Foi no meu aniversário de 10 anos. Ou 11, não lembro direito, possivelmente 11,
já que aos 10 eu lembro de passar viajando de Salesópolis para a Praia. O
aniversário foi uma festa relativamente grande, com comidas e bebidas e até
decoração do Batman, lembro de ir pra São José dos Campos com meu pai pra
escolher, era daquele Batman de queixo largo, genialmente bom até hoje. Meu pai
e eu gostávamos de ver este desenho.
Um dia antes da festa fomos alugar umas fitas VHS. Na época era assim que eu via filmes, na locadora do Wanderlei, tinha conta lá e alugava fitas de vídeo e de videogame quase todo final de semana, pra passar mais dias com as fitas. Também passava várias horas lá lendo as sinopses atrás das capas, ou assistindo filmes com a mulher que era atendente. Um dos trampos que gostaria de ter é esse, de ficar vendo-e-atendendo o dia todo. Alugamos várias fitas e lembro que uma delas era o do Tom & Jerry – O Filme, uma bosta, mas foi minha irmã quem quis (possivelmente), vimos uma vez em toda a grande galerinha estendida e já percebemos quando o Jerry falou pela primeira vez que este seria um filme ruim. Mas tínhamos 7-8-9-10-11 anos na época e um filme ruim um dia antes de uma festona de aniversário não era algo ruim. Vimos o filme e fomos ver algum outro filme, ou brincar de pega-pega ou qualquer outra coisa que meu jovem 11 anos Mário gostava de fazer.
No domingo, no filme da tarde da Globo, passou Rambo. E meu pai gravou o filme em cima da fita do Tom & Jerry. Obviamente que não pode devolver a fita e teve que pagar por Wanderlei. Mas agora tínhamos o filme Rambo, dublado, pra ver quando quiser. E este foi um dos meus filmes preferidos da infância. Não tanto quanto Alien 3, Predador 2 e a trilogia De Volta para o Futuro, mas foi um bom filme de ver.
Eu lembro de gosta do Rambo desde molecote, talvez por influencia mais do que por gosto estético. Tem uma foto minha com a roupinha de Rambinho, incluindo balas de mentira, quando devia ter uns 4 anos. E lembro-me de ir numa locadora em Mogi, com meu Padrinho, e pirar ao ver cenas do Rambo 3, ele se arrastando por debaixo de umas cercas e a capa da fita VHS, toda brilhosa, o rosto do Stallone e um helicóptero Hind D Soviético. Boa lembrança de um filme de merda.
Mas o Rambo 1 não é um filme de merda, já podia perceber isso desde moleque. Lembro de ver o 2 e o 3, um pouco mais velho (13 anos) e perceber que havia uma dissonância completa entre eles. O 1 era tenso, dramático, com um personagem inseguro e completamente insano – e da forma ruim de insanidade, aquela que dá medo e não riso – já o 2 e 3 parecia mais um videogame ruim, com contagem de mortos nas centenas e uma tensão derivada não do personagem, mas da ‘missãozinha complexa’ que ele deveria cumprir. O 3, até bem pouco tempo, tinha a gloriosa medalha de ‘o filme com o maior numero de mortes do cinema’, título este que só foi batido pelo Rambo 4, que é assustadoramente gore (= bom).
Mas Rambo 1 era complexo, é complexo e eu percebia isto já nos meus pequeninos onze anos. O filme tem apenas uma morte confirmada, e praticamente não é culpa do Rambo. O homem que o torturou na cadeia do interior dos EUA (alias, a cidade é Hope, e tem um clima no inicio que eu adoro, parecendo meio úmida e sempre subjulgada pela montanha imensa, uma cidadezinha pacata e sem atrativos, quase Salesópolis mas decente/americana) o homem que bateu no Rambo na cadeia, que abusou dele e ativou o gatilho das lembranças de quando for brutalmente torturado no Vietnan esta obsessivo em mata-lo, em um helicóptero, com um rifle de mira telescópica, atirando no Rambo enquanto ele esta num imenso paredão. E então o Rambo se joga e cai nas árvores (o Stallone fez mesmo essa cena, pra quem achar que é inverossímil) e se esconde atrás de uma, enquanto o velho-brutal fica atirando nele e ameaçando o piloto do helicóptero, dizendo que se ele não ignorar os ventos perigosos e virar pra que ele possa mata-lo, quem vai levar bala é o piloto. Ele faz isso sem nenhuma segurança, doido, ultrapassando sua hubris. E então o Rambo pega uma pedra, taca no vidro, o piloto se assusta, vira o manche e o homem brutal com a sniper cai do helicóptero, se espatifando nas pedras. Apenas esta morte no filme todo, o próprio policial chefão não morre, sendo levado pro hospital no final.
O filme, portanto, não é sobre mortes, mas sim sobre a Guerra, e em especial sobre a Guerra do Vietnan. Uma guerra antes, nos EUA, os soldados quando voltaram pra casa foram celebrados (2 Grande Guerra) mas nesta eles eram xingados, perseguidos, vilipendiados por uma imensa parcela da sociedade. Não duvido que esses xingamentos não estivessem sendo corretos, mas o ponto é que, do ponto de vista do Rambo, ele não esperava isso. Ele era um garoto de, sei lá, 16 anos quando foi pra Guerra. Não sabia de nada da vida, e tudo que aprendeu foi a matar. Ele se tornou um puta soldado, daqueles boinas verdes perigosos, dirigindo tanques de guerra, helicópteros, em missões suicidas e tal. Ele nunca teve tempo ou noção para duvidar se aquilo era o correto, apenas o fez porque era mandado. E perdeu todos os amigos que tinha na vida, seus amigos de guerra, ou lá ou de volta. Ele é um personagem louco, sem nenhuma perspectiva, noção, com uma ampla capacidade que agora é completamente ignorada pela sociedade ou, pior, rejeitada como um leproso. Ele está perdido, completamente depressivo, e quando o policial brutal força um pouco ele explode. E o filme é sobre isso.
Percebia isso já nos meus 11 anos. Mas também percebia uma coisa. Não apenas o Rambo é o louco dessa história, há também uma mulher que esta a ponto de explodir. Logo no inicio do filme, nos créditos iniciais, vemos Rambo andando por uma estrada. Ele está indo atrás do único amigo que sobrou, o cara grandão da foto cujo nome eu não lembro. Ele, na guerra, tinha lhe dado o endereço, e possivelmente disse ‘quando isso acabar vamos nos encontrar’ e Rambo tem, como ultima esperança de vida, encontrar esse homem e talvez conseguir algum emprego, alguma família que olhe por ele, amigos, uma vida. Mas, ao chegar na casa do homem, ao conversar com a mãe dele, descobre que ele morreu, câncer por culpa do tal agente laranja. Rambo segundos antes mostra uma foto, e afirma que tiveram que botar o homem no fundo da foto porque senão ele cobriria a cena toda, de tão grandão que ele é, é possível imaginar esse amigo como um daqueles gigantes bondosos, perigosíssimo na batalha mas gentil na vida, um homem imenso com um imenso coração. Mas a mãe dele diz que ele morreu, e que carregou no final da vida esse imenso homem com seus próprios braços. Rambo, ali, está não só completamente desolado por não ter mais nenhuma esperança, como também envergonhado por fazer a mulher rever todas essas lembranças, a mulher tem uma expressão que não alivia para ele, irritada. Rambo então lhe dá a foto, não pede desculpas e vai embora, e a mãe do morto em nenhum momento olha para o Rambo, lhe dirige alguma palavra de conforto ou pede desculpas por ser bruta. Ela também vivenciou a guerra, também sofreu, ela também não tem perspectivas ou esperanças, e está a dois passos da completa insanidade, da mesmíssima forma que o Rambo. Em dois pequenos olhares, em menos de meia-dúzia de palavras já podemos perceber o quão este filme leva a sério a questão da loucura e de como a guerra destrói absolutamente tudo por onde passa-e-não-passa.
Desde os 11 anos eu sei, instintivamente, que esse é um bom filme.
Ainda bem que meu pai gravou essa fita.
E meu deus, quem diabos pensou que Tom & Jerry conversando seria uma boa ideia??
Um dia antes da festa fomos alugar umas fitas VHS. Na época era assim que eu via filmes, na locadora do Wanderlei, tinha conta lá e alugava fitas de vídeo e de videogame quase todo final de semana, pra passar mais dias com as fitas. Também passava várias horas lá lendo as sinopses atrás das capas, ou assistindo filmes com a mulher que era atendente. Um dos trampos que gostaria de ter é esse, de ficar vendo-e-atendendo o dia todo. Alugamos várias fitas e lembro que uma delas era o do Tom & Jerry – O Filme, uma bosta, mas foi minha irmã quem quis (possivelmente), vimos uma vez em toda a grande galerinha estendida e já percebemos quando o Jerry falou pela primeira vez que este seria um filme ruim. Mas tínhamos 7-8-9-10-11 anos na época e um filme ruim um dia antes de uma festona de aniversário não era algo ruim. Vimos o filme e fomos ver algum outro filme, ou brincar de pega-pega ou qualquer outra coisa que meu jovem 11 anos Mário gostava de fazer.
No domingo, no filme da tarde da Globo, passou Rambo. E meu pai gravou o filme em cima da fita do Tom & Jerry. Obviamente que não pode devolver a fita e teve que pagar por Wanderlei. Mas agora tínhamos o filme Rambo, dublado, pra ver quando quiser. E este foi um dos meus filmes preferidos da infância. Não tanto quanto Alien 3, Predador 2 e a trilogia De Volta para o Futuro, mas foi um bom filme de ver.
Eu lembro de gosta do Rambo desde molecote, talvez por influencia mais do que por gosto estético. Tem uma foto minha com a roupinha de Rambinho, incluindo balas de mentira, quando devia ter uns 4 anos. E lembro-me de ir numa locadora em Mogi, com meu Padrinho, e pirar ao ver cenas do Rambo 3, ele se arrastando por debaixo de umas cercas e a capa da fita VHS, toda brilhosa, o rosto do Stallone e um helicóptero Hind D Soviético. Boa lembrança de um filme de merda.
Mas o Rambo 1 não é um filme de merda, já podia perceber isso desde moleque. Lembro de ver o 2 e o 3, um pouco mais velho (13 anos) e perceber que havia uma dissonância completa entre eles. O 1 era tenso, dramático, com um personagem inseguro e completamente insano – e da forma ruim de insanidade, aquela que dá medo e não riso – já o 2 e 3 parecia mais um videogame ruim, com contagem de mortos nas centenas e uma tensão derivada não do personagem, mas da ‘missãozinha complexa’ que ele deveria cumprir. O 3, até bem pouco tempo, tinha a gloriosa medalha de ‘o filme com o maior numero de mortes do cinema’, título este que só foi batido pelo Rambo 4, que é assustadoramente gore (= bom).
Mas Rambo 1 era complexo, é complexo e eu percebia isto já nos meus pequeninos onze anos. O filme tem apenas uma morte confirmada, e praticamente não é culpa do Rambo. O homem que o torturou na cadeia do interior dos EUA (alias, a cidade é Hope, e tem um clima no inicio que eu adoro, parecendo meio úmida e sempre subjulgada pela montanha imensa, uma cidadezinha pacata e sem atrativos, quase Salesópolis mas decente/americana) o homem que bateu no Rambo na cadeia, que abusou dele e ativou o gatilho das lembranças de quando for brutalmente torturado no Vietnan esta obsessivo em mata-lo, em um helicóptero, com um rifle de mira telescópica, atirando no Rambo enquanto ele esta num imenso paredão. E então o Rambo se joga e cai nas árvores (o Stallone fez mesmo essa cena, pra quem achar que é inverossímil) e se esconde atrás de uma, enquanto o velho-brutal fica atirando nele e ameaçando o piloto do helicóptero, dizendo que se ele não ignorar os ventos perigosos e virar pra que ele possa mata-lo, quem vai levar bala é o piloto. Ele faz isso sem nenhuma segurança, doido, ultrapassando sua hubris. E então o Rambo pega uma pedra, taca no vidro, o piloto se assusta, vira o manche e o homem brutal com a sniper cai do helicóptero, se espatifando nas pedras. Apenas esta morte no filme todo, o próprio policial chefão não morre, sendo levado pro hospital no final.
O filme, portanto, não é sobre mortes, mas sim sobre a Guerra, e em especial sobre a Guerra do Vietnan. Uma guerra antes, nos EUA, os soldados quando voltaram pra casa foram celebrados (2 Grande Guerra) mas nesta eles eram xingados, perseguidos, vilipendiados por uma imensa parcela da sociedade. Não duvido que esses xingamentos não estivessem sendo corretos, mas o ponto é que, do ponto de vista do Rambo, ele não esperava isso. Ele era um garoto de, sei lá, 16 anos quando foi pra Guerra. Não sabia de nada da vida, e tudo que aprendeu foi a matar. Ele se tornou um puta soldado, daqueles boinas verdes perigosos, dirigindo tanques de guerra, helicópteros, em missões suicidas e tal. Ele nunca teve tempo ou noção para duvidar se aquilo era o correto, apenas o fez porque era mandado. E perdeu todos os amigos que tinha na vida, seus amigos de guerra, ou lá ou de volta. Ele é um personagem louco, sem nenhuma perspectiva, noção, com uma ampla capacidade que agora é completamente ignorada pela sociedade ou, pior, rejeitada como um leproso. Ele está perdido, completamente depressivo, e quando o policial brutal força um pouco ele explode. E o filme é sobre isso.
Percebia isso já nos meus 11 anos. Mas também percebia uma coisa. Não apenas o Rambo é o louco dessa história, há também uma mulher que esta a ponto de explodir. Logo no inicio do filme, nos créditos iniciais, vemos Rambo andando por uma estrada. Ele está indo atrás do único amigo que sobrou, o cara grandão da foto cujo nome eu não lembro. Ele, na guerra, tinha lhe dado o endereço, e possivelmente disse ‘quando isso acabar vamos nos encontrar’ e Rambo tem, como ultima esperança de vida, encontrar esse homem e talvez conseguir algum emprego, alguma família que olhe por ele, amigos, uma vida. Mas, ao chegar na casa do homem, ao conversar com a mãe dele, descobre que ele morreu, câncer por culpa do tal agente laranja. Rambo segundos antes mostra uma foto, e afirma que tiveram que botar o homem no fundo da foto porque senão ele cobriria a cena toda, de tão grandão que ele é, é possível imaginar esse amigo como um daqueles gigantes bondosos, perigosíssimo na batalha mas gentil na vida, um homem imenso com um imenso coração. Mas a mãe dele diz que ele morreu, e que carregou no final da vida esse imenso homem com seus próprios braços. Rambo, ali, está não só completamente desolado por não ter mais nenhuma esperança, como também envergonhado por fazer a mulher rever todas essas lembranças, a mulher tem uma expressão que não alivia para ele, irritada. Rambo então lhe dá a foto, não pede desculpas e vai embora, e a mãe do morto em nenhum momento olha para o Rambo, lhe dirige alguma palavra de conforto ou pede desculpas por ser bruta. Ela também vivenciou a guerra, também sofreu, ela também não tem perspectivas ou esperanças, e está a dois passos da completa insanidade, da mesmíssima forma que o Rambo. Em dois pequenos olhares, em menos de meia-dúzia de palavras já podemos perceber o quão este filme leva a sério a questão da loucura e de como a guerra destrói absolutamente tudo por onde passa-e-não-passa.
Desde os 11 anos eu sei, instintivamente, que esse é um bom filme.
Ainda bem que meu pai gravou essa fita.
E meu deus, quem diabos pensou que Tom & Jerry conversando seria uma boa ideia??
