É sempre muito difícil dormir. Anda acontecendo muito do desespero silencioso, quando tá tudo escuro e você continua falando sozinho. Tenho estado sozinho um bocado de tempo, e me assusta muito quando as vozes ficam altas demais.
De noite é sempre pior.
Há sempre um certo flerte com o suicídio. Sim, eu sei, Camus organizou toda uma argumentação incrível sobre como não deveria querer morrer, como só vivo que todo o absurdo funciona, e blá blá blá. Não estou aqui analisando sobre uma ótica intelectual toda a coisa. Estou apenas conversando com as malditas vozes altas na minha cabeça. E grande parte das vezes há um desespero, uma necessidade de morrer logo.
Digo, vamos supor que a morte é o final de tudo. Que é realmente o desligar de uma tomada e - piz - acabou. Você não mais existe. Caso seja assim, seria a melhor coisa do mundo. Não há nada mais difícil que continuar, que andarilhar perdido por madrugadas chuvosas, seu tênis molhado, a camisa grudada, frio, passo após passo sozinho, olhando pro chão sem coragem pra nada, grande parte das vezes sem nem sabendo exatamente onde você está, pra onde vai, pra onde deveria ir. E difícil saber que sempre será assim. É muito difícil e em muitos momentos o simples "não existir mais" é confortável, em frente a toda uma existencia-zinha mediocre, banal e sem sentido. Sem propósito. Sem esperança.
Entende? é claro que sim. Seu dente quer cair, a boca esta sangrando. Você acorda de madrugada desesperado pra escrever alguma coisa. A voz fica falando e você inventa conversas só pra não ficar parecendo maluco. Porque tudo isso não é confortável. E inventa um punhado de coisas. inventa mentiras pra si mesmo só porque as coisas não vão bem. nunca foram. E cada dia é pior que o outro.
E há o desejo de morte sempre.
é engraçado, acho. Porque não é um ódio contra meu corpo. Como já dizia o Heitor, sou medroso demais pra realmente explodir minha cabeça com uma bala (embora toda vez que um metrô chega eu sinto uma ímpeto de me jogar. Já vi uma pessoa morrendo assim. é horrível pra quem esta do lado de fora de mim, mas seria confortável, acho, por ser certeza) mas eu não creio ter coragem. Por isso bebo.
Veja, é preciso acabar comigo mesmo, certo? sim, certo. mas eu não tenho coragem de fazer algo realmente drástico. Não é como se fosse alguma punição para alguém, não é como se eu precisasse ouvir de alguém "coitado, ele sofria" nem coisa parecida. Nada de show, de carta-testamento, de mostrar pra alguém "a culpa era sua". Nada de coisa nenhuma. Portanto, nada de explodir a cabeça ou pular do metrô. Mas ficar bêbado o tempo todo? vomitar sangue? ficar forçando sua própria existência esperando algum enfarto ou seu rim estourar e você vazar sangue por todos os poros, se engasgando caido no chão frio do seu quarto, sozinho, o gosto metalico de sangue na boca, o pequeno desespero se acalmando, tudo escuro e mais escuro, tontura, frio e leveza, morrendo sozinho, deitado, de hemorragia interna devia a falencia de orgãos? isso seria lindo! Ninguém ficaria achando que era ceninha, simplesmente forcei mais do que deveria. Não me importei com os riscos. Apostei e perdi. acontece.
Isso seria genial.
E note, não é algo que desejaria prum futuro longuinquo. Não quero que isso ocorra daqui uns sete anos. Hoje seria um ótimo dia para acordar morto - ataque cardíaco aos 27 anos, que tragédia - foda-se se não fiz nada de útil, se não escrevi coisas que me mantém vivo depois da morte. Se fui mais uma promessa não cumprida. Todas as esperanças literarias recusadas. Se falhei miseravelmente em tudo, fui um idiota sem sentido. Se não há ninguém realmente que vá chorar a morte dois anos depois dela acontecer, de noite.
isso seria um alivio. Eu não desejo deixar rastros.
Como dito, não é uma luta contra um absurdo. O Camus supõe que estou imaginando-me vivo pra estar morto. Eu só queria não ter que acordar mais uma madrugada, quatro horas da manhã, e ficar triste por estar vivo. Tudo acabado, seria lindo.
E seria melhor ainda se não houvesse nada depois disso.
Amanhã eu vou beber. Depois de Amanhã também. Domingo já tenho no mínimo uma garrafa de conhaque para matar, sozinho. Espero conseguir algum lugar pra fazer o mesmo segunda e terça e quarta. Esse é o meu suicídio. Cada vez melhor e maior. Mais proximo. Mais certeza. Inevitável. Uma hora o corpo não aguenta, eu caio agonizando e pimba! Foi Suicídio sem ser, oficialmente, suicídio. E ninguém vai chorar o fim de mais um idiota. Pelo menos eu não.
quinta-feira, junho 21, 2012
De quando eu tive, pela primeira vez, revistinhas da Marvel, e a desgraça que se abateu com isso.
Eu devia ter uns sete anos. Não menos que isso nem mais. Havia acabado de aprender a ler, e um novo grande mundo tinha nascido pra mim.
Não sei qual era a situação, mas acabei indo viajar com minha tia-madrinha para a casa dela, em Mogi das Cruzes. Sempre gostei muito de ir lá, bem tratado e tudo mais. Sentia-me bem.
E então, creio que por ter aprendido a ler a pouco tempo, minha madrinha me comprou alguns gibis. Revistinhas em quadrinhos. Sempre gostei delas, lembro-me de ir na casa de minha tia Maria, que era perto da escola, entrar no banheiro e ficar lendo coisas do Hulk que lá existiam. Foi lá que vi pela primeira vez o Hulk cinza.
e então minha madrinha me comprou um punhado de revistas. Muitas mesmo. Todas da marvel, e lá lembro de ter um do Homem de Ferro, do Capitão América, do Demolidor, uma com o Justiceiro dando uns pipocos no Retalho e tudo mais. O Homem Aranha negro lutando contra o Kraven, o caçador. Era tudo tão mágico e divertido, utilizar minha mais nova habilidade para reconhecer no fantástico o mundo novo.
Eu voltei toda a viagem lendo as revistinhas.
E então, no outro dia, fui na escolinha. Obviamente que levei todas as revistas, mostrar para o pessoal como eu era um cara foda. E todo mundo pirou, líamos juntos, imaginando quem éramos (eu, obviamente, Demolidor. Se bem que na época nem reconhecia direito a profundidade do personagem. Hell, aos sete anos não poderia ter noção de "ser cego") e ficamos brincando, no pátio da frente (onde, quando eu levava minha bola de basquete furada, fazíamos um grande circulo numa coluna, com giz, e "jogávamos" basquete) eu e toda a grande galera estendida, mulecada sendo mulecada. Estava muito feliz. Completo.
Estava tão feliz, mas tão feliz de ter os gibis, de me divertir com eles e com toda a galera, de estar num momento incrível, que me esqueci completamente das minhas revistinhas. Inadvertidamente, deixei todas elas no banco, no cantinho do pátio onde todos nós estavamos. Eu estava brincando, me divertindo, extremamente feliz por ter algo que era reconhecido por todos como "legal", imaginando mil mundo e possibilidades, extasiante.
E esqueci minhas revistinhas ali. Fui para a sala sem elas. Só fui me lembrar uns dez minutos depois. E o desespero bateu alto em mim, como podia ter esquecido daquilo que, no momento, era a coisa mais importante da minha vida? Todo o sentido de "ser um cara legal" estava integrado as minhas revistinhas da Marvel. Eu não era nada sem elas.
Minha mãe era minha professora, e eu, já chorando, fui falar com ela para ver se podia ir lá fora procurar as revistas. Fui com alguns amigos, rapidamente, mas é óbvio, elas já haviam desaparecido.
Eu chorei como nunca. Havia tocado o céu da felicidade e agora, por burrice minha, tudo estava perdido. Inconsolável. Tive outras revistinhas, mas nunca terei aquelas perdidas para sempre.
Toda a minha vida é uma repetição ad-infinitum desta situação. Sempre que tenho em mãos revistinhas novas, incríveis, que valem e a pena e dão sentido pra vida, perco-as, antes de me sentir completo. E sempre acabo inconsolável, só restando a lembrança daquilo que por poucos momentos foi o paraíso.
Não sei qual era a situação, mas acabei indo viajar com minha tia-madrinha para a casa dela, em Mogi das Cruzes. Sempre gostei muito de ir lá, bem tratado e tudo mais. Sentia-me bem.
E então, creio que por ter aprendido a ler a pouco tempo, minha madrinha me comprou alguns gibis. Revistinhas em quadrinhos. Sempre gostei delas, lembro-me de ir na casa de minha tia Maria, que era perto da escola, entrar no banheiro e ficar lendo coisas do Hulk que lá existiam. Foi lá que vi pela primeira vez o Hulk cinza.
e então minha madrinha me comprou um punhado de revistas. Muitas mesmo. Todas da marvel, e lá lembro de ter um do Homem de Ferro, do Capitão América, do Demolidor, uma com o Justiceiro dando uns pipocos no Retalho e tudo mais. O Homem Aranha negro lutando contra o Kraven, o caçador. Era tudo tão mágico e divertido, utilizar minha mais nova habilidade para reconhecer no fantástico o mundo novo.
Eu voltei toda a viagem lendo as revistinhas.
E então, no outro dia, fui na escolinha. Obviamente que levei todas as revistas, mostrar para o pessoal como eu era um cara foda. E todo mundo pirou, líamos juntos, imaginando quem éramos (eu, obviamente, Demolidor. Se bem que na época nem reconhecia direito a profundidade do personagem. Hell, aos sete anos não poderia ter noção de "ser cego") e ficamos brincando, no pátio da frente (onde, quando eu levava minha bola de basquete furada, fazíamos um grande circulo numa coluna, com giz, e "jogávamos" basquete) eu e toda a grande galera estendida, mulecada sendo mulecada. Estava muito feliz. Completo.
Estava tão feliz, mas tão feliz de ter os gibis, de me divertir com eles e com toda a galera, de estar num momento incrível, que me esqueci completamente das minhas revistinhas. Inadvertidamente, deixei todas elas no banco, no cantinho do pátio onde todos nós estavamos. Eu estava brincando, me divertindo, extremamente feliz por ter algo que era reconhecido por todos como "legal", imaginando mil mundo e possibilidades, extasiante.
E esqueci minhas revistinhas ali. Fui para a sala sem elas. Só fui me lembrar uns dez minutos depois. E o desespero bateu alto em mim, como podia ter esquecido daquilo que, no momento, era a coisa mais importante da minha vida? Todo o sentido de "ser um cara legal" estava integrado as minhas revistinhas da Marvel. Eu não era nada sem elas.
Minha mãe era minha professora, e eu, já chorando, fui falar com ela para ver se podia ir lá fora procurar as revistas. Fui com alguns amigos, rapidamente, mas é óbvio, elas já haviam desaparecido.
Eu chorei como nunca. Havia tocado o céu da felicidade e agora, por burrice minha, tudo estava perdido. Inconsolável. Tive outras revistinhas, mas nunca terei aquelas perdidas para sempre.
Toda a minha vida é uma repetição ad-infinitum desta situação. Sempre que tenho em mãos revistinhas novas, incríveis, que valem e a pena e dão sentido pra vida, perco-as, antes de me sentir completo. E sempre acabo inconsolável, só restando a lembrança daquilo que por poucos momentos foi o paraíso.
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