sexta-feira, abril 13, 2012

Horses in my dream

Não posso dizer que seja o pior momento que jamais tive.
Alias, é engraçado como, para um blog/coiso/pagina em branco que se propõe apenas a lembrar há muito de reclamações ou divagações sobre o hoje; Em alguns momentos eu realmente tento me lembrar, e isso é agradável (quando dá certo) mas pela velocidade e vontade de como isto aqui é proposto, ir me lembrando como uma maquina não funciona. Nunca consegui ler Tempo Perdido de Proust e não me pretendo criar algo similar.
Logo, não posso dizer que este, agora, seja o pior momento que jamais tive. Alias, se formos traçar uma linha daquelas que tem nos contadores de batimentos cardíacos em qualquer filme de médico, aquele que determina se há ou não vida no personagem paciente, eu diria que a linha teve muito mais "vida" (e com vida me refiro a altos e baixos) do que antes. Muito mais. Muito mais mesmo. E incrivelmente os baixos não foram tão baixos assim, quando comparados com antes. Houveram grandes altos.

porem, mesmo assim, se você, hipotética leitora, vira pra mim e pergunta: "e ai? como você esta?" a resposta dificilmente varia do "sobrevivendo". Não há coisas horríveis, há muitas coisas boas, mas ainda sim não posso dizer com absoluta alegria de que "agora sim, as coisas estão andando. sinto o futuro como algo glorioso e brilhante. uma massa de situações onde, quando bem velho, terei imensas saudades, e saudades verdadeiras e não apenas nostalgia cega". Há altos, mas um morro de cinco metros não é algo alto.

Mas, novamente, pra quem esteve grande parte da vida 200 metros abaixo da terra, estar cinco acima da linha do mar é incrível. Realmente incrível. Lembro-me (e agora vem a porção lembrança disto. é possível que agora engrene meia dúzia de linhas sobre memoria, e ninguém poderá reclamar de que isto é só reclamação e divagação) Lembro-me poucas vezes de me sentir assim, quando não há aquela certeza implícita na minha cabeça "relaxa. é só você morrer que tudo isso acaba". Talvez apenas duas vezes, em mais de dez anos. Uma aqui outra em Salé. Ambas morreram muito rápido e em ambas posso afirmar que tive grande parte de culpa (mas uma bem menos que na outra. fui alguém horrível...) Uma pequena (pequenina) esperança reacendeu nos últimos dias (dois meses?) e vem muito fracamente, como um vagalume doente, brilhando, me fazendo esquecer que perdi, que não há fuga, que a vida me devorou e não sobrou nada. Uma fusco-fusco que me obriga a levantar, a andar até o ónibus, algum sentido que pra mim faz todo o sentido.

é uma pena que este motivo seja um bocado natimorto.

Veja, não é como se eu não acreditasse que isso vai durar. Não é como se, depois de ser tão cínico e doente e fraco por tanto tempo, que tivesse perdido a capacidade de entregar-se ao desconhecido improvável, mas é que quando recupero a lógico, depois de uma noite incrível, bebendo e bebendo e me sentindo completamente bem só por estar ali, bebendo e conversando, conversando sobre inutilidades, ouvindo pequenas reclamações e impressões da vida, quando me recupero de toda a ofuscação que isso me traz, percebo claramente que este é um jogo praticamente de cartas marcadas, e que as minhas possibilidades de ganhar são pequenas, muito muito pequenas.

Eu costumo reclamar muito neste treco de escrever que tenho, mas perceba que não estou reclamando agora destas minhas chances microscopicas. Eu apenas sei que ela, a impossibilidades, esta ali, e sei também que o máximo que terei será poucos segundos de felicidade. Usando argumentos alheios, sei que o pisar nas nuvens é passageiro. Entretanto não me parece lógico recusar essa alegria apenas por saber que ela possui vida curta, depois de tanto tempo sem ter nenhuma grande de verdade (DE VERDADE) pra se agarrar, qualquer luzinha já me faz crer.

Portanto, não posso mesmo dizer que este é o pior momento que tive. Talvez não seja o melhor, e talvez perde-lo me faça ficar muito mais cínico, morto por dentro, amedrontado que antes. Provavelmente. Mas mesmo assim não aprecia-lo seria uma idiotice sem par (mesmo para mim)