Outro dia eu estava sozinho em casa. Sozinho por quase quatro dias, e tinha em minhas mãos um acido e meio. Depois de ter tomado banho, feito a barba e comido alguma coisa, resolvi que era hora de usar esta metadinha que sobrava.
Já no final da viagem começou a chover, era mais uma daquelas chuvas que está desintegrando São Paulo, uma avenida por vez. Eu, como não estava em plena posse de minhas capacidades de bom senso, resolvi subir na laje-antigo-pombal daqui para olhar a chuva. Ela não era muito... molhada, não estava caindo tanta agua como noutros dias, mas a ventania e os raios deram um show a parte. Obviamente como estava chapado, acabei indo parar em um lugar completamenente diferente deste que eu ali olhava. Fui para o passado, e para as revistinhas da Turma da Mônica.
Quando aprendi a ler, lá pelos sete anos e cinco meses, fiquei viciado em procurar palavras. Lembro-me com certo detalhismo de quando, ao voltar da escola, numa tarde avermelhada, fiquei feliz ao conseguir ler uma placa, uma daquelas que giravam com o vento. Lia tudo que podia e minha mamaezinha logo tratou de influenciar isto dando livros para que eu lesse e as revistinhas da Mônica. Creio que comecei a assina-las lá pelos nove anos de idade, quase certeza porque lembro-me de ter ido a um jogo de volei da seleção brasileira ouro olímpico com meus primos, um jogo aonde o Marcelo Negrão ganhou um troféu, e isto provavelmente foi logo depois do ouro de 92. O ponto é que antes de ir a este jogo (aonde eu não entendi nada do que acontecia, só fui manjar de regras de volei bem mais velho) eu lembro-me de estar lendo um gibi do cebolinha no banheiro, um aonde ele virava um robô para derrotar a mônica. Então era 93.
Eu lia bastante, e desde aquela época sentia a necessidade de ler até mesmo na mesa, enquanto comia as coisas. Embora hoje em dia eu seja relativamente bom para comer, deliciando-me com qualquer coisa, naquela época eu era uma criança igual a todas, as comidas realmente não me interessavam. Porem, as comidas que estavam no gibi me pareciam deliciosas. Lembro de uma história, sobre Fondue, que me marcou profundamente. Demorei uns cinco anos pra comer um fondue de verdade, mas desejei este ato viceralmente. E eu lembro de reclamar para as pessoas sobre como aquele mundo, o dos quadrinhos, as coisas pareciam ser melhores, mais deliciosas, mais reais que a do mundo real.
Eu, desde pequeno, tinha uma pequena compreensão de que o mundo das ideias é o possível mundo real, sabia que via no arroz e feijão na minha frente apenas um resquício daquele feijão e arroz ideal que estava em cada quadrinho de um gibi da Magali. Eu desejava, mas sabia internamente que nunca poderia encontrar a comida perfeita que estava sendo mostrada ali, na minha frente, em pequenos desenhos coloridos.
Logo depois disso eu desci da laje-que-antes-era-pombal, mesmo com a chuva ainda caindo. Precisava fechar as janelas para não inundar a casa. E umas duas horas depois eu estava quase novo, tão são quanto sempre fui.
E é isso.
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