A primeira vez que fiquei sabendo da existência do filme “Casablanca” foi lá
pelo final do ano de 2001 para 2002. Estava na praia, namorava a Amanda e
estava, naquele final de ano, saindo com a pobre Renata. A Renatinha era irmã duma
mina que o Kadu estava namorando, e falar “saindo” é só forma de expressão. Éramos
meio inocentes, e apenas estávamos passando tempo juntos. Para mim não havia nada
de errado, por mais que estivesse namorando outra mina. Na verdade, não
trepamos nem nada de muito forte, mas passávamos o tempo juntos, conversando e
se esfregando da forma mais correta possível. Foi dessa mina que nasceu a sensação de que
uma das coisas mais sexys do mundo é uma garota que divide comida com você.
Dividíamos a comida muitas vezes.
Mas, Casablanca. Estávamos no sala, junto com quase todo mundo, de noite. Renatinha dormia no quarto do fundo, eu no chão da sala, mas ficávamos ali por varias horas conversando e vendo televisão. Eu me lembro de que estava passando algum tipo de programa, ou Globo Repórter ou outro do tipo no SBT. Não sei qual era o tema desse, mas eles mostraram a cena completa do momento em que a Ilsa pede ao Sam que toque As Time Goes By mais uma vez, for old time sake. Lembro-me de ter visto a cena e ficar estarrecido. Não sabia qual era o contexto, qual era a história nem nada parecido sobre o filme, mas essa cena me bateu extremamente forte. Era dum romantismo e sinceridade extrema, a cor preto-e-branco brilhando no rosto da linda Ilsa, a música relembrando claramente de algum outro momento aonde tudo era melhor, mais claro e lírico, a voz do Sam quando pede pra não tocar, o sofrimento dele pelo sofrimento do melhor amigo, as imagens de um homem apaixonado (que eu não sabia quem era naquele momento) quebrando o coração completamente, virando um cínico que desacredita em tudo. Rick se aproximando e brigando com o Sam, sem perceber a Ilsa do lado, sobre como ele havia mandado que ele nunca mais tocasse essa música, que nunca mais tocasse na sombra daquela mulher que havia lhe dado tudo e depois retirado, deixando-o apenas um farrapo perdido jogado na chuva. A musica de fundo sobe, os três olhares se encontram, uma represa de memórias do passado se irrompem e Rick claramente sofre.
Eu vi tudo isso nos pouco mais de 60 segundos que a cena possui. Por sorte o programa passou-o totalmente em inglês, sem uma dublagem que possivelmente mataria a cena para mim. Eu consegui ver tudo isso sem nem mesmo saber o que era o filme. Lembro-me de ter chorado baixinho, escondido, meus olhos lacrimejando bem de leve, a Renatinha deitada comigo, os nosso pés encostando, dedos com dedos, levemente.
A Renatinha veio e passou.
Amanda veio e passou. Todas as outras garotas vieram e então passaram. Algumas
foram incríveis, outras horríveis, algumas eu fui o pior homem do mundo,
noutras fui, sem nem querer, uma boa pessoa que doava tudo pelo pequeno instante de amor.
Casablanca ficou. Fui ver o filme de verdade, inteiro, quase cinco anos depois,
quando já estava em SP. Foi um soco em minha cara, o Rick o maior personagem
que jamais vi, consigo ver muito dele em mim, do cinismo escondido ao
romantismo desesperado por alguma coisa que seja verdadeiro. Bogard é o maior
ator do mundo. Casablanca é a maior história do mundo, a maior e melhor
história de todos os tempos da humanidade. Ela faz com que o maior evento da
humanidade, a Segunda Guerra mundial, seja uma pequena nota de rodapé perto do amor dos dois. Todas
as mortes valeram a pena apenas pela imagem do Rick abraçando a Ilsa, as bombas
dos nazistas urrando no fundo, na Paris a ponto de ser invadida, ela já sabendo que não irá mais ficar
com ele, sofre porque não queria se separar mas tem que fazer, e então Kiss Me. Kiss Me as if it
were the last time.
Tento ver Casablanca pelo menos
uma vez por mês. Me emociono toda vez, uma emoção diferente de todas as outras
obras de arte que vi, li, ouvi em toda a minha vida. A maior coisa de todos os
tempos. E toda vez que vejo me pergunto: “por quê?” “por que o Rick tem que
sofrer tanto mais uma vez?” “Por que não dessa vez eles podem ficar felizes,
juntos, pra sempre?” “Por que tudo dá sempre errado?”
Sim, Here’s Looking at you Kid, We’ll Always have Paris.
Sim, Here’s Looking at you Kid, We’ll Always have Paris.
