segunda-feira, julho 04, 2011

Sandrão e Jardel.

Na quinta, sexta serie da velha escolinha Olga Chakur, de Salesópolis, eu andava básicamente com duas pessoas. Sandrão e Jardel. Eramos um grupinho que se ajudava mutuamente naquilo que era possível, sempre fazendo trabalhos juntos, colando um do outro (in fact, só eu passando respostas pra eles) e se virando como podiamos.

O Sandrão foi o cara que eu mais convivi. Era meu vizinho-de-bairro e unico amigo da minha idade naquele lugar. Ele morava um pouco perto da minha casa, mas num local onde já não tinha mais asfalto, o que dava ali um ar de roça que não tinhamos sempre em nossa cara. O Sandrão era algo como um cara estranho, fisicamente falando. Magro, bem magro, com os olhos saltados, quase saindo fora das orbitas (se não me engano isso é uma doença genética, ele herdou maternamente isto) com uma voz meio esganiçada (se bem que, imagino, naquela época todos nós eramos um pouco isso) Ele era talvez o maior parceiro de videogame, de amar garotas em segredo, de jogar bola aleatóriamente e de fazer merda. Mas psicologicamente falando o Sandrão nunca foi algo extraordinário. Quero dizer, é lógico que ele tinha características marcantes, que ele era alguem com traços que o definiam, só que estes nunca foram algo que o fizessem sobressair dos outros. Ele seria um daqueles personagens de filmes do Ferris dos ano 80 que você só vê alguns segundos, sem ter como perceber tudo que há ali. É lógico que ele era doido para sexo, doido para bebidas, doido para matar aulas e ruim nelas. Mas nisto fico na mesma definição de quase todo mundo.

Em suma, ele era um cara legal.

Já o Jardel era algo diferente. Talvez por contrastar com os outros meros salesopolitanos daquela já longe quinta/sexta série, o Jardel era alguem que eu consigo definir muito bem psicologicamente, embora não possa dizer o mesmo da aparencia -comum- O Jardel era algo como um malandro em nascimento, um Neal Cassasy sem a gloria ou o impeto de viver loucamente. Talvez por ser dois anos mais velho que a maioria da sala (o Sandrão era só um ano mais velho) ou talvez por ser de fora (se não me engano ele era de mogi antes de ir morar em Salé) ele conseguia agir livremente naquele campo de safadezas que nós, os proto-caipiras, que nós apenas olhavamos com grande receio. Roubar coisas, xavecar minas (na quinta/sexta série isso era bem dificil para um estranho como moi) ter pornografia, se livrar de roubadas, mentir, se arriscar. O Jardel seria algo como um exibicionista narcisista, se é que naquela idade todos não tentam ser assim.

Nós três eramos como tres idiotas tentando sobreviver num mundo que, sozinhos, seriamos devorados. Mesmo o Jardel, que aparenta na minha descrição ser um auto-suficiente, não conseguiria se virar sem nossa ajuda. Passavamos quase 10 horas juntos, fingindo que estudavamos na aula, criando coisas pra fazer, mentindo e tudo mais aquilo que todo mundo nessa época faz (ou fazia)

Hoje em dia não os vejo mais.

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