sábado, dezembro 28, 2013

Jardel morreu

Não consegui escrever nos últimos meses. Mais um daqueles bloqueios estranhos que tive. Não que não tivesse nada de interessante pra vomitar aqui - ou mesmo relevante. digno. válido. - É simplesmente o fato de que, quando sentava e me dispunha a escrever, somente branco e eter me passavam. Mas creio que preciso, de alguma forma, escrever sobre o pobre Jardel.

O Jardel foi o meu melhor amigo da quinta até a sétima serie. Ele, junto com o velho Sandrão formava uma certa trindade de camaradagem/malandragem que, de alguma forma, afirmou definitivamente algumas das características - boas ou ruins, ou péssimas, ou babacas - da minha pessoa.

Jardel morreu faz alguns meses, acidente de moto. Não quis saber os detalhes. Ainda não bebi em luto a ele.

O Jardel era uma pessoa malandra. Um cara creio que um ou dois anos mais velho do que a suposta idade normal da minha sala. Digo suposta porque na minha sala - 5B em diante - estava só a escória. Grande parte já possuia uns 16, 17 anos. Uns, da roça, já passavam dos 23. Rubinho, lembro-me, na oitava série chegava quase aos 30. Mas o Jardel era só um pouco mais velho, e era malandro a ponto de roubar lojas de materias escolares em Mogi para guardar na minha bolsa de canetas.

Estou me perdendo. Sinto que há tanta coisa pra falar sobre ele que não consigo ser claro.

Foi o Jardel quem comprou minha primeira pornografia, uma revista Playboy da Tiazinha. Foi ele também quem me ensinou a não ter vergonha de pedir isso, e na segunda eu comprei de boa.

Nós três, Jardel, Sandro e eu costumávamos, creio que na sexta serie, buscar garrafas de refrigerante por toda a escola, a mulher da cantina nos dava balas de graça por elas. Lembro-me também de dividir sempre meu lanche com eles, Jardel não gostava de comer no refeitório, aquela comida meia-boca (que eu desisti logo na primeira série).

O Jardel era um bom amigo. Ainda agora sempre falava pra todo mundo que só passou na escolinha por minha culpa, pelas colas - milhares delas - que eu lhe passava. Eu era o estudioso, que sabia escrever bem. Sentávamos nós três e o Sandro, que era o melhor em Matemática, nos passava cola. Jardel não era bom em nada, mas era malaco e isso me servia bem.

Este texto está horrível, em nada vale a memória do Jardel. Há milhares de histórias, sobre como a Ana Rosa o amava e ele a destruía, como ele protegia a mim quando alguns outros babacas também mortos vinham me irritar por ser um estranho. Muitas histórias, que agora tem uma parte da memória delas morta;

Pobre Jardel. Me encontrei com ele ao vivo pela última vez neste carnaval. Ele estava meio inchado, creio que pela bebida e vida escrota, mas conversamos bebados por uma hora, mais ou menos. Ele me disse que estava querendo fazer psicologia e pedia que eu lhe ajudasse a entrar na faculdade. Eu, obviamente, disse que sim, mas sinceramente queria parar logo de conversar com ele e colar com a Mayarinha e sua amiga-que-estava-comendo Cabeluda pra ver se rolava alguma coisa sexual. E então deixei o Jardel no meio da rua, ali, prometendo que voltaria pra falar com ele. Não voltei, e depois soube pelo Wilber que ele foi expulso do sitio dos caras por aparentemente roubar uma grana. Fiquei sabendo pelo Wilber que o Jardel havia viciado em crack - coisa que eu não duvido - e mesmo o Jardel falando que não havia roubado a grana, caiu fora. Pobre Jardel.

Conversamos mais algumas vezes pelo Facebook. Ignorei-o uma vez mas falei com ele por umas duas horas em outras vezes. Não me sinto bem em pensar nisso, mas foi verdade.

De qualquer forma, Jardel morreu. Preciso beber ainda em homenagem a ele. Jardel morreu possivelmente explodindo a cabeça nalgum poste em alta velocidade. E daqui dez anos possivelmente ninguém vai se lembrar dele e de suas aventuras.

Pobre Jardel.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Sobre como aos 11 anos descobri a loucura do Rambo e de outra personagem menor do filme – e como a Guerra é foda.



Foi no meu aniversário de 10 anos. Ou 11, não lembro direito, possivelmente 11, já que aos 10 eu lembro de passar viajando de Salesópolis para a Praia. O aniversário foi uma festa relativamente grande, com comidas e bebidas e até decoração do Batman, lembro de ir pra São José dos Campos com meu pai pra escolher, era daquele Batman de queixo largo, genialmente bom até hoje. Meu pai e eu gostávamos de ver este desenho.
Um dia antes da festa fomos alugar umas fitas VHS. Na época era assim que eu via filmes, na locadora do Wanderlei, tinha conta lá e alugava fitas de vídeo e de videogame quase todo final de semana, pra passar mais dias com as fitas. Também passava várias horas lá lendo as sinopses atrás das capas, ou assistindo filmes com a mulher que era atendente. Um dos trampos que gostaria de ter é esse, de ficar vendo-e-atendendo o dia todo. Alugamos várias fitas e lembro que uma delas era o do Tom & Jerry – O Filme, uma bosta, mas foi minha irmã quem quis (possivelmente), vimos uma vez em toda a grande galerinha estendida e já percebemos quando o Jerry falou pela primeira vez que este seria um filme ruim. Mas tínhamos 7-8-9-10-11 anos na época e um filme ruim um dia antes de uma festona de aniversário não era algo ruim. Vimos o filme e fomos ver algum outro filme, ou brincar de pega-pega ou qualquer outra coisa que meu jovem 11 anos Mário gostava de fazer.

No domingo, no filme da tarde da Globo, passou Rambo. E meu pai gravou o filme em cima da fita do Tom & Jerry. Obviamente que não pode devolver a fita e teve que pagar por Wanderlei. Mas agora tínhamos o filme Rambo, dublado, pra ver quando quiser. E este foi um dos meus filmes preferidos da infância. Não tanto quanto Alien 3, Predador 2 e a trilogia De Volta para o Futuro, mas foi um bom filme de ver.

Eu lembro de gosta do Rambo desde molecote, talvez por influencia mais do que por gosto estético. Tem uma foto minha com a roupinha de Rambinho, incluindo balas de mentira, quando devia ter uns 4 anos. E lembro-me de ir numa locadora em Mogi, com meu Padrinho, e pirar ao ver cenas do Rambo 3, ele se arrastando por debaixo de umas cercas e a capa da fita VHS, toda brilhosa, o rosto do Stallone e um helicóptero Hind D Soviético. Boa lembrança de um filme de merda.

Mas o Rambo 1 não é um filme de merda, já podia perceber isso desde moleque. Lembro de ver o 2 e o 3, um pouco mais velho (13 anos) e perceber que havia uma dissonância completa entre eles. O 1 era tenso, dramático, com um personagem inseguro e completamente insano – e da forma ruim de insanidade, aquela que dá medo e não riso – já o 2 e 3 parecia mais um videogame ruim, com contagem de mortos nas centenas e uma tensão derivada não do personagem, mas da ‘missãozinha complexa’ que ele deveria cumprir. O 3, até bem pouco tempo, tinha a gloriosa medalha de ‘o filme com o maior numero de mortes do cinema’, título este que só foi batido pelo Rambo 4, que é assustadoramente gore (= bom).

Mas Rambo 1 era complexo, é complexo e eu percebia isto já nos meus pequeninos onze anos. O filme tem apenas uma morte confirmada, e praticamente não é culpa do Rambo. O homem que o torturou na cadeia do interior dos EUA (alias, a cidade é Hope, e tem um clima no inicio que eu adoro, parecendo meio úmida e sempre subjulgada pela montanha imensa, uma cidadezinha pacata e sem atrativos, quase Salesópolis mas decente/americana) o homem que bateu no Rambo na cadeia, que abusou dele e ativou o gatilho das lembranças de quando for brutalmente torturado no Vietnan esta obsessivo em mata-lo, em um helicóptero, com um rifle de mira telescópica, atirando no Rambo enquanto ele esta num imenso paredão. E então o Rambo se joga e cai nas árvores (o Stallone fez mesmo essa cena, pra quem achar que é inverossímil) e se esconde atrás de uma, enquanto o velho-brutal fica atirando nele e ameaçando o piloto do helicóptero, dizendo que se ele não ignorar os ventos perigosos e virar pra que ele possa mata-lo, quem vai levar bala é o piloto. Ele faz isso sem nenhuma segurança, doido, ultrapassando sua hubris. E então o Rambo pega uma pedra, taca no vidro, o piloto se assusta, vira o manche e o homem brutal com a sniper cai do helicóptero, se espatifando nas pedras. Apenas esta morte no filme todo, o próprio policial chefão não morre, sendo levado pro hospital no final.

O filme, portanto, não é sobre mortes, mas sim sobre a Guerra, e em especial sobre a Guerra do Vietnan. Uma guerra antes, nos EUA, os soldados quando voltaram pra casa foram celebrados (2 Grande Guerra) mas nesta eles eram xingados, perseguidos, vilipendiados por uma imensa parcela da sociedade. Não duvido que esses xingamentos não estivessem sendo corretos, mas o ponto é que, do ponto de vista do Rambo, ele não esperava isso. Ele era um garoto de, sei lá, 16 anos quando foi pra Guerra. Não sabia de nada da vida, e tudo que aprendeu foi a matar. Ele se tornou um puta soldado, daqueles boinas verdes perigosos, dirigindo tanques de guerra, helicópteros, em missões suicidas e tal. Ele nunca teve tempo ou noção para duvidar se aquilo era o correto, apenas o fez porque era mandado. E perdeu todos os amigos que tinha na vida, seus amigos de guerra, ou lá ou de volta. Ele é um personagem louco, sem nenhuma perspectiva, noção, com uma ampla capacidade que agora é completamente ignorada pela sociedade ou, pior, rejeitada como um leproso. Ele está perdido, completamente depressivo, e quando o policial brutal força um pouco ele explode. E o filme é sobre isso.

Percebia isso já nos meus 11 anos. Mas também percebia uma coisa. Não apenas o Rambo é o louco dessa história, há também uma mulher que esta a ponto de explodir. Logo no inicio do filme, nos créditos iniciais, vemos Rambo andando por uma estrada. Ele está indo atrás do único amigo que sobrou, o cara grandão da foto cujo nome eu não lembro. Ele, na guerra, tinha lhe dado o endereço, e possivelmente disse ‘quando isso acabar vamos nos encontrar’ e Rambo tem, como ultima esperança de vida, encontrar esse homem e talvez conseguir algum emprego, alguma família que olhe por ele, amigos, uma vida. Mas, ao chegar na casa do homem, ao conversar com a mãe dele, descobre que ele morreu, câncer por culpa do tal agente laranja. Rambo segundos antes mostra uma foto, e afirma que tiveram que botar o homem no fundo da foto porque senão ele cobriria a cena toda, de tão grandão que ele é, é possível imaginar esse amigo como um daqueles gigantes bondosos, perigosíssimo na batalha mas gentil na vida, um homem imenso com um imenso coração. Mas a mãe dele diz que ele morreu, e que carregou no final da vida esse imenso homem com seus próprios braços. Rambo, ali, está não só completamente desolado por não ter mais nenhuma esperança, como também envergonhado por fazer a mulher rever todas essas lembranças, a mulher tem uma expressão que não alivia para ele, irritada. Rambo então lhe dá a foto, não pede desculpas e vai embora, e a mãe do morto em nenhum momento olha para o Rambo, lhe dirige alguma palavra de conforto ou pede desculpas por ser bruta. Ela também vivenciou a guerra, também sofreu, ela também não tem perspectivas ou esperanças, e está a dois passos da completa insanidade, da mesmíssima forma que o Rambo. Em dois pequenos olhares, em menos de meia-dúzia de palavras já podemos perceber o quão este filme leva a sério a questão da loucura e de como a guerra destrói absolutamente tudo por onde passa-e-não-passa.

Desde os 11 anos eu sei, instintivamente, que esse é um bom filme.
Ainda bem que meu pai gravou essa fita.
E meu deus, quem diabos pensou que Tom & Jerry conversando seria uma boa ideia??

quarta-feira, outubro 02, 2013

ruído ruído ruído ruído ruído ruído. ruído.

os últimos quatro meses tem sido estranhos. Há quase sempre algum ruído - ruído? - e eu não acabo me tornando solitário novamente.

quer dizer, estou novamente no mesmo estado lastimável de sempre. Mas, a uns 4 meses não tenho retorno para casa quietos, molhados, caminhadas perdidas desperdiçadas.

Sabe como é. A mesma merdinha de sempre. blábláblá incapaz de encontrar lugar destino sentido, etc.

Nos últimos quatro meses, de alguma estranha forma, há sempre algum ruído que tem me impedido de ficar sozinho. Ou, melhor falando, me sentir sozinho.

Há uns quatro meses eu comecei a conversar, na mais completa magia aleatória, com uma advogada de Joinville, loira alemã cheia de vontades e sem muitas experiências. Uma advogada de 22 anos e muito bonita, acima do meu nível em pelo menos 44 graus.

- não que isso signifique alguma coisa. grande parte das pessoas que sai era no mínimo 20 graus de beleza acima da minha horribilidade -

comecei a conversar e nos encontramos e, por algumas pouquíssissimas vezes, tudo foi lindo. Ela é muito obstinada e com aquela percepção chata de futuro que quase todas tem. Mas também conseguiu ser inconsequente o bastante pra me atrair muito, e passamos por algumas pequenas madrugadas divertidíssimas.

madrugadas que eu vou me lembrar pra sempre.

Mas, advinha só, tudo deu errado. Não tudo TUDO, ela não me odeia (ainda) nem disse que não quer mais me ver (ainda) mas, tanto eu quanto ela sabemos que já era. Há mais diferenças que semelhanças e nenhuma vontade de batalhar por isso. Há a distancia, o meu intrínseco desespero e a vontade dela de ser alguém.

Cahan: Ser Alguém!!

Mas não é sobre isso que vim escrever. Por mais que tudo tenha dado errado e eu tenha ficado triste, foi bem menos que antes. bem menos que qualquer outro momento. Ela, a garota alemã - cujo nome eu falo noutro post, junto com a historinha dela, que prometo é divertida - me fez bem menos estragos. E acho que um dos pontos disso ocorrer é esse constante ruído que sonda ao meu redor desde então. Tenho saído com pessoas, beijado pessoas, feito coisas, pulado muros, montado, esperado. Feito coisas que, se não me levaram a nada, pelo menos me impediram de voltar pra casa deprimido, sonhando com algum momento aonde tudo não vai ser tão horrível.

é. eu não sei se é envelhecimento, amadurecimento ou simplesmente uma vida tresloucada que me impede de sofrer o que eu imaginava que sofreria. Talvez seja porque eu me dispus a não sonhar com um futuro com essa garota alemã desde o inicio. Ou talvez seja qualquer outro motivo que agora, escrevendo e vivendo, eu não consigo perceber.

Mas, mesmo assim, sábado vou tomar ácido com duas garotas (uma lésbica) e depois me divertir muito penetrando as profundezas da minha psique perturbada. E talvez segunda-terça-quarta beba com a única garota que me deixa transtornado ainda, a mesma de dois anos atrás, quatro anos atrás, sete anos atrás. A unica garota que não quero tentar ainda me envolver, porque sei que vai dar errado - por mais que demos certo - e porque sei que que isso de não sentir dor não há com ela.

Enfim, ruído ruído ruído. Não envelheci. é apenas o maldito ruído que não para de ressoar na minha mente....

sexta-feira, setembro 20, 2013

Sobre a Ivna

Não escrevo a décadas. Há um motivo, e irei trabalhar isso no futuro. é interessantinho, eu juro.


Eu conheci a Ivna numa forma estranha, da mesmíssima forma que conheci todas as garotas que, em alguma instância, foram relevantes, fodas, maravilhosas ou interessantes na minha vida (cada uma é um).

No caso da Ivna a história é o seguinte. O ano devia ser 2007 ou 2008. Eu estava passando as ferias de meio de ano em Salé, com minha mãe e irmãs. Estava deprimido mas não tanto, e tinha um Gameboy Yellow, com Pokemon da mesma cor (roubado do Fredão)

Eis que, numa madrugada, eu bebo pra caralho. Bebo mesmo e, em algum momento, percebo que estou louco e volto pra casa. Sou mestre nisso, de parar o rolê porque não aguento mais.

eu voltei pra casa, bêbado mas de boa. Salé é fácil de voltar. E naquela época ainda existia um pc e internet em casa. Eu lembro que, nessas férias, passei uma madrugada ouvindo Regina Spektor pela primeira vez e terminando FFV (Final Fantasy Cinco) Até hoje lembro desse momento como algo especial.

Enfim, voltei pra casa bêbado e, uma vez lá, entrei na NET. Bêbado, entrei no Orkut (era o facebook da época) escolhi uma comunidade, entrei noutra comunidade relacionada dessa um e noutra relacionada dessa segunda. E então cliquei na primeira moça bonita que estava na frente dessa terceira comunidade.

notem, eu estava muito bêbado.

Entrei nessa pessoa, cliquei em lhe mandar uma mensagem e escrevi exatamente aquilo que sentia na época. escrevi: 'é, a vida é uma merda mesmo, não?'

-Corte-

A Ivna, nesse exato momento, acaba de chegar em sua casa, bêbada tanto quanto eu. Angustiada triste, bêbada e decadente. Entra no orkut dela e vê minha mensagem aleatória sendo sincera com ela completamente.

Uma semana depois estamos num bar, bebendo junto. Eu vomitei primeiro, ela depois, fomos pra casa dela e trepamos.

A Ivna foi um rolo rápido, se for contar o tempo. Mas, eu juro, ela foi (é) muito importante pra mim. Somente com ela eu pude perceber o que era me relacionar com uma mina completamente igual a mim(porque ela era uma copia, intelectual e comporta-mente de mim. Eu a amo por isso, e eu a odeio por isso)

Ah, depois eu escrevo das minhas merdas atuais. Mas saibam, a Ivna foi bem melhor.

quinta-feira, julho 25, 2013

No último mês as coisas tem sido boas. Talvez acabe logo toda essa bonança, mas foi bom ter um pouco de sensações agradáveis.

quinta-feira, junho 06, 2013

Ahn, os pequenos desprazeres de se sentir horrivelmente inapto, acabado, destruído, definitivamente derrotado. Os pequenos desprazeres de ver -novamente e de novo e de novo e de novo- suas pequeninas esperancitas definitivamente -novamente e de novo e de novo e de novo- se mostrarem apenas ilusoezinhas patéticas, destituídas de sentido e motivação. Perdi, novamente. Engraçado como cada novo reconhecimento disso, por mais que seja ainda o mesmo, causa um rasgo diferente, machuca novamente e destrói tudo aquilo que acreditava-se estar destruído.

Ahn... os pequenos desprazeres. Eu podia viver sem eles e ser minimamente feliz. Mas agora só o que dá vontade é de desaparecer.

segunda-feira, junho 03, 2013

Arino, Japão e um sentimento dificil de explicar.

Tenho tido uns poucos costumes diferentes dos últimos anos. Não apenas, mas especialmente com as pequenas artes visuais que costumo ver.

Antes, gostava mesmo de ver filmes. E ainda estou nessa, mas em um ritmo muito menor do que antes. Agora, estranhamente, alguns poucos seriados estão me pegando mais que obras completas e indivisíveis - filmes. Um dos seriados eu já comentei, o Star Trek, que embora me deixe com um pouco de vergonha, já que é algo bem nerd, creio ter deixado claro (ou não. nunca consigo ser claro) de que aquilo que me atrai na serie é algo mais sublime, mas profundo do que 'alienígenas e tecnologia'.

outra coisa que tenho visto muito é um pequeno programa japonês, extremamente mais nerd do que Star Trek. Game Center CX - com Katcho Arino.

Este programinha é bem sobre videogames. Com um comediante - o tal Arino - tentando terminar jogos dos anos 80/90 de nes/snes/megadriver. O Arino é muito, muito ruim, e portanto os tais jogos demoram 10, 15, até 25 horas pra ser terminados - isso quando o são.

Mas essa parte, a maior parte do programa, não é a que realmente me interessa. Quero dizer, é óbvio que ver alguém jogando me diverte, me diverte desde os meus longínquos seis anos. Mas a coisa que, quando passa, eu me sinto não apenas entretido como também emocionado é um segmento constante, mas diferente.

O Segmento começa bem simples, com Arino lendo um postal que aqueles que assistem o programa lhe mandam. A carta lhe dá um dica de um bom 'Game Center' (fliperama, que no japão é bem mais comum do que aqui) e o Arino vai visitar este local.

Isto me maravilha de uma forma que é muito difícil de explicar. Normalmente os locais aonde ele vai é só uma pequena lojinha, bem daquelas de bairro no brasil, com umas poucas maquinas e uma velhinha vendendo doces. Estes locais são incríveis. Não consigo entender bem, mas acho que o sentimento de simplicidade, de familiaridade e não homogeneidade me pegam.

Usando outros exemplos, é a mesma sensação que tenho quando, viajando de uma cidade pra outra em um ônibus, olho pra fora e vejo uma casinha velha, no meio de um morro. E desejo ardorosamente entrar nela, descobrir pequenos cantos ocultos, conhecer as pessoas que moram ali. Quero viver essa casinha simples, mas claramente lotada de histórias verdadeiras.

É exatamente isto que sinto em cada episódio aonde o Arino vai nesses game centers. Alguns são pequenos cafés em distritos comerciais do japão, com velhos servindo comida boa e barata, e quente, desde os anos 50, e umas poucas maquinas de space invaders pra distrair as pessoas. Ou aquelas maquinas 'pachinco', aonde você gasta 10 ienes e pode ganhar pequenos prêmios irrelevantes. É incrível ver pequenas crianças, de não mais de oito anos, que estão ali não porque tem uma tv, mas porque é costume desses pequenos japoneses ir todo dia lá, jogar e comer doces.

Bom deus, esta parte. Eu daria meu braço pra viver essa parte.

terça-feira, maio 28, 2013

Sobre Insomnia

Não consigo dormir.

Nunca tive um sono muito bom. Dormia na parte da casa mais próxima da porta, e sempre ficava puto quando os cachorros da rua latiam. Ou quando, aleatoriamente, pessoas vinham fazer procissão (?!) de madrugada. Ou mesmo em dias aonde minha adrenalina era maior que o normal.

Lembro-me de, no dia que antecedia o inicio da quinta série, de não conseguir dormir. Fiquei toda a -maldita- madrugada pensando, divagando, sonhando com as inúmeras e incontáveis possibilidades que eu, na minha pequena inocência de moleque salesopolitano, imaginava que ocorreria. Não aconteceu nada e eu fiquei a madrugada toda inventando histórias que nunca ocorreram. nunca.

Não consigo dormir, sempre tive esse pequeno problema. Lembro-me de vagar pela casa, em salé, perdido até umas 4 ou 5 da manhã. Nunca tive imensos problemas em dormir pouco (há épocas assim, há épocas de destruir-me na cama) e portanto ficar até as quatro da madruga olhando pras ruas da cidade me era, menos um prazer, mais uma necessidade. Televisão desaparecia depois de uma hora (pornografia era medida em minutos) não havia internet nem eu sentia-me no desejo de escrever algo (naquela época um papel poderia ser a prova de um crime) E portanto eu ficava ou no muro do quintal, ou -quando fizeram o velhaco segundo andar- na janelinha mais longínqua, olhando pessoas bêbadas que passavam (lembro-me de ficar muito excitadinho quando vi minha professora de sei-lá-o-que dando os maiores catos numa rua escura, lá pelas duas de uma terça) olhando cachorros que brigavam, mosquitos e morcegos que voavam e eu, que só sonhava e sonhava e sonhava acordado, olhos abertos olhando um, agora já sabido, nada.

Seria momentos desperdiçados, acho eu. Se não fossem obrigatórios. Mas ainda sim eu me sinto triste, porque nada nunca foi mais interessante, romântico, sincero ou relevante na minha vida do que aquelas horas de total negritude, olhando uma janela esquecida num ano perdido do século XX.

Eu não consigo dormir.

terça-feira, maio 07, 2013

Uma noção que, sinceramente, muito me agrada

Tenho andado um bocado sozinho.

Não que não tenha saído com garotas, nos últimos tempos até que esse motivo tem acontecido bastante. Porem em nenhuma das vezes isso acabou de alguma forma interessante. Sempre acabei com um vazio na barriga maior do que antes, um claro sinal de que estou fazendo pelo menos uma coisa errada.

Quero dizer, não é errado.

Deixa eu recomeçar: Tenho andando um bocado sozinho. Não fisicamente, porque tenho saído com garotas até que relativamente bastante. Mais do que costumava sair no passado. Mas acontece que, em cada uma dessas saídas, sinto como se nada fosse completado. Apenas estou ali de corpo presente, respondendo a alguns possíveis anseios que o outro corpo pede, mas nada que realmente valha a pena. Nada que valha a pena apostar minhas poucas fichas.

Em suma, ainda não há motivos. Um velho tema recorrente que, se não é o maior dos meus demónios, é alguma coisa tão grande quanto.

Não há nada que me faça realmente tentar, arriscar. Diabos, eu me disponho a morar nas ruas porque ali há mais possibilidades de alguma coisa interessante acontecer do que nesta medíocre vidinha aonde tudo é irritantemente banal.

Há, creio eu, uma única exceção.

A garota que eu mais tenho andado nos últimos tempos não é alguém que eu trepei. Já fiquei pelado com ela uma dúzia de vezes, mas não é alguém que eu sinta que vá comer nalgum momento no futuro. Essa menina é lésbica. Daquelas lésbicas que realmente não sentem o menor prazer com homens.

Até ai tudo bem. Eu tentei lamber o pescoço dela quando bêbado, percebi que nada aconteceu e continuei conversando. Ela, similar a praticamente todas as mulheres e moças que me fizeram interessar de verdade, é alguém cuja conversa é confortável, instigante. Alguém com quem eu me sinto bem em ficar apenas sentado, na frente do bar, bebendo alguma coisa e conversando. Calhou dessa menina não sentir a menor atração sexual por mim (ou qualquer outro cara) e isso não é nenhum problema.

Agora vem o Catch 22. O fato de não querermos trepar não significa que não vamos trepar. Um dia enquanto bêbados (ou chapados. não sei direito) decidimos que, enquanto não íamos fazer sexo entre nós, íamos em algum momento fazer sexo. Uma terceira moça deveria estar junto e a união de nossas vontades é que deveria comer essa garota de todas as formas possíveis.

Já demos em cima de um pequeno grupo de moças. Nenhuma se dispôs a tanto.

Agora vem o movimento de explicação do titulo. Isso porque, num dos dias bêbados, enquanto conversávamos, eu chorava minhas magoas do passado-próximo, ela chorava as dela (temos muitas, ambas similares e que aconteceram num espaço muito próximo de tempo. ((isso, alias, é uma das outras marcas de proximidade de mim com todas as mulheres e moças. Há sempre uma similaridade de pensamento - com algumas acontece em menor intensidade, noutras tão assustadoramente simétricas  que a única reação que consigo ter é a de completo estupor alegre e dançarino - que me força desejar passar mais tempo com essas mulheres e moças)) ) enquanto chorávamos, bebíamos, discutíamos e olhávamos duas garotinhas bonitinhas que passavam na escura noite, uma de meia arrastão outra cujo cabelo era azul,  houve um estalo. Uma noção que, sinceramente, muito me agrada -e a essa minha amiga lésbica também-.

Quando formos fazer sexo com uma terceira garota, a meta é fazer dessa trepada a maior trepada da vida dela. É fazer com que essa mulher, seja ela quem for, tenha sonhos nas suas próximas trepadas, desejando que nós dois estivessemos ali, ao invés de seja lá quem ela for dormir depois. É preciso criar nessa mulher um sentimento de luxuria, tesão e excitação imenso. Algo que a faça explodir em mim gozos mulitplos, um a cada cinco minutos, pelo espaço de cinco horas de trepada. no mínimo.

E é isso. Sinto que conseguir isso, no final, não vai me fazer suprir aquela falta que sinto dentro de mim. O pequeno buraco que nunca enche, não importa quais coisas busque hoje em dia.Reconheço isso, sei quais são os problemas e, eu realmente espero, algum dia vou conseguir conviver com isso sem me sentir deprimido dia sim, dia não. Mas sentir-se vazio não significa que não possa sonhar em fazer uma garota aleatória ter a maior trepada da vida dela, a que irá contar com muita saudade e nostalgia para sua sobrinha neta preferida, no longínquo futuro que eu estarei a muito tempo já morto, enterrado e praticamente esquecido.

É uma noção que, sinceramente, muito me agrada.

domingo, abril 28, 2013

Casablanca



A primeira vez que fiquei sabendo da existência do filme “Casablanca” foi lá pelo final do ano de 2001 para 2002. Estava na praia, namorava a Amanda e estava, naquele final de ano, saindo com a pobre Renata. A Renatinha era irmã duma mina que o Kadu estava namorando, e falar “saindo” é só forma de expressão. Éramos meio inocentes, e apenas estávamos passando tempo juntos. Para mim não havia nada de errado, por mais que estivesse namorando outra mina. Na verdade, não trepamos nem nada de muito forte, mas passávamos o tempo juntos, conversando e se esfregando da forma mais correta possível. Foi dessa mina que nasceu a sensação de que uma das coisas mais sexys do mundo é uma garota que divide comida com você. Dividíamos a comida muitas vezes.


Mas, Casablanca. Estávamos no sala, junto com quase todo mundo, de noite. Renatinha dormia no quarto do fundo, eu no chão da sala, mas ficávamos ali por varias horas conversando e vendo televisão. Eu me lembro de que estava passando algum tipo de programa, ou Globo Repórter ou outro do tipo no SBT. Não sei qual era o tema desse, mas eles mostraram a cena completa do momento em que a Ilsa pede ao Sam que toque As Time Goes By mais uma vez, for old time sake. Lembro-me de ter visto a cena e ficar estarrecido. Não sabia qual era o contexto, qual era a história nem nada parecido sobre o filme, mas essa cena me bateu extremamente forte. Era dum romantismo e sinceridade extrema, a cor preto-e-branco brilhando no rosto da linda Ilsa, a música relembrando claramente de algum outro momento aonde tudo era melhor, mais claro e lírico, a voz do Sam quando pede pra não tocar, o sofrimento dele pelo sofrimento do melhor amigo, as imagens de um homem apaixonado (que eu não sabia quem era naquele momento) quebrando o coração completamente, virando um cínico que desacredita em tudo. Rick se aproximando e brigando com o Sam, sem perceber a Ilsa do lado, sobre como ele havia mandado que ele nunca mais tocasse essa música, que nunca mais tocasse na sombra daquela mulher que havia lhe dado tudo e depois retirado, deixando-o apenas um farrapo perdido jogado na chuva. A musica de fundo sobe, os três olhares se encontram, uma represa de memórias do passado se irrompem e Rick claramente sofre.

Eu vi tudo isso nos pouco mais de 60 segundos que a cena possui. Por sorte o programa passou-o totalmente em inglês, sem uma dublagem que possivelmente mataria a cena para mim. Eu consegui ver tudo isso sem nem mesmo saber o que era o filme. Lembro-me de ter chorado baixinho, escondido, meus olhos lacrimejando bem de leve, a Renatinha deitada comigo, os nosso pés encostando, dedos com dedos, levemente.

A Renatinha veio e passou. Amanda veio e passou. Todas as outras garotas vieram e então passaram. Algumas foram incríveis, outras horríveis, algumas eu fui o pior homem do mundo, noutras fui, sem nem querer, uma boa pessoa que doava tudo pelo pequeno instante de amor. Casablanca ficou. Fui ver o filme de verdade, inteiro, quase cinco anos depois, quando já estava em SP. Foi um soco em minha cara, o Rick o maior personagem que jamais vi, consigo ver muito dele em mim, do cinismo escondido ao romantismo desesperado por alguma coisa que seja verdadeiro. Bogard é o maior ator do mundo. Casablanca é a maior história do mundo, a maior e melhor história de todos os tempos da humanidade. Ela faz com que o maior evento da humanidade, a Segunda Guerra mundial, seja uma pequena nota de rodapé perto do amor dos dois. Todas as mortes valeram a pena apenas pela imagem do Rick abraçando a Ilsa, as bombas dos nazistas urrando no fundo, na Paris a ponto de ser invadida, ela já sabendo que não irá mais ficar com ele, sofre porque não queria se separar mas tem que fazer, e então Kiss Me. Kiss Me as if it were the last time.

Tento ver Casablanca pelo menos uma vez por mês. Me emociono toda vez, uma emoção diferente de todas as outras obras de arte que vi, li, ouvi em toda a minha vida. A maior coisa de todos os tempos. E toda vez que vejo me pergunto: “por quê?” “por que o Rick tem que sofrer tanto mais uma vez?” “Por que não dessa vez eles podem ficar felizes, juntos, pra sempre?” “Por que tudo dá sempre errado?”

Sim, Here’s Looking at you Kid, We’ll Always have Paris.

quarta-feira, abril 24, 2013

Sobre Devaneios, Star Trek, Zumbis, Shoppings e uma infância que eu nem me lembrava

Nos últimos tempos tenho assistido um bocado do seriado Star Trek. Reconheço que isso me faz, oficialmente, mais nerd do que deveria, mas algumas histórias são boas e o pano de fundo aonde tudo acontece me parece sempre muito confortável, utópico numa medida boa e, de uma certa forma, onírico. Um universo aonde o único motivo que valha a pena viver é o de "descobrir coisas novas" sem se importar com as merdas diárias é um universo que eu sinto que vale muito a pena viver.

Mas, lá no fundo, sempre senti (nesses últimos seis meses, mais ou menos) que havia algo mais que me forçava a gostar desse seriado. Alguma coisa que eu não sei exatamente o que é, mas que me deixa feliz e... aconchegado... acho. Pensando um pouco outro dia, enquanto olhava para a janela do ônibus de manhã e forçava-me (mais uma vez) a não ficar deprimido, percebi que era uma sensação que tinha algo dos meus devaneios de zumbi na longínqua 1996/97. Alguma coisa no universo sujo, gore e decadente dos zumbis remetia à agradabilidade asséptica da Jornada nas Estrelas.

Só agora, no meio de um episódio (que pausei para escrever aqui. Tenho esquecido muitas boas lembranças e não quero perder essa) percebi o que me ligava. Tudo remete à mais ou menos 1992, numa das férias que passei em sp.

Nas férias de final de ano, natal-ano-novo-verão-carnaval, apenas um único método era feito, quase sempre. Íamos todos, todos da grande família estendida, para a praia, aproveitarmos da companhia um dos outros. Era realmente divertido, e ficar com um trilhão de pessoas todos os anos, seguindo um certo ritual era incrível. Com o passar dos anos fiquei enjoado desse ambiente, e foi só neste ultimo ano que consegui voltar a ir pra praia, curtir aquele lugar (nas outras vezes ia só para ver meus pais) Porem nas ferias de meio de ano minhas viagens tomavam rumos completamente diferentes e interessantes. Todo ano era uma coisa diferente, um motivo diferente, alguma coisa se não inédita, pelo menos inesperada. Em um, íamos mesmo pra praia, noutro eu ia pra São Jose dos Campos, na casa dos mil tio que lá vivem até hoje, noutro ia pra Mogi das Cruzes, curtir minha madrinha, padrinho e meus primos - este no caso, sendo uma das melhores lembranças que possuo -  e em outros íamos pra São Paulo, exatamente aonde moro hoje dia, passar esse momento com minha avó e avô. E foi no meio do ano de 1992 que vem essa sensação de agradabilidade da Enterprise e Zumbis.

Sei que era 1992 porque lembro-me de irmos alugar filmes, e um deles era Robocop 2, que havia acabado de lançar. Há também o fato que um shopping extremamente chique havia acabado de inaugurar aqui perto, o West Plaza, e lembro-me de irmos todos pra lá, somente passear. Havia fliperamas, muitas cores, pessoas e, principalmente, elevadores e escadas rolantes. Era quase uma cidade fechada, com muitas possibilidades de esconderijo e camuflagem, uma coisa muitas possibilidades de coisas acontecerem, de situação se revelarem. Em suma, eu gostei desse shooping porque era o Bunker perfeito.

Nesse mesmo ano, num final de semana que passei na casa da minha madrinha em Mogi, assisti o Night of The Living Deads e Dawn of the Dead, ambos os originais (preto e branco e cores de sangue de cores incríveis, respectivamente) e uma das coisas que mais me pegaram nesse filme foi a possibilidade das pessoas criarem, seja numa casa grande ou no shopping, proteções e possibilidades de sobrevivencia. Isso me era incrível. Fiquei com esse devaneio inscrito na memória por muito tempo, e em 1996 quando Resident Evil saiu, eu já tinha planejado completamente o meu Bunker anti-zumbi (um plano que funciona até hoje) totalmente preparado.

E é exatamente isso que a Enterprise é, para mim. Um gigantesco Bunker no espaço, uma pequena cidade aonde há mil possibilidades de se esgueirar, sobreviver, talvez uma mais limpa e confortável que um shopping decadente, uma casa velha ou um sitio no topo do morro 30 km adentro da mata, com agua de bica, eletricidade por gerador, comida, fogo, armamento pesado e possibilidade de fuga de emergência para o mar (sim, meu Bunker possui isso até hoje. Quando o Apocalipse Zumbi acontecer, ligue-me que lhe arranjo um lugar. Não vamos ganhar a guerra, mas vamos sobreviver muito mais que 80% da população - mesmo os que acham que conhecem por assistir seriados e jogar jogos de zumbis)

Enfim, precisava apenas escrever isso. Sobre as minhas boas lembranças de quando possuía não mais que 7 anos e tinha alegria ao entrar num shopping. É uma boa lembrança e me faz querer, realmente, voltar a ver o Star Trek. Estou na TNG já e neste episódio o Data, a Troi e o O'Brien estão possuídos por alguma inteligência estranha.

(.... mas eu sou mesmo um idiota...)

segunda-feira, abril 22, 2013

sentei por quase duas horas pensando em alguma coisa pra escrever. tive um bocado de ideias nas ultimas madrugadas, boas lembranças nem tão boas que eu me esqueci enquanto tentava avançar pro próximo espaço do tabuleiro da noite, ou mesmo voltando arrastando alguma coisa pra casa. Outra ideia apareceu enquanto eu estava acidado assistindo um filme de terror total aonde o pai - um brincalhão com sotaque de, acho, irlandês - perde a cabeça por mil merdas e acaba assassinando toda a família, estrangulando a filha por quase cinco desagradáveis minutos. Outra numa outra madrugada enquanto era chutado por uma garota que havia descoberto sei lá como ou porque num puteiro, sua amiga rebolando junto com um cara e um casal trepando na frente. O segurança mandou o casal-amiga dar o maldito fora, que ali não era lugar de quem não trabalha se catar, e eu fui junto, porque não sabia nem o nome deles nem quem eram. A ideia era boa, eram boas ideias, boas lembranças e eu não me lembro de nenhuma.

Nem de uma, enquanto pegava um busão às cinco da manhã de guarulhos pra casa, morrendo de uma ressaca ainda alcoólica, jogado junto da janela, observando com algum olhar lírico cínico praquela cidade que eu não conheço nada. Lembro-me de ver um pedreiro, umas garotas, homens sujos saindo de um bar, mas não me lembro daquilo que havia planejado escrever aqui, um daqueles momentos lembracísticos que ficaram marcados nalguma sobrancelha do meu passado. Eu não lembro de nada.

Doze horas antes eu estava num boteco, sei lá como, na própria guarulhos. Fomos buscar pinga, o wilber e eu, pinga e cerveja nesse boteco que ele conhecia e eu não. Estava fechado mas abriram para ele, e entramos enquanto serviam-nos pinga ruim e garrafas de cerveja, faziam magicas e brincadeiras de Beakman que eu não entendia, por estar arremessado completamente na ignorância do álcool, a mesma ignorância que estava quando tentei conhecer as garotas que foram conosco pro puteiro. Eu simplesmente não lembro qual era a lembrança que devia lembrar. Não consigo saber o que era aquilo de tão importante, relevante, necessário pra estar aqui. Não lembro se era uma história, se era impressão, se era testamento para quando morrer e o Heitor, num ato de bondade que nunca saberei se existiu ou não, o postar, não lembro o que era que devia escrever enquanto estava louco de acido, morrendo de medo dos olhos do pai insano porque mentiu, porque não tem dinheiro, o pai desesperado dançando sozinho no meio de uma festa, pateticamente sofrendo e não podendo dizer, enlouquecendo por não conseguir se mostrar realmente para os outros, furioso porque mais um bilhete de loteria deu em nada numa madrugada fumante escondido. Não consigo me lembrar do que deveria escrever aqui, nesse momento, enquanto meu cérebro derretia e via a morte de perto, tão perto quanto nas outras vezes de drogas, mas mais perto agora porque sobrevivi a aquelas vezes e, naquele momento, talvez não conseguir não-morrer.

Não lembro qual era o que deveria escrever. não consigo me lembrar de nada daquilo, embora saiba que era importante, que todas as vezes era importante.
Só o que posso é me lembrar que deveria me lembrar de algo importante.

terça-feira, abril 02, 2013



Estou passando mal. Não exatamente doente, acho, mas sinto-me com uma imensa vontade de vomitar, dor de barriga e alguma coisa estranha que nem sei direito o que é. Talvez tenha tido intoxicação alimentar, se não uma virulenta pelo menos alguma que me incapacita. Estou passando mal, no sentido estrito da palavra. Sei lá por que.

Já fiquei doente um pequeno bocado de vezes. Não que tenha uma saúde frágil ou cousa similar, mas consigo me lembrar de pelo menos uma meia dúzia de vezes em que estive ruim. A mais longínqua que consigo pensar agora, neste instante desgostoso, é em algum momento dos meus 10 anos, 11. Eu fiquei doente, tive febre, e disso não tenho muitas recordações exceto das alucinações que ela me deu. Sonhei – se bem que isto não era sonho, mas sim delírio febril – com o ex-presidente Collor e pedras ralando num chão de concreto. As duas impressões, mesmo sendo tão dispares e sem sentido, faziam total similaridade naquele momento ruim, não por consciência, mas sim por sensação. Ambos eram uma única sensação, e ainda hoje eu consigo reconhecer o... gosto? Consigo reconhecer aquela sensação que senti quando tinha 10, 11 anos e estava delirando de febre no meu frio quarto, em Salesópolis.

Mais objetivamente, consigo me lembrar da doença que tive aos 17 anos. Eu passei extremamente mal num treino de Kung-Fu, chegando a desmaiar, e meus pais vieram me buscar para que eu fosse à Santa Casa. Uma vez chegando lá, vomitei minhas tripas na porta do carro e tomei uma injeção de benzetacil na bunda. Dores, dores dores dores dores dores, aquilo me faz até hoje ter calafrios quando vejo qualquer tipo de injeção. Devo ter ficado uns dois ou três dias ruim, sem nem conseguir sair de casa, e creio que tive febre novamente, sentindo o Collor/pedra ralado no chão de concreto.

Em 2009, acho, eu estava numa fase Júpiter Maça. Mais por culpa do Wilber do que gosto mesmo (não que seja um musico ruim, mas o Wilber sempre pirou mais) acabamos indo numa sequência de shows na Augusta, quase um mês seguido. Foi bem divertido, éramos uns estranhos lá, danças estranhas e comportamento estranho, e algumas garotas gostavam disso. Eu estava sozinho a décadas (iria sair um pouco com a Nickyyy num futuro próximo) e o Wilber estava se separando da esposa, de forma que estas noitadas faziam sentido. No ultimo show, lembro-me bem, eu iria diretamente dali para Salesópolis, meu primo Kadu iria se casar, e saímos do lugar umas cinco horas da manhã. Caminhei com o Wilber até o metrô – não o da Consolação, nem o Anhagabau, como seria sensato – mas o Sumaré. No final dessa caminhada eu já estava tossindo mais forte que o normal, era junho/julho/agosto e o frio imperava, e eu nunca tive o grande costume de usar blusas ou roupas grossas. E pelos próximos quatro meses eu teria uma tosse horrível, chegando até a travar minha traqueia com isso, perdendo a possibilidade de tragar oxigênio, quase desmaiando com o desespero e a falta de ar. Talvez tenha tido tuberculose, cuspia sangue e catarro demais, alem de que as tosses violentas aconteciam quase de meia em meia hora. Mas não fui no medico, minha atitude passivo-suicida já imperava (como agora) e eu simplesmente esperei melhorar ou morrer, o que viesse primeiro.

Mais recentemente tive pedras no rim, violentas dores que me forçavam arrancar minha alma pra fora do corpo, ou chorar jogado no chão frio (o que vier primeiro) mas sobre elas eu já discursei antes, de forma que falar novamente é um erro. Exceto deixar marcado que é certo que terei um novo surto no futuro. As dores do passado, as dores do futuro.

Enfim, estou mal. Escrever me ajudou um pouco, acho, mas ainda sim sinto-me mal, muito mal, não exatamente doente, mas sinto algo no fundo de mim mesmo que rejeita tudo. Talvez doença, talvez depressão, talvez falta de sentido. Mas tanto agora como ontem e antes de ontem, sinto que tudo ficaria muito melhor se eu morresse (passivo-suicidamente falando, é claro)

sábado, março 23, 2013

Sobre uma manhã fria, um rádio e as coisas que estavam em volta na época.



Era 2003, os últimos dias do ano. Eu estava em Salesópolis, começando a descobrir alguma coisa que seria, no futuro, eu. Começava a beber de verdade, sair todos os finais de semana para pequenas aventuras na cidade pequena, procurando qualquer cousa interessante pra fazer ou ver. Salesópolis é, ainda hoje, uma cidade muito centrada em si mesmo, sair dali é complicado, ônibus é caro, demorado e irritante, nunca tivemos amigos com carros, nem fazíamos questão. A base da diversão estava em nós, no pequeno grupo de amigos que se encontravam na rua, de noite, pra conversar, beber, discutir, vadiar. Era divertido.

Era 2003, mas não era de noite. Eram os últimos dias do ano, de manhãzinha. Estava, neste ano,  começando a ouvir musica, tinha passado neste ano da minha fase só Nirvana pra minha fase David Bowie no The Man Who Sold the World pra uma fase só DOORS pra outra fase Punk com os cds que o Nabuco havia me emprestado, Clash Pistols, e os discos do RAMONES que ouvia junto com o Bifo, o velho Bifo, e com o Carlão no Mamaquilla, o velho Carlão irmão da Cláudia... Lembro-me, algum tempo antes, de estar ouvindo Led e Uriah Heep com um pintor hippie que passou em casa. Estava começando a descobrir alguma coisa que seria eu no futuro.

Era 2003, de manhã nos últimos dias do ano. Eu costumava ouvir muito rádio, a KISS estava no seu auge como único lugar aonde se podia ouvir boa musica. Internet era algo estranho para mim, e era complicado conseguir discos novos, ou comprava em banquinhas de feira na quinta-feira de mês, ou copiava de amigos. Musica era complicada, e eu costumava ouvir a KISS para conseguir perceber coisas novas. Era os últimos dias do ano, e como sempre (acho que ainda é assim) a KISS fazia seu festival de 500 melhores musicas do ano. Era algo que durava uns dias, ininterruptamente, e eu aproveitava pra ouvir-la quase toda. Todos os meus amigos estavam, como eu, também descobrindo coisas novas.

A KISS sempre foi difícil de sintonizar em Salesópolis. A cidade é um buraco no meio de vários morros, e os sinais de radio não pegam exatamente bem. No meu quarto, no meu velho frio quarto que ainda hoje durmo solitariamente sempre que retorno bêbado de madrugada, o único local que a KISS pegava minimamente bem era no alto, em cima da prateleirazinha que esta no canto. No dia das 500 mais da KISS eu deixava um rádio em cima dessa prateleira, ligado a madrugada toda, tocando as 500 musicas.

Neste dia, quando eu ainda estava descobrindo quem eu era, o que eu era, o que eu seria. Lembro-me de acordar exatamente com o inicio da musica “Won’t get Fooled us again” do The Who. Era uma madrugada fria e, excetuando pelo teclado e a bateria da musica, nada mais respirava. Eu sorri naquela manhã, vendo quão bom era o futuro pra mim.

Esta é uma boa memória. Memórias boas ficam melhores a cada dia, mais brilhantes e confortáveis. Todo o resto dá errado, tudo mais decai, escurece, me faz perder a confiança no futuro que um dia tive brilhantemente.
As boas memórias, todas elas, são as coisas que me sobram, somente esses pequenos recortes de vida é a única coisa que sobra em toda a minha vida.