quinta-feira, junho 21, 2012

É sempre muito difícil dormir. Anda acontecendo muito do desespero silencioso, quando tá tudo escuro e você continua falando sozinho. Tenho estado sozinho um bocado de tempo, e me assusta muito quando as vozes ficam altas demais.
De noite é sempre pior.
Há sempre um certo flerte com o suicídio. Sim, eu sei, Camus organizou toda uma argumentação incrível sobre como não deveria querer morrer, como só vivo que todo o absurdo funciona, e blá blá blá. Não estou aqui analisando sobre uma ótica intelectual toda a coisa. Estou apenas conversando com as malditas vozes altas na minha cabeça. E grande parte das vezes há um desespero, uma necessidade de morrer logo.

Digo, vamos supor que a morte é o final de tudo. Que é realmente o desligar de uma tomada e - piz - acabou. Você não mais existe. Caso seja assim, seria a melhor coisa do mundo. Não há nada mais difícil que continuar, que andarilhar perdido por madrugadas chuvosas, seu tênis molhado, a camisa grudada, frio, passo após passo sozinho, olhando pro chão sem coragem pra nada, grande parte das vezes sem nem sabendo exatamente onde você está, pra onde vai, pra onde deveria ir. E difícil saber que sempre será assim. É muito difícil e em muitos momentos o simples "não existir mais" é confortável, em frente a toda uma existencia-zinha mediocre, banal e sem sentido. Sem propósito. Sem esperança.
Entende? é claro que sim. Seu dente quer cair, a boca esta sangrando. Você acorda de madrugada desesperado pra escrever alguma coisa. A voz fica falando e você inventa conversas só pra não ficar parecendo maluco. Porque tudo isso não é confortável. E inventa um punhado de coisas. inventa mentiras pra si mesmo só porque as coisas não vão bem. nunca foram. E cada dia é pior que o outro.

E há o desejo de morte sempre.
é engraçado, acho. Porque não é um ódio contra meu corpo. Como já dizia o Heitor, sou medroso demais pra realmente explodir minha cabeça com uma bala (embora toda vez que um metrô chega eu sinto uma ímpeto de me jogar. Já vi uma pessoa morrendo assim. é horrível pra quem esta do lado de fora de mim, mas seria confortável, acho, por ser certeza) mas eu não creio ter coragem. Por isso bebo.

Veja, é preciso acabar comigo mesmo, certo? sim, certo. mas eu não tenho coragem de fazer algo realmente drástico. Não é como se fosse alguma punição para alguém, não é como se eu precisasse ouvir de alguém "coitado, ele sofria" nem coisa parecida. Nada de show, de carta-testamento, de mostrar pra alguém "a culpa era sua". Nada de coisa nenhuma. Portanto, nada de explodir a cabeça ou pular do metrô. Mas ficar bêbado o tempo todo? vomitar sangue? ficar forçando sua própria existência esperando algum enfarto ou seu rim estourar e você vazar sangue por todos os poros, se engasgando caido no chão frio do seu quarto, sozinho, o gosto metalico de sangue na boca, o pequeno desespero se acalmando, tudo escuro e mais escuro, tontura, frio e leveza, morrendo sozinho, deitado, de hemorragia interna devia a falencia de orgãos? isso seria lindo! Ninguém ficaria achando que era ceninha, simplesmente forcei mais do que deveria. Não me importei com os riscos. Apostei e perdi. acontece.

Isso seria genial.


E note, não é algo que desejaria prum futuro longuinquo. Não quero que isso ocorra daqui uns sete anos. Hoje seria um ótimo dia para acordar morto - ataque cardíaco aos 27 anos, que tragédia - foda-se se não fiz nada de útil, se não escrevi coisas que me mantém vivo depois da morte. Se fui mais uma promessa não cumprida. Todas as esperanças literarias recusadas. Se falhei miseravelmente em tudo, fui um idiota sem sentido. Se não há ninguém realmente que vá chorar a morte dois anos depois dela acontecer, de noite.
isso seria um alivio. Eu não desejo deixar rastros.

Como dito, não é uma luta contra um absurdo. O Camus supõe que estou imaginando-me vivo pra estar morto. Eu só queria não ter que acordar mais uma madrugada, quatro horas da manhã, e ficar triste por estar vivo. Tudo acabado, seria lindo.
E seria melhor ainda se não houvesse nada depois disso.

Amanhã eu vou beber. Depois de Amanhã também. Domingo já tenho no mínimo uma garrafa de conhaque para matar, sozinho. Espero conseguir algum lugar pra fazer o mesmo segunda e terça e quarta. Esse é o meu suicídio. Cada vez melhor e maior. Mais proximo. Mais certeza. Inevitável. Uma hora o corpo não aguenta, eu caio agonizando e pimba! Foi Suicídio sem ser, oficialmente, suicídio. E ninguém vai chorar o fim de mais um idiota. Pelo menos eu não.

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