Eu devia ter uns doze anos. talvez menos, mas não mais. Sei disso porque isso nessa epoca eu ainda me sentia atraido pela Carina, a garota que depois, na adolescencia, foi ter uma bunda imensamente grande e bonita e que hoje em dia é mãe de dois filhos (e esta menos acabada que eu) Tinha ido com meu pai para mogi das cruzes no final de semana, coisa rapida, apenas iamos passar na ex casa da minha tia, que agora morava num sítio em salesópolis, para pegar algumas caixas de decorações. Isso foi bem na epoca que meus primos começaram a morar sozinhos naquela casa e minha tia fazia questão de ter todas as tralhas que juntou durante uma vida inteira naquela casa antiga no seu novo sitio, e lá foi meu pai e eu percorrer um grande caminho de carro atrás dos objetos.
A ida foi tranquila. Me lembro de ter conversado com meu pai sobre a epoca em que ele foi caminhoneiro, sobre como era cortar eucaliptos e levar por estradas piores que o inferno e se aquele homem que viajava com ele, um negro, realmente morreu ou eu apenas inventei isso. Lembro que perguntei sobre isso exatamente no momento em que passava ao lado de uma plantação de alface (tão comum em biritiba mirim, a cidade do lado de salé) e pude perceber no rosto dele que ele estava pensando no mesmo homem na mesma hora.
Fomos até o ex-casa da minha tia, meu primo mais velho não estava e tivemos que pegar as caixas com meu primo mais novo. Meu avô tinha morrido a pouco tempo, talvez não mais de um ano, e chegamos a comentar com tristeza que, caso ele estivesse vivo, faria toda essa viagem sozinho e carregaria as caixas na metade do tempo. Mais do que saudade do velho, estavamos falando a verdade, meu avô conseguiria fazer isso e ao mesmo tempo cuidar de seus pombos, criar um sistema de segurança-na-gambiarra-mas-que-funciona e beber uma caneca de cerveja. E agora ele é um corpo em decomposição. ainda sim triste.
Carregamos o carro, um ford (acho) marrom que me fazia sentir realmente enojado. Não porque o carro era sujo, mas sim o fundo dele soltava muitos pelos, pequenos pelinhos que não sei de onde saiam, mas que nunca acabavam. Não consigo explicar exatamente onde essa parte do carro era, isso porque não entendo nada de carros. Mas o importante é que saimos da casa do meu primo e voltamos pra casa.
No meio do caminho, numa reta em biritiba mirim, batemos o carro. Deviamos estar numa velocidade de, mais ou menos, uns 80 km por hora, não sei muito bem como tudo ocorreu mas sei que retornei a consciencia já na ambulancia, totalmente imobilizado. Meu pai estava ali, na minha frente, com um corte sangrando na testa e uma mulher mais velha que ele passando um pano e colocando um curativo. Nenhum dos dois haviam percebido que eu tinha retornado a consciencia e esse foi meu ultimo pensamento lógico, já que no segundo seguinte percebi que estava com minhas pernas machucadas.
muito machucadas.
Aparentemente uma parte do carro tinha esmagado minhas pernas. quebrado apenas os ossos da canela e um pouco do pé, nada que fosse impossivel de recuperar, lembro do doutor em fisioterapia falar que, se o carro que bateu em nós tivesse me pegado um pouco mais acima, no joelho, eu deveria usar bengala para o resto da vida.
Acabei indo na cirurgia, ficando quase duas semanas das minhas queridas férias de cama, sem poder me levantar nem jogar videogame. Foi ali, naquela cama, que entendi pela primeira vez qual era realmente a ideia do Bras Cubas no Memorias Postumas. Minha mãe chegou no hospital (que era em mogi, a cidade grande, e não Salesópolis, para onde fui transferido dias depois) toda chorosa, minhas irmãs menores junto, tambem tristes. Essa foi a primeira vez que eu tinha me fodido e que elas não estavam rindo da minha má sorte.
O seguro do homem que bateu o carro pagou por todos os consertos. O plano de saude do trabalho do meu pai pagou pelos medicos que recebi. Em dois meses estava andando de novo, sem bengalas nem cadeira de rodas. Nenhuma cicatriz restou na minha perna, e mesmo que houvesse alguma hoje tenho tantos pelos na perna que ela ficaria escondida.
Mas ninguem pagou pela dor que sinto toda vez em que há frio umido, quando não consigo caminhar direito por culpa da dor que destroi minha perna.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário