sábado, dezembro 28, 2013

Jardel morreu

Não consegui escrever nos últimos meses. Mais um daqueles bloqueios estranhos que tive. Não que não tivesse nada de interessante pra vomitar aqui - ou mesmo relevante. digno. válido. - É simplesmente o fato de que, quando sentava e me dispunha a escrever, somente branco e eter me passavam. Mas creio que preciso, de alguma forma, escrever sobre o pobre Jardel.

O Jardel foi o meu melhor amigo da quinta até a sétima serie. Ele, junto com o velho Sandrão formava uma certa trindade de camaradagem/malandragem que, de alguma forma, afirmou definitivamente algumas das características - boas ou ruins, ou péssimas, ou babacas - da minha pessoa.

Jardel morreu faz alguns meses, acidente de moto. Não quis saber os detalhes. Ainda não bebi em luto a ele.

O Jardel era uma pessoa malandra. Um cara creio que um ou dois anos mais velho do que a suposta idade normal da minha sala. Digo suposta porque na minha sala - 5B em diante - estava só a escória. Grande parte já possuia uns 16, 17 anos. Uns, da roça, já passavam dos 23. Rubinho, lembro-me, na oitava série chegava quase aos 30. Mas o Jardel era só um pouco mais velho, e era malandro a ponto de roubar lojas de materias escolares em Mogi para guardar na minha bolsa de canetas.

Estou me perdendo. Sinto que há tanta coisa pra falar sobre ele que não consigo ser claro.

Foi o Jardel quem comprou minha primeira pornografia, uma revista Playboy da Tiazinha. Foi ele também quem me ensinou a não ter vergonha de pedir isso, e na segunda eu comprei de boa.

Nós três, Jardel, Sandro e eu costumávamos, creio que na sexta serie, buscar garrafas de refrigerante por toda a escola, a mulher da cantina nos dava balas de graça por elas. Lembro-me também de dividir sempre meu lanche com eles, Jardel não gostava de comer no refeitório, aquela comida meia-boca (que eu desisti logo na primeira série).

O Jardel era um bom amigo. Ainda agora sempre falava pra todo mundo que só passou na escolinha por minha culpa, pelas colas - milhares delas - que eu lhe passava. Eu era o estudioso, que sabia escrever bem. Sentávamos nós três e o Sandro, que era o melhor em Matemática, nos passava cola. Jardel não era bom em nada, mas era malaco e isso me servia bem.

Este texto está horrível, em nada vale a memória do Jardel. Há milhares de histórias, sobre como a Ana Rosa o amava e ele a destruía, como ele protegia a mim quando alguns outros babacas também mortos vinham me irritar por ser um estranho. Muitas histórias, que agora tem uma parte da memória delas morta;

Pobre Jardel. Me encontrei com ele ao vivo pela última vez neste carnaval. Ele estava meio inchado, creio que pela bebida e vida escrota, mas conversamos bebados por uma hora, mais ou menos. Ele me disse que estava querendo fazer psicologia e pedia que eu lhe ajudasse a entrar na faculdade. Eu, obviamente, disse que sim, mas sinceramente queria parar logo de conversar com ele e colar com a Mayarinha e sua amiga-que-estava-comendo Cabeluda pra ver se rolava alguma coisa sexual. E então deixei o Jardel no meio da rua, ali, prometendo que voltaria pra falar com ele. Não voltei, e depois soube pelo Wilber que ele foi expulso do sitio dos caras por aparentemente roubar uma grana. Fiquei sabendo pelo Wilber que o Jardel havia viciado em crack - coisa que eu não duvido - e mesmo o Jardel falando que não havia roubado a grana, caiu fora. Pobre Jardel.

Conversamos mais algumas vezes pelo Facebook. Ignorei-o uma vez mas falei com ele por umas duas horas em outras vezes. Não me sinto bem em pensar nisso, mas foi verdade.

De qualquer forma, Jardel morreu. Preciso beber ainda em homenagem a ele. Jardel morreu possivelmente explodindo a cabeça nalgum poste em alta velocidade. E daqui dez anos possivelmente ninguém vai se lembrar dele e de suas aventuras.

Pobre Jardel.