segunda-feira, agosto 15, 2011

Musicas

Musica nunca foi uma grande coisa pra mim. Digo, nunca foi na primeira grande parte da minha vida. Meu estilo, nos aureos primeiros anos, não era definido por aquilo que ouvia, nem pelo que meus amigos curtiam de som. Eu era muito mais um rapazote do videogame, das coisas estranhas, dos comentários fora do hora do que um "punk" ou "glam". Em Salésópolis nem se sabia o que era glam.

Meu primeiro contato foi bem jovem, sete anos, com metal. Viper. Ouvindo nas férias em sp com meus primos Caio e Kadu. Conheci com eles Iron Maiden e deles ganhei meu primeiro cd, o a muito perdido Angels Cry do Angra. Mas nunca isso foi relevante para mim. E eu vivi boa parte da minha pequena vida gostando, ao mesmo tempo, de coisas esparsas do Tim Maia e dos Mamonas Assassinas, de Elis Regina e Vicente Celestino, daquilo que conseguia perceber como Guns n Roses e daquilo que eu podia perceber que não era Guns.

Chegou ao momento de, no primeiro colegial, acho, perceber com vergonha que minha irmã Marina (na época pirando na estética Skate) sabia mais de musica que eu.

Então eu comecei a sair com o pessoal do Kung Fu. Thomas, Daniel Preto, Marcão. E tambem de sair com aquilo que ainda hoje são meus grandes amigos, Bifo e Magrão. Dos primeiros eu comecei a pegar a influencia de Legião Urbana, o Renato havia morrido a poucos anos atrás, logo era ainda algo fresco. Do Bifo acabei pegando uma influencia de Nirvana. E com isso comecei a correr atrás desses discos.

Notem que isso foi no começo da primeira decada, 2001 no máximo, e conseguir musicas naquela época era algo bem difícil, ainda mais numa cidadela pequenina como Salesópolis. Só conseguia alguma coisa depois de esperar um mês inteiro, na quinta-feira-de-mês, e tendo muita sorte e ver um disco que queria nalguma banquinha. E eu perseguia discos do Nirvana e do Legião com afinco.
Tambem era possível copiar discos em cd's RW, graváveis, isso com algum amigo que tivesse um disco original e com outro que tivesse um computador que gravasse discos. E isso era bem dificil.

A minha piração com Legião Urbana aumentou exponencialmente quando comecei a conviver muito com a Lilian. Ela era (é, acho) uma fanatica por Legião Urbana, havia pegado essa piração da irmã mais velha, que tinha um LP do Descobrimento do Brasil. Tambem há a influencia da, na época, a melhor amiga da Lilian, Nataluci. Nós pegávamos o mesmo onibus e iamos ouvindo musicas juntos, quase sempre do Legião. Ela gostava muito daquela musica, "o mundo anda tão complicado", era algo meio romantico o que faziamos, devo dizer, mesmo que ela namorasse meu vizinho e eu totalmente chapado na Lilian. E então eu passava horas e horas ouvindo Legião, Nirvana e Doors.

E então se abriu o Mamaquilla, e eu comecei mesmo a sair com o Bifo e com o Wilber. E nosso gosto musical começou a expandir. Daquilo que era só Nirvana, Legião e Doors, eu iniciei a flertar com o Punk. Lembro-me ainda hoje de estar andando com o Bifo até a casa dele, no Fartura, e de ter o disco dos Sex Pistols nas mãos, disco esse emprestado pelo grande Nabuco, que até hoje costumo beber e perder alguns minutos pra conversar, quase sempre na frente da porta da padaria, ambos já meio bebados. O gosto do Punk começou, acredito, quando estava ouvindo a velha Radio Kiss e tocar "Anarchy in U.K.", aquilo me incendiou completamente, era tão forte e tão, tão legal! Eu gravei o disco, peguei emprestado uma grande coletanea do RAMONES com o Bifo e ouvia alguma coisa do Iggy Pop com um disco não sei de quem. E então, nos meses que antecederam a minha ida pra São Paulo, pra Usp, eu passei ouvindo Punks, Legião, Doors e Nirvana. E ouvia essas musicas em casa, normalmente logo depois do almoço, quando costumava lavar louça. Era uma ótima época.

Então fui pra Sp. E é evidente que um grande universo se abriu para mim. Os primeiros dois anos foram muito fortes em questão musical, seja pelo fato de eu estar na maior cidade do país, na maior faculdade do país, seja pelo fato de que, pela primeira vez na minha vida, eu tinha internet de verdade, podendo baixar musicas que quisesse, na hora que quisesse. E então eu, com grandes ajudas, descobri Tom Waits e o ótimo Alice, a fitinha que a Fô fez para mim do "Frank Wild Years", descobri Belle And Sebastian quando emprestei um disco do Suzuki, acho. Conheci Pj Harvey quando o Heitor me passou todos os dela. E tambem quando ele me deu uma gravação do ótimo Your Funeral My Trial do maravilhoso Nick Cave. Essa musica deste disco ainda hoje me traz uma melancolia, uma saudade deste tempo, e tambem de quando eu subi a serra, voltando da praia, ouvindo minha fitinha K7. São coisas que eu já perdi.

Tambem nesses dois pequenos anos devo notar que aprendi a ouvir Dresden Dolls, conheci a maravilhosa Regina Spektor (que já pedi em casamento pela internet e cujo primeiro disco me faz lembrar muito da Ivna e de ver manhãs aparecerem em Salesópolis) , conheci Radiohead, conheci Patife Band (que é do padrasto, acho, da fô, Paulinho Barnabé), conheci Devo numa das festas da Ana, já completamente bebado, conheci Neubaten, conheci Joelho de Porco (o melhor show que fui na minha vida, de apenas uns 20 minutos) Johnny Cash antes de virar filme, Leonard Cohen quando o Heitor me fez notar que as frases do Stranger Song remetiam muito a mim (i'ts hard to hold the hand of anyone who reaching the sky just to surrender) Conheci Bauhaus, conheci Joy Division, Dylan de verdade, Elvis Costelo, Elton John, Jacques Brel, Kraftwerk, Jeff Buckley com o Peiottinho, Morphine, Nara Leão com o Suricate, R.E.M. com ajuda do Andy Kauffman, Raul Seixas de verdade quando fomos na passeata dele pela primeira vez (foi divertido) U.D.R e Rogerio Skylab quase na mesma hora, enquanto jogava Diablo 2 online com o pessoal da faculdade, Patty Smith quando vi aquela foto dela, toda androgina. Jupiter Maça no mês em que Wilber e eu fomos quase todos os dias pros shows dele na augusta, Wilber tentando asolteirar-se e eu com uma crise interminavel de tosse, que acredito hoje ter sido inicio de tuberculose.

E então, não sei bem quando mas quando estava muito triste, eu descobri por intermédio da ex namorada do Matheus, Flora, Elliott Smith. E fiquei nos proximos três anos ouvindo-o sem parar. Mesmo. Segundo o Lastfm foram mais de 9000 vezes que eu o ouvi. E tudo nele fazia sentido em mim, a melancolia, a calmaria low fi, a grande falta de sentido. Eu cheguei, num certo momento, a matar duas semanas de aula seguidas e não sair de casa, completamente absorvido na decadencia da alienação. Foi algo estranho mas agradavel.

E então eu descobri Beach Boys - Pet Sounds. Sempre o Eduardinho ia com aquela camiseta e eu já havia visto algumas vezes este disco como o segundo/primeiro de todos os tempos. E quando o ouvi de verdade foi como se toda essa tristeza desaparecesse. Eu estava muito influenciado por Haruki Murakami na época, lendo Caçando Carneiros em madrugadas, e então aquele Pet Sounds me trazia lembranças de coisas que nunca vivi, de época que não conheço. E toda a angustia do Elliott se acalmava, eu conseguia sair de casa.

Mais para a contemporaneidade deste treco, conheci Momus. Uma unica música, Paper Wraps Rock, me fez pirar nele, o que me levou a baixar tudo que conseguia achar. Sua pegada mais... catchy me fez muito bem, conseguindo ver as coisas com mais clareza que antes, no Elliott.

É evidente que nada aqui mostra exatamente como as coisas foram. Deixei de lado Bowie, que desde a época do Nirvana era uma influencia gigantesca, com The Man Who Sold the World. Na verdade Bowie é Bowie desde o começo dos anos 90, 1992 eu acho, quando estava a assistir RaTimBum na TV Cultura e passa um comercial de um programa de musica, comentando sobre "Bowie, o camaleão do Rock se reinventa mais uma vez". Nada é muito certo, mas hoje em dia ouço Modern Love mais que tudo. E todo o resto tambem. E muito mais coisas que antes. E hoje em dia musica é algo relevante para mim.