Eu devia ter uns sete anos. Não menos que isso nem mais. Havia acabado de aprender a ler, e um novo grande mundo tinha nascido pra mim.
Não sei qual era a situação, mas acabei indo viajar com minha tia-madrinha para a casa dela, em Mogi das Cruzes. Sempre gostei muito de ir lá, bem tratado e tudo mais. Sentia-me bem.
E então, creio que por ter aprendido a ler a pouco tempo, minha madrinha me comprou alguns gibis. Revistinhas em quadrinhos. Sempre gostei delas, lembro-me de ir na casa de minha tia Maria, que era perto da escola, entrar no banheiro e ficar lendo coisas do Hulk que lá existiam. Foi lá que vi pela primeira vez o Hulk cinza.
e então minha madrinha me comprou um punhado de revistas. Muitas mesmo. Todas da marvel, e lá lembro de ter um do Homem de Ferro, do Capitão América, do Demolidor, uma com o Justiceiro dando uns pipocos no Retalho e tudo mais. O Homem Aranha negro lutando contra o Kraven, o caçador. Era tudo tão mágico e divertido, utilizar minha mais nova habilidade para reconhecer no fantástico o mundo novo.
Eu voltei toda a viagem lendo as revistinhas.
E então, no outro dia, fui na escolinha. Obviamente que levei todas as revistas, mostrar para o pessoal como eu era um cara foda. E todo mundo pirou, líamos juntos, imaginando quem éramos (eu, obviamente, Demolidor. Se bem que na época nem reconhecia direito a profundidade do personagem. Hell, aos sete anos não poderia ter noção de "ser cego") e ficamos brincando, no pátio da frente (onde, quando eu levava minha bola de basquete furada, fazíamos um grande circulo numa coluna, com giz, e "jogávamos" basquete) eu e toda a grande galera estendida, mulecada sendo mulecada. Estava muito feliz. Completo.
Estava tão feliz, mas tão feliz de ter os gibis, de me divertir com eles e com toda a galera, de estar num momento incrível, que me esqueci completamente das minhas revistinhas. Inadvertidamente, deixei todas elas no banco, no cantinho do pátio onde todos nós estavamos. Eu estava brincando, me divertindo, extremamente feliz por ter algo que era reconhecido por todos como "legal", imaginando mil mundo e possibilidades, extasiante.
E esqueci minhas revistinhas ali. Fui para a sala sem elas. Só fui me lembrar uns dez minutos depois. E o desespero bateu alto em mim, como podia ter esquecido daquilo que, no momento, era a coisa mais importante da minha vida? Todo o sentido de "ser um cara legal" estava integrado as minhas revistinhas da Marvel. Eu não era nada sem elas.
Minha mãe era minha professora, e eu, já chorando, fui falar com ela para ver se podia ir lá fora procurar as revistas. Fui com alguns amigos, rapidamente, mas é óbvio, elas já haviam desaparecido.
Eu chorei como nunca. Havia tocado o céu da felicidade e agora, por burrice minha, tudo estava perdido. Inconsolável. Tive outras revistinhas, mas nunca terei aquelas perdidas para sempre.
Toda a minha vida é uma repetição ad-infinitum desta situação. Sempre que tenho em mãos revistinhas novas, incríveis, que valem e a pena e dão sentido pra vida, perco-as, antes de me sentir completo. E sempre acabo inconsolável, só restando a lembrança daquilo que por poucos momentos foi o paraíso.
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