segunda-feira, janeiro 23, 2012

Prisão

certa vez, em salesópolis, eu estava bêbado em casa. não sei exatamente qual era o contexto dessa bebedeira nem o porque que comecei, mas estando naquilo que antigamente eu chamava de cozinha (e que agora é uma ante-sala para a grande cozinha branca que minha casa) naquele espaço onde havia um som, agora roubado, eu medi três passos largos e comecei a andar de um lado para o outro. 1, 2, 3 vira, 1, 2, 3 vira, 1, 2, 3, vira, 1, 2, 3 vira.

Veja, eu estava imitando o Pappilon, aquele prisioneiro frances que tentou por 30 anos escapar. Em um determinado momento de seu livro ele descreve as prisões solitárias em que ficou dez anos, sem luz do sol, trancado numa pequena cela de tres passos, sem nada pra fazer por dias. Ele ainda pretendia fugir, e uma cela tão pequena iria sem duvida enfraquece-lo, para não dizer enlouquece-lo. Portanto, pra se manter minimamente saudável, Pappilon andava em sua cela umas dez horas por dia, um dois três passos vira, um dois três passos vira, um dois três passos vira, um dois três passos vira.

Acho que naquela época eu estava relendo o livro. Meu pai me contou sobre este livro aos 5, 6 anos. Acredito que numa vez em que vimos o filme do Pappilon na tv. Ele me disse do sentimento de nojo que teve ao ler a cena dos homens escondendo canos ocos em seus rabos, canos onde guardavam dinheiro. E ele me prometeu que arranjaria o livro pra que eu lesse. Essa promessa demorou dez anos, no mínimo, pra ser cumprida. Só pra constar, a minha memória mais antiga desta vez que vimos o filme é uma cena onde o Pappilon está na solitária, tem que comer baratas pra sobreviver e, ao final da pena (que creio, numa primeira vez, foi mais curta, talvez alguns meses) no final da pena ele não consegue olhar para a luz.

Então lá estava eu, um bocado bêbado, sozinho em casa, andando de um lado para o outro, assim como Pappilon. Talvez apenas queria ver se conseguiria aguentar essa rotina desgastante por algum tempo (consegui por uma hora) talvez queria sentir o escoamento de consciencia que o Papi tem neste tempo, onde consegue rever seu passado com nitidez (mas ele estava na completa escuridão, eu não) ou talvez era apenas algum bêbado entediado que queria fazer algo estranho pelo prazer da estranheza.

Eu sou um prisioneiro de mim mesmo. Sempre o fui. Obrigado a viver na solitária que é a minha mente, a minha consciencia, obrigado a me aguentar, a resistir, a sobreviver, obrigado a se agarrar na mísera esperança de que amanhã será um dia diferente, que amanhã conseguirei fugir deste calabouço que é mim mesmo. Um prisioneiro, um estrangeiro, um homem absurdo.

Acho que sou muito Camuniano.

Sem comentários: