Não consigo dormir.
Nunca tive um sono muito bom. Dormia na parte da casa mais próxima da porta, e sempre ficava puto quando os cachorros da rua latiam. Ou quando, aleatoriamente, pessoas vinham fazer procissão (?!) de madrugada. Ou mesmo em dias aonde minha adrenalina era maior que o normal.
Lembro-me de, no dia que antecedia o inicio da quinta série, de não conseguir dormir. Fiquei toda a -maldita- madrugada pensando, divagando, sonhando com as inúmeras e incontáveis possibilidades que eu, na minha pequena inocência de moleque salesopolitano, imaginava que ocorreria. Não aconteceu nada e eu fiquei a madrugada toda inventando histórias que nunca ocorreram. nunca.
Não consigo dormir, sempre tive esse pequeno problema. Lembro-me de vagar pela casa, em salé, perdido até umas 4 ou 5 da manhã. Nunca tive imensos problemas em dormir pouco (há épocas assim, há épocas de destruir-me na cama) e portanto ficar até as quatro da madruga olhando pras ruas da cidade me era, menos um prazer, mais uma necessidade. Televisão desaparecia depois de uma hora (pornografia era medida em minutos) não havia internet nem eu sentia-me no desejo de escrever algo (naquela época um papel poderia ser a prova de um crime) E portanto eu ficava ou no muro do quintal, ou -quando fizeram o velhaco segundo andar- na janelinha mais longínqua, olhando pessoas bêbadas que passavam (lembro-me de ficar muito excitadinho quando vi minha professora de sei-lá-o-que dando os maiores catos numa rua escura, lá pelas duas de uma terça) olhando cachorros que brigavam, mosquitos e morcegos que voavam e eu, que só sonhava e sonhava e sonhava acordado, olhos abertos olhando um, agora já sabido, nada.
Seria momentos desperdiçados, acho eu. Se não fossem obrigatórios. Mas ainda sim eu me sinto triste, porque nada nunca foi mais interessante, romântico, sincero ou relevante na minha vida do que aquelas horas de total negritude, olhando uma janela esquecida num ano perdido do século XX.
Eu não consigo dormir.
terça-feira, maio 28, 2013
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