e vendo televisão. Eu me lembro de que estava passando algum tipo de programa, ou Globo Repórter ou outro do tipo no SBT. Não sei qual era o tema desse, mas eles mostraram a cena completa do momento em que a Ilsa pede ao Sam que toque As Time Goes By mais uma vez, for old time sake. Lembro-me de ter visto a cena e ficar estarrecido. Não sabia qual era o contexto, qual era a história nem nada parecido sobre o filme, mas essa cena me bateu extremamente forte. Era dum romantismo e sinceridade extrema, a cor preto-e-branco brilhando no rosto da linda Ilsa, a música relembrando claramente de algum outro momento aonde tudo era melhor, mais claro e lírico, a voz do Sam quando pede pra não tocar, o sofrimento dele pelo sofrimento do melhor amigo, as imagens de um homem apaixonado (que eu não sabia quem era naquele momento) quebrando o coração completamente, virando um cínico que desacredita em tudo. Rick se aproximando e brigando com o Sam, sem perceber a Ilsa do lado, sobre como ele havia mandado que ele nunca mais tocasse essa música, que nunca mais tocasse na sombra daquela mulher que havia lhe dado tudo e depois retirado, deixando-o apenas um farrapo perdido jogado na chuva. A musica de fundo sobe, os três olhares se encontram, uma represa de memórias do passado se irrompem e Rick claramente sofre.

Eu vi tudo isso nos pouco mais de 60 segundos que a cena possui. Por sorte o programa passou-o totalmente em inglês, sem uma dublagem que possivelmente mataria a cena para mim. Eu consegui ver tudo isso sem nem mesmo saber o que era o filme. Lembro-me de ter chorado baixinho, escondido, meus olhos lacrimejando bem de leve, a Renatinha deitada comigo, os nosso pés encostando, dedos com dedos, levemente.

A Renatinha veio e passou. Amanda veio e passou. Todas as outras garotas vieram e então passaram. Algumas foram incríveis, outras horríveis, algumas eu fui o pior homem do mundo, noutras fui, sem nem querer, uma boa pessoa que doava tudo pelo pequeno instante de amor. Casablanca ficou. Fui ver o filme de verdade, inteiro, quase cinco anos depois, quando já estava em SP. Foi um soco em minha cara, o Rick o maior personagem que jamais vi, consigo ver muito dele em mim, do cinismo escondido ao romantismo desesperado por alguma coisa que seja verdadeiro. Bogard é o maior ator do mundo. Casablanca é a maior história do mundo, a maior e melhor história de todos os tempos da humanidade. Ela faz com que o maior evento da humanidade, a Segunda Guerra mundial, seja uma pequena nota de rodapé perto do amor dos dois. Todas as mortes valeram a pena apenas pela imagem do Rick abraçando a Ilsa, as bombas dos nazistas urrando no fundo, na Paris a ponto de ser invadida, ela já sabendo que não irá mais ficar com ele, sofre porque não queria se separar mas tem que fazer, e então Kiss Me. Kiss Me as if it were the last time.

Tento ver Casablanca pelo menos uma vez por mês. Me emociono toda vez, uma emoção diferente de todas as outras obras de arte que vi, li, ouvi em toda a minha vida. A maior coisa de todos os tempos. E toda vez que vejo me pergunto: “por quê?” “por que o Rick tem que sofrer tanto mais uma vez?” “Por que não dessa vez eles podem ficar felizes, juntos, pra sempre?” “Por que tudo dá sempre errado?”

Sim, Here’s Looking at you Kid, We’ll Always have Paris.

quarta-feira, abril 24, 2013

Sobre Devaneios, Star Trek, Zumbis, Shoppings e uma infância que eu nem me lembrava

Nos últimos tempos tenho assistido um bocado do seriado Star Trek. Reconheço que isso me faz, oficialmente, mais nerd do que deveria, mas algumas histórias são boas e o pano de fundo aonde tudo acontece me parece sempre muito confortável, utópico numa medida boa e, de uma certa forma, onírico. Um universo aonde o único motivo que valha a pena viver é o de "descobrir coisas novas" sem se importar com as merdas diárias é um universo que eu sinto que vale muito a pena viver.

Mas, lá no fundo, sempre senti (nesses últimos seis meses, mais ou menos) que havia algo mais que me forçava a gostar desse seriado. Alguma coisa que eu não sei exatamente o que é, mas que me deixa feliz e... aconchegado... acho. Pensando um pouco outro dia, enquanto olhava para a janela do ônibus de manhã e forçava-me (mais uma vez) a não ficar deprimido, percebi que era uma sensação que tinha algo dos meus devaneios de zumbi na longínqua 1996/97. Alguma coisa no universo sujo, gore e decadente dos zumbis remetia à agradabilidade asséptica da Jornada nas Estrelas.

Só agora, no meio de um episódio (que pausei para escrever aqui. Tenho esquecido muitas boas lembranças e não quero perder essa) percebi o que me ligava. Tudo remete à mais ou menos 1992, numa das férias que passei em sp.

Nas férias de final de ano, natal-ano-novo-verão-carnaval, apenas um único método era feito, quase sempre. Íamos todos, todos da grande família estendida, para a praia, aproveitarmos da companhia um dos outros. Era realmente divertido, e ficar com um trilhão de pessoas todos os anos, seguindo um certo ritual era incrível. Com o passar dos anos fiquei enjoado desse ambiente, e foi só neste ultimo ano que consegui voltar a ir pra praia, curtir aquele lugar (nas outras vezes ia só para ver meus pais) Porem nas ferias de meio de ano minhas viagens tomavam rumos completamente diferentes e interessantes. Todo ano era uma coisa diferente, um motivo diferente, alguma coisa se não inédita, pelo menos inesperada. Em um, íamos mesmo pra praia, noutro eu ia pra São Jose dos Campos, na casa dos mil tio que lá vivem até hoje, noutro ia pra Mogi das Cruzes, curtir minha madrinha, padrinho e meus primos - este no caso, sendo uma das melhores lembranças que possuo -  e em outros íamos pra São Paulo, exatamente aonde moro hoje dia, passar esse momento com minha avó e avô. E foi no meio do ano de 1992 que vem essa sensação de agradabilidade da Enterprise e Zumbis.

Sei que era 1992 porque lembro-me de irmos alugar filmes, e um deles era Robocop 2, que havia acabado de lançar. Há também o fato que um shopping extremamente chique havia acabado de inaugurar aqui perto, o West Plaza, e lembro-me de irmos todos pra lá, somente passear. Havia fliperamas, muitas cores, pessoas e, principalmente, elevadores e escadas rolantes. Era quase uma cidade fechada, com muitas possibilidades de esconderijo e camuflagem, uma coisa muitas possibilidades de coisas acontecerem, de situação se revelarem. Em suma, eu gostei desse shooping porque era o Bunker perfeito.

Nesse mesmo ano, num final de semana que passei na casa da minha madrinha em Mogi, assisti o Night of The Living Deads e Dawn of the Dead, ambos os originais (preto e branco e cores de sangue de cores incríveis, respectivamente) e uma das coisas que mais me pegaram nesse filme foi a possibilidade das pessoas criarem, seja numa casa grande ou no shopping, proteções e possibilidades de sobrevivencia. Isso me era incrível. Fiquei com esse devaneio inscrito na memória por muito tempo, e em 1996 quando Resident Evil saiu, eu já tinha planejado completamente o meu Bunker anti-zumbi (um plano que funciona até hoje) totalmente preparado.

E é exatamente isso que a Enterprise é, para mim. Um gigantesco Bunker no espaço, uma pequena cidade aonde há mil possibilidades de se esgueirar, sobreviver, talvez uma mais limpa e confortável que um shopping decadente, uma casa velha ou um sitio no topo do morro 30 km adentro da mata, com agua de bica, eletricidade por gerador, comida, fogo, armamento pesado e possibilidade de fuga de emergência para o mar (sim, meu Bunker possui isso até hoje. Quando o Apocalipse Zumbi acontecer, ligue-me que lhe arranjo um lugar. Não vamos ganhar a guerra, mas vamos sobreviver muito mais que 80% da população - mesmo os que acham que conhecem por assistir seriados e jogar jogos de zumbis)

Enfim, precisava apenas escrever isso. Sobre as minhas boas lembranças de quando possuía não mais que 7 anos e tinha alegria ao entrar num shopping. É uma boa lembrança e me faz querer, realmente, voltar a ver o Star Trek. Estou na TNG já e neste episódio o Data, a Troi e o O'Brien estão possuídos por alguma inteligência estranha.

(.... mas eu sou mesmo um idiota...)

segunda-feira, abril 22, 2013

sentei por quase duas horas pensando em alguma coisa pra escrever. tive um bocado de ideias nas ultimas madrugadas, boas lembranças nem tão boas que eu me esqueci enquanto tentava avançar pro próximo espaço do tabuleiro da noite, ou mesmo voltando arrastando alguma coisa pra casa. Outra ideia apareceu enquanto eu estava acidado assistindo um filme de terror total aonde o pai - um brincalhão com sotaque de, acho, irlandês - perde a cabeça por mil merdas e acaba assassinando toda a família, estrangulando a filha por quase cinco desagradáveis minutos. Outra numa outra madrugada enquanto era chutado por uma garota que havia descoberto sei lá como ou porque num puteiro, sua amiga rebolando junto com um cara e um casal trepando na frente. O segurança mandou o casal-amiga dar o maldito fora, que ali não era lugar de quem não trabalha se catar, e eu fui junto, porque não sabia nem o nome deles nem quem eram. A ideia era boa, eram boas ideias, boas lembranças e eu não me lembro de nenhuma.

Nem de uma, enquanto pegava um busão às cinco da manhã de guarulhos pra casa, morrendo de uma ressaca ainda alcoólica, jogado junto da janela, observando com algum olhar lírico cínico praquela cidade que eu não conheço nada. Lembro-me de ver um pedreiro, umas garotas, homens sujos saindo de um bar, mas não me lembro daquilo que havia planejado escrever aqui, um daqueles momentos lembracísticos que ficaram marcados nalguma sobrancelha do meu passado. Eu não lembro de nada.

Doze horas antes eu estava num boteco, sei lá como, na própria guarulhos. Fomos buscar pinga, o wilber e eu, pinga e cerveja nesse boteco que ele conhecia e eu não. Estava fechado mas abriram para ele, e entramos enquanto serviam-nos pinga ruim e garrafas de cerveja, faziam magicas e brincadeiras de Beakman que eu não entendia, por estar arremessado completamente na ignorância do álcool, a mesma ignorância que estava quando tentei conhecer as garotas que foram conosco pro puteiro. Eu simplesmente não lembro qual era a lembrança que devia lembrar. Não consigo saber o que era aquilo de tão importante, relevante, necessário pra estar aqui. Não lembro se era uma história, se era impressão, se era testamento para quando morrer e o Heitor, num ato de bondade que nunca saberei se existiu ou não, o postar, não lembro o que era que devia escrever enquanto estava louco de acido, morrendo de medo dos olhos do pai insano porque mentiu, porque não tem dinheiro, o pai desesperado dançando sozinho no meio de uma festa, pateticamente sofrendo e não podendo dizer, enlouquecendo por não conseguir se mostrar realmente para os outros, furioso porque mais um bilhete de loteria deu em nada numa madrugada fumante escondido. Não consigo me lembrar do que deveria escrever aqui, nesse momento, enquanto meu cérebro derretia e via a morte de perto, tão perto quanto nas outras vezes de drogas, mas mais perto agora porque sobrevivi a aquelas vezes e, naquele momento, talvez não conseguir não-morrer.

Não lembro qual era o que deveria escrever. não consigo me lembrar de nada daquilo, embora saiba que era importante, que todas as vezes era importante.
Só o que posso é me lembrar que deveria me lembrar de algo importante.

terça-feira, abril 02, 2013



Estou passando mal. Não exatamente doente, acho, mas sinto-me com uma imensa vontade de vomitar, dor de barriga e alguma coisa estranha que nem sei direito o que é. Talvez tenha tido intoxicação alimentar, se não uma virulenta pelo menos alguma que me incapacita. Estou passando mal, no sentido estrito da palavra. Sei lá por que.

Já fiquei doente um pequeno bocado de vezes. Não que tenha uma saúde frágil ou cousa similar, mas consigo me lembrar de pelo menos uma meia dúzia de vezes em que estive ruim. A mais longínqua que consigo pensar agora, neste instante desgostoso, é em algum momento dos meus 10 anos, 11. Eu fiquei doente, tive febre, e disso não tenho muitas recordações exceto das alucinações que ela me deu. Sonhei – se bem que isto não era sonho, mas sim delírio febril – com o ex-presidente Collor e pedras ralando num chão de concreto. As duas impressões, mesmo sendo tão dispares e sem sentido, faziam total similaridade naquele momento ruim, não por consciência, mas sim por sensação. Ambos eram uma única sensação, e ainda hoje eu consigo reconhecer o... gosto? Consigo reconhecer aquela sensação que senti quando tinha 10, 11 anos e estava delirando de febre no meu frio quarto, em Salesópolis.

Mais objetivamente, consigo me lembrar da doença que tive aos 17 anos. Eu passei extremamente mal num treino de Kung-Fu, chegando a desmaiar, e meus pais vieram me buscar para que eu fosse à Santa Casa. Uma vez chegando lá, vomitei minhas tripas na porta do carro e tomei uma injeção de benzetacil na bunda. Dores, dores dores dores dores dores, aquilo me faz até hoje ter calafrios quando vejo qualquer tipo de injeção. Devo ter ficado uns dois ou três dias ruim, sem nem conseguir sair de casa, e creio que tive febre novamente, sentindo o Collor/pedra ralado no chão de concreto.

Em 2009, acho, eu estava numa fase Júpiter Maça. Mais por culpa do Wilber do que gosto mesmo (não que seja um musico ruim, mas o Wilber sempre pirou mais) acabamos indo numa sequência de shows na Augusta, quase um mês seguido. Foi bem divertido, éramos uns estranhos lá, danças estranhas e comportamento estranho, e algumas garotas gostavam disso. Eu estava sozinho a décadas (iria sair um pouco com a Nickyyy num futuro próximo) e o Wilber estava se separando da esposa, de forma que estas noitadas faziam sentido. No ultimo show, lembro-me bem, eu iria diretamente dali para Salesópolis, meu primo Kadu iria se casar, e saímos do lugar umas cinco horas da manhã. Caminhei com o Wilber até o metrô – não o da Consolação, nem o Anhagabau, como seria sensato – mas o Sumaré. No final dessa caminhada eu já estava tossindo mais forte que o normal, era junho/julho/agosto e o frio imperava, e eu nunca tive o grande costume de usar blusas ou roupas grossas. E pelos próximos quatro meses eu teria uma tosse horrível, chegando até a travar minha traqueia com isso, perdendo a possibilidade de tragar oxigênio, quase desmaiando com o desespero e a falta de ar. Talvez tenha tido tuberculose, cuspia sangue e catarro demais, alem de que as tosses violentas aconteciam quase de meia em meia hora. Mas não fui no medico, minha atitude passivo-suicida já imperava (como agora) e eu simplesmente esperei melhorar ou morrer, o que viesse primeiro.

Mais recentemente tive pedras no rim, violentas dores que me forçavam arrancar minha alma pra fora do corpo, ou chorar jogado no chão frio (o que vier primeiro) mas sobre elas eu já discursei antes, de forma que falar novamente é um erro. Exceto deixar marcado que é certo que terei um novo surto no futuro. As dores do passado, as dores do futuro.

Enfim, estou mal. Escrever me ajudou um pouco, acho, mas ainda sim sinto-me mal, muito mal, não exatamente doente, mas sinto algo no fundo de mim mesmo que rejeita tudo. Talvez doença, talvez depressão, talvez falta de sentido. Mas tanto agora como ontem e antes de ontem, sinto que tudo ficaria muito melhor se eu morresse (passivo-suicidamente falando, é claro)